Sônia e Jeferson montaram escola de reforço na garagem de casa e já acolheram cerca de 200 crianças

Ana Vitória, 11 anos, quer ser escritora para publicar “livros de criança com muita diversão”. Com sorriso largo no rostinho, conta que já começou a trilhar o caminho, premiada em concurso de redação na escola.

Até quatro anos atrás, ela tinha tanta dificuldade em acompanhar o que a professora ensinava que se sentia “deixada para trás na sala”, em suas palavras.

– Foi tipo uma transformação depois que eu vim para a escola da Tia Sônia e do Tio Jeferson.

A “escola” que transformou Ana Vitória foi improvisada em uma garagem, com carteiras, cadeiras e cadernos doados. A cada móvel novo que chegava, os “tios” recebiam mais uma criança que aguardava. Só depois de sete anos funcionando, o espaço ganhou cores novas, com reforma feita pelo programa do Luciano Huck, que acolheu a história de garra do casal.

Na formalidade dos títulos, Sônia e Jeferson não são professores. Não puderam terminar o segundo grau. Mas a vontade que têm de transformar a vida das crianças é tanta que aprenderam sozinhos a ensinar e oferecem reforço escolar de forma voluntária às crianças do bairro Orestes Lopes de Camargo, em Ribeirão Preto.

Superar desafios, afinal, há muito é rotina para os dois. Sônia perdeu os movimentos das pernas ainda bebê, pela paralisia infantil. Jeferson teve meningite quando tinha entre 15 e 16 anos e também ficou paraplégico. Ela garante que a principal lição é transmitida para os alunos sem uma só palavra:

 – Está na cadeira de rodas. Quando eles olham para a gente, veem que nada é impossível.

Desde 2007, quando abriram as portas de casa para quem tem dificuldades na escola, estimam que já acolheram mais de 200 alunos, entre cinco e 12 anos. Ensinam crianças a escrever, cálculos, raciocínio, ciências, conhecimentos gerais!

Vitória quer ser escritora. Lucas, 12 anos, quer se formar veterinário. Cauã, 10, sonha em fazer engenharia. Tia Sônia conta que uma das primeiras alunas que teve, quando a ideia era uma sementinha, passou em três faculdades neste ano.

Na garagem do projeto Suave Caminho sonhar é, mais que possível, obrigatório!

Projeto Suave Caminho Ribeirão Preto

O amor de Sônia Maria Soranzo, 59, pelo ensinar começou aos 20 e poucos anos. Na época, ela diz, as pessoas com deficiência encontravam muitas dificuldades para conseguir empregos. Ela morava com a avó e começou a dar aulas de reforço para as crianças do bairro, como um “bico”.

Sonhava em ser arqueóloga. Mas as dificuldades em estudar atrapalharam o sonho. A escola ficava muito longe de sua casa, os avôs tinham bastante idade e não havia quem a levasse e buscasse. Mais velha, já com a vida organizada, tentou o supletivo para terminar o ensino médio, mas a qualidade do ensino a desmotivou a continuar.

– Eu acordava às cinco da manhã para ir à escola e depois ia trabalhar. Eu queria aprender. Não estava indo lá por um diploma.

Jeferson Andrade, 54, também não pôde terminar os estudos. Deixou a escola logo após a meningite que lhe tirou os movimentos das pernas.

Os dois se conheceram há 23 anos, em um jogo de basquete para pessoas com deficiência. Ele jogava e ela assistia. Fizeram um intercâmbio de conhecimentos.

– Ele me ensinou a andar de cadeira de rodas. Eu não sabia. Andava com muletas, mas era bem mais difícil. Nós somos a mão e a luva.

Ela não abriu brecha para enrolações. Um mês de namoro e deu um ultimato: “É isso o que a gente quer? Então, vamos casar!”. Para isso, no entanto, precisavam ter o cantinho próprio. Dobraram, então, a rotina de trabalhos.

Ele vendia balas e doces nas ruas e ela atuava em uma companhia área. Pouco tempo depois, porém, ela perdeu o emprego. E o casal passou a recolher recicláveis nas ruas para comprar o terreno, no Jardim Orestes Lopes de Camargo, onde hoje funciona a escola. Conseguiram construir uma casa em 2002 e puderam, então, se mudar.

Nessa época, ela já havia conseguido emprego como telefonista em uma escola, onde trabalha até hoje.

– Deus multiplicou as coisas e tudo deu certo!

Sônia conta que a ideia de dar aulas para crianças surgiu de repente. Acredita que sua fé a conduziu.

– Eu estava ouvindo o culto e na palavra dizia que eu tinha que investir em educação e sabedoria. Até pensei que talvez eu deveria voltar a estudar. Mas no outro dia uma menina bateu na nossa porta dizendo que precisava de reforço escolar.

