Usuário de drogas por 20 anos, Ricardo mudou de vida e criou ONG para ajudar dependentes químicos

Pela droga, Ricardo perdeu esposa, emprego, identidade. Na derradeira overdose, depois de uma semana usando cocaína e álcool, percebeu que já não sabia de si.

Lutando contra a droga, Ricardo Tostes ganhou um novo sentido para a vida: a sua e a das pessoas para quem dá as mãos. Se descobriu novo, melhor.

– O que eu não fiz em 35 anos, eu fiz em três. Eu sei de onde eu vim. Se eu sou o que sou, é porque eu passei o que passei.


A casa no Jardim Paiva foi projetada para festas. Ricardo pensou em piscina, terraço, salões: espaço para dias de euforia regada pelo vício.

– Tudo tem um motivo.

Hoje, o espaço enorme abriga dependentes químicos em recuperação, como sede da ONG Mudando Vidas, criada por Ricardo há dois anos.

Começou a organizar a ideia quando ainda estava internado em  uma comunidade terapêutica. Percebeu ali que a maioria dos que lutavam contra as drogas não tinham para onde ir depois da internação, o que dava margem à recaída.

Passou a buscar pessoas que precisavam de amparo e não demorou a ampliar os trabalhos.

Hoje, além do atendimento de “república” pós-internação, serviço previsto pelo Ministério da Saúde na política de enfrentamento às drogas, a ONG atende dependentes químicos em situação de rua, que precisam ser encaminhados para tratamento.

Desde que abriu as portas, a casa já abrigou mais de 30 homens. Ricardo conta, orgulhoso, que ao menos 10 deles conseguiram refazer a vida.

Ajudando quem luta contra a dependência, ele fortalece a sua própria luta.

– Eu sou exemplo para eles. Não posso cometer erros porque eu sou o que eu falo.

Voltou para a sala de aula como aluno de Psicologia, coleciona nas paredes da ONG os certificados dos cursos que fez e é integrante do Comad de Ribeirão (Conselho Municipal de Álcool e Drogas).

– Sozinha, a pessoa não consegue se recuperar. Vamos sofrer juntos. A casa de apoio serve para isso.

Ricardo Tostes ONG Mudando Vidas Ribeirão Preto

Durante 20 anos, Ricardo alimentou uma vida dupla.

Começou a beber aos 13 e logo veio a cocaína. Aos 16, passou a trabalhar com produção de vídeos, aos 19 entrou na faculdade e o uso aumentou ainda mais.

Deixou o curso de História porque passava mais tempo usando drogas do que em sala de aula.

Ainda assim, conseguia mascarar a situação. No trabalho com vídeos, tinha horário flexível e, então, passava noites inteiras usando drogas com o bom salário que ganhava.

– As pessoas acham que quem usa drogas vive na rua e não é isso. Por muitos anos, eu consegui esconder. Eu achava que tinha o controle.

Quando se deu conta, precisava usar álcool e cocaína para viver.

– Até para brincar com meu filho eu tinha que beber e, se eu bebesse, tinha que cheirar. Eu usava para ficar feliz.

Percebeu que o controle era ilusão quando começou a passar três dias fora de casa. O casamento foi acabando.

Em 2012, já com 36 anos, deixou o emprego e, então, se perdeu de vez.

– O trabalho tinha me segurado nesses 20 anos. Sem trabalhar, comecei a usar o dia todo.

Em 2014, um amigo que havia sido internado sugeriu que Ricardo buscasse tratamento. De imediato, ele negou.

Em uma manhã de outubro, se viu totalmente perdido. E pediu que o amigo fosse lhe buscar.

Passou seis meses internado em uma fazenda. E, diferente da maioria dos dependentes, conseguiu se fortalecer.

– Todos os dias de internação foram bons para mim.

Ricardo Tostes ONG Mudando Vidas

Durante os seis meses em que esteve internado, Ricardo se reencontrou com a fé.     – Eu tinha perdido a minha fé e tinha que achar de volta. A espiritualidade me deu forças.

Diz que, ainda hoje, essa é a sua base. E vem acompanhada do trabalho na ONG.

Tudo o que é desenvolvido pela Mudando Vidas vem de doação e de recursos próprios de Ricardo.

Ele explica que está se regularizando para, então, começar a receber verbas públicas. A demora vem da extensa burocracia.

Nas últimas semanas, a ONG abrigava 14 dependentes químicos no pós ou pré-tratamento.

O período de abrigo pré-tratamento, Ricardo destaca, prepara o paciente para a internação.

– O paciente tende a entrar na internação, ficar alguns dias e achar que já está bom para sair. Nós conscientizamos esses pacientes da importância de se seguir os seis meses de tratamento e oferecemos abrigo para quando acabar.

A casa é “auto gestora”, como ele define.

Os abrigados é que fazem a limpeza e cuidam da alimentação. Com o trabalho de voluntários, eles aprendem ofícios como tear e fabricação de sofás. E vão replicando o ensinamento uns aos outros.

A regra é que os acolhidos não usem drogas durante o período em que estão abrigados.          Ricardo conta orgulhoso do homem que voltou a estudar e daquele que conseguiu uma boa colocação na área de construção civil.

Ricardo Tostes ONG Mudando Vidas Ribeirão Preto

O sonho é que o trabalho cresça mais e mais.

– A ideia é descobrir o que a pessoa tem de melhor e tornar a ressocialização possível a partir disso. Cada ser humano tem suas particularidades.

Fortalecendo a luta do outro, Ricardo fortalece a sua própria luta. E se reinventa.

Há quatro meses, se casou de novo com um amor que conheceu quando estava na faculdade e não via há mais de 20 anos. Paula se tornou companheira de caminho.

– Ela veio para somar.

O futuro é planejado passo a passo. A ONG está sempre no centro do planejamento.

Mudando a sua vida, Ricardo muda também a de quem precisa de apoio.

E mostra que o verbo “mudar” se encaixa em qualquer frase, de qualquer tempo.

 

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