Vale a pena ler de novo: Kaxassa e Cauim, feitos da mesma essência, pela mesma paixão

História publicada pela primeira vez em 13 de junho de 2017.

 

Kaxassa é apelido que vem da palavra cachaça, a bebida brasileira feita da cana.

Cauim é palavra tupi que significa “bebida dos índios”.

O Kaxassa e o Cauim de Ribeirão Preto têm mais que características em comum.

O Cauim é a casa de Kaxassa, a sua luta, a sua forma de transformar um pedacinho do mundo. Com o cineclube, Kaxassa acreditou que poderia fazer a revolução.

E ainda acredita.


 

História do Dia adverte: esse texto está imerso em boemia.

A começar pelo cenário da entrevista.

Nos encontramos no Cauim, mas naquele dia o cineclube fechou às 18h.

Terminamos, então, em um dos tradicionais bares do Centro de Ribeirão Preto, tomando uma das principais cervejas fabricadas na cidade.

A conversa só chegou ao fim porque o relógio se esqueceu de parar, dando o tempo infinito de tudo que Kaxassa tem a contar.

O apelido Kaxassa tem razão de ser.

Surgiu ainda na adolescência, quando Fernando José da Silva começou a atuar no teatro e, para encontrar coragem, tomava doses dos xaropes à base de álcool que o pai vendia na farmácia.

Não demorou a trocar o xarope pela cachaça e pela cervejinha. Não esconde seu apreço pelas bebidas.

Era, assim, chamado de cachaça pelos amigos. Se tornou Kaxassa – com consoantes trocadas – por brincadeira de um deles.

Assinou um artigo no jornal, escrito como resposta a um desafiante inconformado com a vitória da chapa de Kaxassa para a presidência do Cineclube de Ribeirão Preto no final da década de 70.

O concorrente publicara um artigo questionando: “Esse cara? Ele tem apelido de cachaça!”. Ao que Kaxassa respondeu, com a assinatura feita e justificada pelo amigo: “É porque você é Kaxassa gente, não bebida!”.

Fernando deu lugar, de vez, ao Kaxassa. E, na mesma onda, veio o Cauim.

– O Cineclube de Ribeirão Preto tinha ficado muito elitista. E a gente era comunista. Para acabar com a discussão, resolvemos montar nosso grupo próprio.

Cauim e Kaxassa surgiam ali.

Fernando Kaxassa Cineclube Cauim

Já no fim da conversa, depois de cervejinhas regadas a muita gargalhada, Kaxassa conta que foi coroinha na igreja da sua cidade.

Difícil de acreditar, já que ele garante que sempre foi ateu. Mesmo no tempo em que ajudava o padre.

– Fui expulso porque bebi o vinho da igreja!

Cai na risada, mas logo avisa:

– É brincadeira. É… mas bebi mesmo!

Kaxassa, que ainda era Fernando, nasceu em Barretos.

Quando tinha entre 11 e 12 anos assumiu o trabalho na farmácia do pai, que acabara de falecer.

Próximo à farmácia tinha um grupo de teatro. Por ali, ele encontrou um caminho para jogar fora a timidez.

Aos 14 anos, a família decidiu vender a farmácia e, então, ele decidiu que sairia de Barretos com destino a uma cidade com arte.

Escolheu Ribeirão Preto. Por aqui, descobriu o cinema e se encantou. Dirigiu seu primeiro filme aos 18 anos e nunca mais parou.

– A paixão era passar filme, fazer filme.

A ditadura dificultou o fazer.

– A maioria das pessoas estava sendo presa ou perseguida.

Mas também foi combustível para querer mais.

Kaxassa ajudou a criar o Cineclube de Ribeirão Preto, ia buscar filmes em São Paulo e transformava praças e escolas em cinema.

Na tecnologia da época não podia haver um foco de luz para que a imagem do projetor saísse com clareza.

– Era algo social. A gente gostava de levar o cinema às pessoas. Não era só passar o filme. Era passar o filme, aprender cinema e derrubar a ditadura.

Nas sessões de cinema dentro das faculdades, os cineclubes levavam os diretores para debater os filmes, trocavam livros proibidos, fortaleciam a cultura.

Kaxassa e Sócrates cineclube Cauim

No final da década de 70, já imerso nos movimentos culturais, Kaxassa passou na faculdade de Ciências Sociais, em Araraquara.

Explica que, na época, não se falava na faculdade de cinema. O cinema era feito nos cineclubes. E, em Araraquara, o movimento estava fortalecido.