Para incentivar essa primeira aluna, ela convidou outras duas vizinhas a participarem e, então, em fevereiro de 2007, nascia o projeto “Suave Caminho”. Uma dessas três alunas foi a que passou na faculdade este ano.

– Quando eles chegam, são tão pequeninos, que eu abaixo para dar beijo. Quando eles vão embora, precisam abaixar para me alcançar.

Sônia e Jeferson não tiveram filhos. Biológicos, apenas.

– Eles não são meus alunos. São filhos. Aqui, é casa de mãe, onde tem acolhimento, carinho.

Projeto Suave Caminho Ribeirão Preto

Todo aluno que entra pela porta da escola passa pela tia Sônia para um beijo antes de tomar assento na carteira. Mesmo os irmãos mais velhos, que levam os pequenos e já não estudam mais ali, seguem o ritual antes de ir embora. Sônia é quem explica:

– Os adultos querem que as crianças subam até eles. São eles que precisam descer até as crianças. Criança é como semente. Depois que cresce, se pende para um lado, você coloca uma aresta para ajudar. É na conversa. Não adianta brigar.

Ela não gosta de rotular seus alunos. São crianças que estudam em escola pública. E pronto.

– Eu não concordo com essa forma de falar: ‘crianças carentes’. Carentes todos nós somos! O que é ser carente para você?

Hoje, a escola não é mais feita de carteiras improvisadas. Tem móveis novinhos, materiais didáticos, jogos, brinquedos. A fachada da casa de Sônia e Jeferson é colorida e tem o nome do projeto em letras destacadas.

O visual caprichado veio pelo programa do Luciano Huck, em 2014. Uma amiga inscreveu a história do casal em um quadro que premiava boas ações e a casa foi transformada. Até a sala, que era espaço de lazer, virou local para as crianças.

Projeto Suave Caminho Ribeirão Preto

Toda a beleza da estrutura, porém, não reflete as dificuldades que os dois enfrentam para manter a escola funcionando. Hoje, eles atendem em média 30 crianças e têm uma lista de espera com mais 20.

Dividem o grupo em duas turmas – alunos mais velhos e mais novos – e ministram reforço de segunda a quinta-feira, das 17h às 18h30. Todo o trabalho é mantido por doações e pelo empenho dos dois. Sônia explica que eles fornecem até mesmo o uniforme, para que não haja diferenciação.

– Eu não queria que uma criança tivesse condições de comprar um material escolar lindo e a outra não pudesse vir porque não tem caderno. Aqui, tudo é de todos e nada é de ninguém.

Bem por isso, as dificuldades de manutenção são grandes. Ela destaca que toda ajuda é bem-vinda: de lápis à papel higiênico e copinhos descartáveis.

O sonho do casal é ampliar o atendimento, com o apoio de voluntários. Aula de inglês, atendimento com psicólogo, aula de música. Vão sonhando, mas, enquanto isso, continuam atuando por conta própria. A necessidade, eles não têm dúvidas, é urgente.

– As crianças chegam aqui sem saber ler e escrever. Reclamam que a professora coloca a lição na lousa e só. A cada ano piora e, por isso, a cada ano nós nos fortalecemos mais.

Jeferson conta e Sônia complementa:

– Eu quero que os meus filhos possam concorrer em faculdades como todos os outros jovens. Quero chegar a um consultório médico amanhã e encontrar um dos meus filhos lá.

Sônia tem na sua própria história a certeza de que é possível.

– A minha vida inteira eu cheguei antes da minha deficiência, porque eu nunca a coloquei em primeiro lugar. Não me tornei uma vítima dela. Aqui a gente ensina que a pior deficiência é a preguiça, porque para ela não existe muleta, cadeira, remédio.

A mãe de Ana Vitória, que acompanhava a entrevista, decide contar o quanto o reforço escolar, de fato, transformou a família:

– A Ana Vitória aprendeu a ler e escrever. Antes ela só sabia o nome dela. Mas não é só isso. Dentro de casa a nossa relação também melhorou, porque aqui a gente aprende a vivência, com carinho e amor.

Depois, os alunos compartilham as coisas boas que encontram naquela garagem feita de cores. Vinicius Fernando, 10 anos, diz que a “tia e o tio” ensinam “ao mesmo tempo em que brincam”. Iago, 6, fala com profundidade de gente grande:

– Eles inspiram a gente. Não é porque são cadeirantes que desistiram do sonho deles.

Sônia e Jeferson, então, têm de pronto a resposta para a pergunta final: “O que os move a continuar?”.

– O amor!

Respondem ao mesmo tempo, em uma só voz.

Na escola do tio Jeferson e da tia Sônia sonhar é matéria obrigatória. Caminho possível!

 

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Comentários
  • Nara
    Responder

    Fantástico o trabalho de vocês,me passem seu contato gostaria de saber onde posso ser útil.

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