Carlos conquista a vida sobre rodas: ‘Deficiência não é limitação’

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 21 de abril de 2017!

 

Carlos não conhece vida sem desafio, barreira a superar. Com um ano, o recado foi claro: vá e enfrente o mundo!

Fez isso. E faz até hoje, aos 56, brigando com o preconceito, o descaso do poder público, a falta de dinheiro, o emprego que nunca vem.

– É uma vida inteira de luta. Tem hora que a gente perde a esperança… mas eu vou lutando. Vamos ver onde isso var parar!

Com um ano de vida, aprendendo a andar, Carlos Cesar Nogueira teve poliomielite e o corpo ficou paralisado.

Aos poucos, retomou parte dos movimentos. Lembra que aos oito anos, cansado de tanta tentativa falha, pediu para os pais pararem com o doloroso tratamento e aceitou que as pernas não iriam mais andar.

A primeira luta foi em casa. Os pais não aceitavam a situação do menino.

Foi preciso muita briga para matricularem Carlos na escola. O pai se recusava a comprar uma cadeira de rodas e Carlos vivia em um carrinho de bebê improvisado, dependendo dos outros para ir de um lado a outro.

Mas – já se sabe – não era de desistir.

Com boas notas, ganhou uma cadeira das professoras.

– Com a cadeira, eu podia ir onde quisesse. Mas comecei a matar aula e deixei a escola… Sempre fui completamente rebelde…

Aos 15 anos, deixou a escola e a casa dos pais.

Com as rodas, sentia que podia ir a qualquer lado.

E foi.

Começou a vender artesanato e viajava para cidades do Brasil todo.

Em Catanduva, conheceu a mulher com quem casou e teve três filhos. Depois da separação, foi Carlos quem ficou com as crianças. Se desdobrava e diz que nunca deixou filho fora da escola ou com falta de qualquer coisa.

– As minhas pernas nunca me limitaram. Sempre fiz tudo o que eu quis. Deficiência não é limitação!

Carlos trabalhou com vendas a vida toda. Em Ribeirão Preto, foi vendedor ambulante e conta que liderou as brigas com a prefeitura quando a ordem de tirar as barraquinhas do Calçadão foi dada. Essa luta foi vencida em 2006 e, desde então, ele tenta se virar para manter as contas.

Diz que ganha R$ 937 de aposentadoria e paga R$ 700 de aluguel.

– Como é que vive?

E confessa que, por isso, tem deixado o pessimismo tomar conta.

– Eu não gosto de pedir nada para ninguém. Nem para a minha família. Eu gosto de conseguir sendo útil em alguma coisa. Mas preciso encontrar uma porta aberta…

Logo retoma o otimismo, embalado pelas lembranças das lutas que já venceu.

Conta que cansou de brigar com o poder público pela falta de acessibilidade nos ônibus coletivos e nos lugares. Diz que moveu processo contra um funcionário da prefeitura que – mais de uma vez – lhe ofendeu.

  – Para que discriminar? Dizem que todos são iguais perante a lei. Não adianta querer falar que é igual. Se você for em um prédio com escadas, você entra. Eu fico de fora.

Comprou uma moto, adaptou o banco e aprendeu a dirigir.

Com os filhos criados, vive sozinho. E adaptou a casa toda: armários em altura baixa, espaço para se movimentar.

– A gente não pode ficar esperando que o mundo adapte as coisas para a gente. A gente tem que se adaptar.

Até para trocar a cadeira de rodas precisa brigar.

– É obrigação do governo. Mas eles não cumprem. Dão R$ 350. Um par de muletas custa isso!

E por saber das dificuldades da luta, participa de uma ONG que apoia pessoas com deficiência.

 – Eles fazem porque é lei. Mas não querem saber se vai dar certo. Constroem a rampa e não estão nem aí se vai dar para subir.

Hoje, a maior dificuldade de Carlos não é a idade que já torna mais difícil subir a rampa e limita o dia-a-dia. A dificuldade vem de fora, não de dentro.

– O problema é dinheiro. Eu quero trabalhar.

O sonho mesmo é arrumar um incentivo, subir na moto e viajar Brasil afora documentando a jornada. Aprendeu bem cedo, com um ano de vida, que não dá para viver de sonho, porém.

– Eu tenho uma caixa de som e posso fazer propagandas com a moto. Sei vender. Sempre soube trabalhar!

Enquanto a oportunidade não vem, tenta permanecer firme.

– Eu não vou parar de lutar. Não posso parar de lutar.

Repete para si mesmo.

 

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