Vale a pena ler de novo: Juíza Carolina é mulher em luta

Carolina começou a lutar por Justiça quando sequer conhecia o significado da palavra. De pequena, conta que era quem intermediava as brigas na escola e queria resolver os problemas ao redor. Muito logo, entendeu do que estava em busca.

Aos 23 anos, com diploma recém-impresso,  já era juíza.

Escolheu defender a minoria. E se sente sozinha na maior parte do tempo, entre corredores que abrigam tanto conservadorismo.

Vence os olhares tortos pela pouca idade, combate o machismo de todo dia e atua na vara criminal “para estar em contato direto com as pessoas”, como explica.

Aos 39 anos, a primeira mulher a ocupar a comarca de Brodowski e hoje juíza no Fórum de Ribeirão Preto, tem muito a oferecer ao Judiciário brasileiro.

As bandeiras de agora já estão bem definidas: Justiça Restaurativa, direito dos LGBTTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) e atendimento especializado às mulheres que sofrem violência.

Sabe que ainda há muitas bandeiras a levantar, tanta luta por ganhar.

– É tanto volume de serviço, estatística, que o juiz se esquece de que é humano e passa a trabalhar de forma mecânica. O juiz é essencialmente uma pessoa, que preza pela igualdade e está atento aos direitos fundamentais.

O avô de Carolina foi promotor de Justiça e o pai seguiu o mesmo caminho. A menina cresceu entre os corredores do Fórum de Ribeirão Preto, ainda localizado na região central.

Lembra da fila enorme que se formava em frente à sala do pai. Pessoas com os mais diversos problemas, em busca de solução.

– Ele era um ouvido para a pessoa. De alguma forma, todo mundo saia com o problema resolvido. Aquilo me encantava.

Decidiu ali que seguiria pela carreira do Direito. A única entre as três filhas a fazer o gosto do pai.

Aos 17 anos, passou na PUC (Pontífice Universidade Católica) em São Paulo. Decepcionada com a faculdade que, na sua opinião, segregava os alunos e carecia de debate, cogitou desistir. Quem sabe Publicidade?

Ficou graças aos conselhos do pai. E, nos anos finais, mais próxima da prática, retomou o encantamento.

Aos 21 anos, já formada, passou dois anos estudando para concurso.

Quando passou para a Magistratura, não teve festa.

– Minha mãe sempre foi rígida. O que disseram foi: ‘Não fez mais que a obrigação’. Não teve deslumbramento. Foi tudo muito natural.

Depois de aprovada, Carolina ficou três meses em curso preparatório na Capital. A primeira sentença que assinou foi no Fórum de Barra Funda, réu preso por roubo.

Sem nunca ter atuado na área ou sequer trabalhado com um advogado, concluiu que nada prepara uma juíza para o primeiro dia.

– Na vida, tudo te prepara para ser juiz: o colégio, as relações. Mas, ao mesmo tempo, nada te prepara. Cada história é uma.

Se saiu bem.

A primeira cidade onde trabalhou foi Batatais. Por lá ficou quatro anos como substituta, passando por cidades de toda a região. Depois, surgiu uma vaga em Brodowski e Carolina agarrou.

Quando fala da cidadezinha, abre um sorrisão e não deixa a nostalgia escapar.

– Eu fui muito feliz lá.

Tão feliz que passou nove anos na comarca. Explica que juiz de cidade pequena resolve de tudo: se engajou em projetos, passou a conhecer a população – e a ser conhecida – e ganhou título de cidadã.

Assumiu o cargo em Ribeirão Preto com a sensação de dever cumprido.


 

Em Ribeirão, Carolina abraçou com força as causas em que acredita. Além da 2ª Vara Criminal, escolheu atuar no Anexo da Violência Doméstica, em luta pelos direitos das mulheres.

– Eu mudei. Antes, quando me deparava com uma mulher que retirava a queixa de agressão, brigava com ela. Percebi que esse discurso é totalmente errado. O nosso discurso deve ser: ‘Em todas as vezes em que a senhora vier registrar a queixa, vamos atendê-la’.

A Carolina mulher é luta constante.

Batalha para que o anexo seja transformado em vara e a vítima possa ter um atendimento especializado do início ao fim. Acredita na união de forças entre Justiça e mulheres como forma de frear a violência. Briga contra o machismo de todo dia.

– A juíza nunca é considerada firme. Ela é tachada de brava, irritada, ‘tá de TPM’. Já o juiz é chamado de firme e equilibrado.

O machismo gritante, ela diz, vem de gente letrada, parceiros do Judiciário. Entre os réus, o respeito impera.

– Em uma conversa, os advogados tendem a se reportar aos juízes homens.

Continua em luta, fazendo seu trabalho. Entre as profissionais do seu gabinete, espalhou canecas estampadas com super-heroínas e frases do tipo “Lugar de mulher é onde ela quiser”.

– Tenho esperança. Se não tiver, a gente não trabalha.

Na escolha das minorias, não faltam batalhas. A Justiça Restaurativa, que encontra alternativas à prisão, é um dos caminhos em que Carolina acredita.

– Tive um caso de furto em que a vítima queria que o réu tivesse algum tipo de assistência. Ela queria ajudá-lo. Em alguns casos, a prisão não tem o menor sentido.

Escolheu também atuar pelos direitos LGBTTs, incomodada com o que vê pelos corredores do Fórum.

– Já vi a vítima se posicionar como mulher e o juiz insistir em chamá-la de homem. O Judiciário precisa rever essa questão.

Carolina é luz em um contexto onde predomina o conservadorismo.

– Tem que ter mudança. A Magistratura é restrita a poucos, quase todos iguais. O diferente é necessário.

Quando a conversa se aproxima do fim, Carolina diz ter dúvidas sobre o peso da sua história.

– É que, além de ser mulher, eu nunca fui minoria em nada. Sempre tive oportunidades, uma família que me deu possibilidades…

Usa a oportunidade pelo bem, pelo todo, pelos que não a tem. Sem se gabar por fazer o que considera não mais que a obrigação. E passando o legado à frente.

A filha de seis anos já entendeu o sentindo da toga.

– Ela fez as pazes entre amigos que tinham brigado e me perguntou: ‘Isso é ser juíza, né mãe?’.

A Carolina juíza é doçura. Fala da filha e o olho brilha. Casada, mãe, continua a descartar o machismo em casa, onde diz que as funções são divididas.

Espera um futuro onde possa continuar em transformação. Tendo o que abraçar – e acreditar.

– A única coisa que eu não quero é cair na mesmice. O que me move é sentir que estou fazendo o meu papel. Tem a ver com justiça…

 

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Comentários
  • GRACIANA ULLIANO
    Responder

    Amei a entrevista…. Amo a Dra. Carolina!!! Ela é tudo isto e muito mais!!!

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