Vale a pena ler de novo: Geraldo, meio século de sorvete e de gentileza

– Hoje é o primeiro dia de trabalho.

Geraldo, 79 anos, espera o curioso “Por quê?” de quem escuta a afirmação.

– Para mim, todo dia é o primeiro. Todo dia a gente tem que aprender alguma coisa nova!

São 50 anos de primeiros dias fabricando sorvetes, vendendo as delícias, fazendo amigos entre um “bom dia” animado e outro.

A Sorveteria do Geraldo já é patrimônio de Ribeirão Preto. Vende, em média, sete toneladas de sorvete artesanal ao mês. Fabricado com doce de frutas, sem conservantes, de um jeito todo Geraldo.

Para abrir as portas foi preciso mil sacas de batatas perdidas, o caminho para Ribeirão, a grosseria do antigo chefe, o dinheiro emprestado, o fiado na indústria de máquinas, o jeito Geraldo de fazer negócio.

Geraldo foi criado na fazenda, região de Franca. Começou a trabalhar aos nove anos e todos os dias andava 16 quilômetros para estudar.

– Para o garoto da fazenda, terminar o grupo escolar era uma felicidade. Uma formatura!

Se formou no Ensino Médio, casou e continuou o trabalho por ali.

Pensava que seria assim. Até a geada chegar.

– Batata dá lucro rápido, mas prejuízo também.

Perdeu mil sacas e não tinha como recomeçar. No início da década de 60, pegou a mala e partiu com a esposa para Ribeirão Preto, sem saber o que iria encontrar.

A oportunidade de emprego foi em uma sorveteria, onde fazia de tudo. Mas o dono não economizava ofensas. Geraldo diz que aguentou por seis anos.

Com dois filhos para criar, o salário pouco já não bastava. Tentou negociar um aumento, e como resposta recebeu gritos.

Não deu para continuar.

Pediu demissão. Mais uma vez, não sabia o que iria encontrar.

– Eu não tinha ideia, mas foi a melhor coisa que me aconteceu.


Geraldo decidiu abrir a sua própria sorveteria em 1966.

Sem um tostão no bolso, o jeito foi pedir dinheiro emprestado. “Você tá louco?”, foi a resposta do sogro.

Mas Geraldo estava determinado: “O senhor vai emprestar ou não?”. Conseguiu o equivalente a R$ 5 mil que precisava para começar.

A compra do maquinário, porém, foi fiada. Em Ribeirão, ninguém quis vender. Arrumou um crédito fora, com 10 meses de prazo para pagar.

O aviso de que ali na General Osório, número 71, Centro de Ribeirão Preto, seria uma sorveteria foi todo improvisado.

– Escrevi numa tábua e coloquei lá. Não tinha dinheiro nem para a placa. O povo passava e achava até ruim!

No primeiro dia de portas abertas, deu sorvete para toda a freguesia. Não cobrou um só copinho.

No segundo dia, já tinha fila na porta. Fila que dobrava – e que continua até hoje. O espaço da General Osório ficou pequeno: Geraldo fincou raízes nos Campos Elíseos e, mais recente, também no Jardim Independência.

Geraldo pagou o maquinário em cinco meses. E não precisou mais de batata, fiado, empréstimo, patrão mal humorado.

Quando chega nessa parte da história, para de falar, olha reto e diz, todo emocionado:

– Eu tenho para mim que tem alguém me ajudando. Uma força superior. Você acha que não?

Geraldo conta que, por mais de uma vez, foi convidado para dar palestras a empresários e pessoas que estão começando a montar o próprio negócio.

– Ih, esses empresários não vão gostar! Sabe qual é a palavra para mim? Distribuição de renda!

Ele diz que os dois funcionários mais antigos da casa, companheiros há 40 anos, hoje são sócios de 30% da sorveteria.

– O segredo de um negócio sabe qual é? Deixar o funcionário crescer junto com o patrão.


Todos os dias, é Geraldo – 79 anos! – quem escolhe as frutas que vão virar sorvete. Chega na sorveteria entre 5h e 6h e só sai à noitinha.

Poderia deixar nas mãos dos funcionários – o problema não é confiança. Mas é apaixonado pelo que faz. Participa da produção, atende quem chega, bate papo e a frase lá do começo passa a fazer ainda mais sentido.

– Você sabe: hoje é o meu primeiro dia de trabalho!

Vai repetindo durante toda a conversa.

Se recusa a modernizar, diz que não tem tempo para aprender a mexer com email e acha confuso “esse negócio de internet”.

– Em 50 anos deu certo, não deu?

Um homem entra pela porta, avista Geraldo em uma das mesas e faz questão de se aproximar: “Em 1977, quando eu me mudei para Ribeirão, o primeiro sorvete que tomei foi o do Geraldo, dentro do caminhão de mudança!”, vai contando.

Geraldo abre um sorrisão, agradece, convida o freguês a voltar – como se ele já não o fizesse há 40 anos.

– A vida é tão boa, não é?

E finaliza mais um primeiro dia de trabalho.

 

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Comentários
  • Egly
    Responder

    Isto é um carinho imensurável pelo amor à vida, pelo trabalho, pela ecologia, pela fé, regidos pelo respeito a tudo… Isto faz uma pessoa de sucesso

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