Com tecnologia e bom-humor, Neto reinventa os limites da tetraplegia

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 8 de agosto de 2017!

 

Em frente ao computador, Neto cria e gerencia sites, administra uma loja de camisetas, joga, escreve, se comunica.

Está conectado ao mundo e, então, a falta de movimento de braços e pernas não é limitador. Seria, se ele não tivesse vontade e apoio.

O mouse adaptado que usa para jogar veio por correio da Alemanha. Neto descobriu o criador, entrou em contato e recebeu o adaptador de graça, com o combinado de dar ao fabricante opiniões sobre a praticidade da criação.

Só chegou ao programa que permite digitar e trocar de tela com o movimento do rosto porque se formou técnico em computação antes do acidente e, então, já sabia das funções de uma câmera acoplada ao computador.

– As pessoas não têm acesso, informação. Esses recursos não chegam até quem precisa.

O acidente lhe deixou preso ao corpo que pouco se move. Com tecnologia e bom astral, porém, Manuel José da Trindade Neto encontrou uma forma de navegar longe.

Chega a passar 14 horas por dia no computador. Ali, criou seu novo mundo. Um mundo “gamer”, “nerd” onde consegue compartilhar suas descobertas com outras tantas pessoas que, como ele, precisam de movimento.

Por um aplicativo, conheceu a namorada que há dois anos é companheira de jornada, dividindo a mesma casa e auxiliando nos desafios do dia a dia.

A página que criou no Facebook, NERDnews, tem mais de 5,3 mil curtidas.

– Eu busco coisas que me deixem ocupado para não ter tempo de pensar no que é ruim. Tempo ocioso não faz bem para ninguém!

Para o mundo real, usa como ferramenta doses altas de bom humor.

– Eu falo que escolhi a hora certa de me quebrar, porque no máximo em 10 anos a Ciência já vai ter alguma descoberta que realmente funcione.

A brincadeira vem cheia de esperança. Navegar é preciso!

Neto mundo nerd

Neto lembra em detalhes da ultrapassagem dirigindo a moto, do carro virando sem avisos, da pancada no chão depois de ser arremessado.

Era perto do almoço, 11 de agosto de 2011.

– É o maior horário de almoço de todos. Até hoje não acabou!

Já no asfalto, não sentia pernas e braços. Pensou que havia sido mutilado.

– Uma moça de óculos se aproximou e eu quis que ela viesse perto de mim para ver no reflexo se ainda estava inteiro.

Passou por cirurgia, ficou 45 dias em coma induzido e quatro meses no hospital.

Escuta a mãe contar das muitas vezes em que os médicos disseram que não havia mais modos de sobrevivência.

– Mas eu fui teimoso. Comecei a melhorar!

Antes do acidente, Neto era um jovem de 27 anos, um milhão de dúvidas na cabeça, tentando se encontrar em algum lugar.

Se formou técnico em computação, fez dois anos da faculdade de Marketing, entrou e saiu de muitos empregos e, então, havia se encontrado no setor de controladoria de uma grande empresa de telefonia.

– Foi a primeira vez em que eu fiquei dois anos em um trabalho. Eu estava me achando.

O acidente jogou moto, Neto e planos para o alto.

– A ficha foi caindo aos poucos.

Mesmo com o diagnóstico de lesão medular, ele acreditava em uma recuperação rápida.

– Eu tinha certeza de que em seis meses iria mexer o braço e em dois anos iria voltar a andar. Conforme o tempo foi passando e não era como o esperado, tive que reformular.

A ideia foi voltar ao mais perto do que era antes. Por isso, o empenho em usar o computador.

– Eu achei muito importante mostrar que não é isso: a gente não se resume à cadeira e muleta. Inclusão é dar à pessoa condições de fazer atividades em que ela se sinta útil; não apenas ocupar o tempo.

Neto mundo gamer

A rotina é cheia de atividades. Neto criou um site onde divulga notícias do mundo dos games e um outro para vender camisetas do “mundo nerd”, como diz.

Atualmente, está expandindo os projetos em parcerias com amigos. Também faz vídeos em canal de streaming, onde mostra como consegue jogar sem o movimento das mãos.

O virtual é diversão, terapia e trabalho.

Neto mundo gamer

Por ter esperança, Neto faz planos para o futuro.

Acredita que vive uma fase passageira.

– Esperança eu tenho! Tem muitos estudos promissores. Algo que realmente seja bom vai aparecer.

Diz que quer retribuir para a sociedade tudo de bom que recebe.

– Minha vida é boa: conheço pessoas boas, tenho oportunidade de mostrar para a sociedade a pessoa com deficiência trabalhando, namorando: um lado que eles não estão acostumados a ver.

Para o futuro incerto, ainda que cheio de esperança, aprende a viver o hoje.

– Tento priorizar o dia-a-dia. O objetivo agora é colocar o novo site no ar, depois quero começar a trabalhar com vídeo… Sabe a frase ‘Pense global, aja local’? É isso!

Entende que a vida tem que ter graça.

– Tudo na vida tem que ser divertido. Principalmente o trabalho. Não tem porque se forçar a fazer algo que não gosta.

Ele bem sabe o quanto navegar é preciso.

Com tecnologia e bom humor, constrói remos, barcos e – o principal – recarrega as forças para continuar.

 

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Mundo nerd

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