Kaxassa dividia os dias entre a faculdade e Ribeirão.

O Cauim, como nome, já existia. Era um grupo de teatro.

– Um grupo de malucos!

Só foi transformado em cineclube no final da década de 70, depois da rixa entre os integrantes do Cineclube de Ribeirão Preto que culminou com a oficialização do apelido Kaxassa.

Por sugestão de Bassano Vaccarini, criaram um cineclube próprio.

– Aí começa a saga das salas do Cauim!

Kaxassa diz que o Cineclube Cauim foi um dos primeiros do Brasil a ter sala própria, sem qualquer apoio governamental.

Nas Diretas Já, a fama do cineclube se espalhou Brasil afora.

– Nós tomamos uma postura política muito forte na cidade. Quando veio a constituinte, nós fizemos um debate. Cada partido mandava o seu candidato. Trouxemos Lula, Maluf, Ulysses Guimarães achando que o Brasil todo estava fazendo. Aí, o Sócrates me ligou e falou: ‘Só vocês estão fazendo isso!”. Fizemos a diferença.

Fazer a diferença foi se tornando a cara do Cauim.

O cineclube era frequentado por artistas, cineastas, intelectuais da época, gente de todo tipo, com sede de cultura como característica em comum.

No início da década de 90, quando Collor fechou a Embrafilme (produtora de filmes nacionais) e paralisou  o cinema brasileiro, o cineclube decidiu continuar.

Não passavam mais filmes, mas intensificaram as oficinas, palestras, saraus, programas sociais nos bairros, teatro, música.

– Nós produzimos sem passar filme!

Só voltaram a projetar em 2003, quando Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura com a política de retomar os cineclubes, em uma época de cinemas reduzidos aos shoppings.

– Fomos chamados a Brasília para discutir a situação dos cineclubes. Eu disse: ‘Não foi o povo que sumiu do cinema. O cinema que sumiu do povo”.

Lançaram, então, projetos de retomada do cineclube.

Com o programa “A escola vai ao cinema”, Kaxassa diz que chegaram a receber quatro mil crianças por dia. QUATRO MIL – você não leu errado.

– Em Ribeirão Preto passam cerca de 300 ônibus por dia. No Cauim, vinham 114 trazer crianças para o cinema.

Kaxassa e Sócrates cineclube Cauim

Hoje, já não são quatro mil crianças ao dia. Depois de um período conturbado por falta de incentivo político, o cineclube está – mais uma vez – retomando os planos.

Os filmes infantis continuam, no entanto, levando famílias ao cinema por preço simbólico, que Kaxassa pena para manter.

Único cinema fora do shopping de toda Ribeirão, a ideia de democratização continua.

Kaxassa diz que os moradores das ruas têm passagem livre para assistir filmes.

Ele continua buscando parcerias, financiamento, formas de manter o cineclube em pleno funcionamento.

– O Cauim é um projeto social, cultural e o mais importante: é um espaço que junta gente.

Pelo Cauim, artistas, empresários, amantes do cinema, estudiosos, gente de todo tipo uniu e continua a unir forças.

Entre tantos nomes, o cineclube teve Sócrates como um dos seus grandes entusiastas. Mas, mais que entusiasta, o astro do futebol escreveu com Kaxassa história de amigo-irmão.

– Aquela bancada que tem no Cauim foi feita para o Sócrates. Porque ele não gostava de tomar cerveja em pé.

A amizade com o astro do futebol faz Kaxassa embargar a voz.

O futebol, aliás, foi o que menos existiu ali.

– Eu nunca gostei de futebol. Ele não era meu ídolo. Era meu amigo.

O Cauim uniu – e ainda une – forças, mentes, ideias, opostos.

– A minha única qualidade é que eu consegui juntar um grupo de loucos, que passaram a vida toda juntos.

Fernando Kaxassa Cineclube Cauim

Kaxassa diz que não tem medo da morte porque a esperava bem antes.

– Eu sempre achei que ia morrer com 26 anos, como Noel Rosa, porque eu bebia muito. Por isso essa urgência em viver! Quase todos os meus amigos morreram e eu tô vivo. Tenho 56 anos: 30 a mais do que pensei viver.

O desânimo com o atual cenário político é tanto que ele tem uma teoria para a morte de Sócrates e de tantos outros amigos cujas fotos estampam as paredes do Cauim.

– Tem horas que eu acho que eles morreram de propósito. Os caras eram visionários demais! Eu acho que essa é uma fase de trevas e burrice do ser humano. Mas tem que passar uma hora!

Kaxassa não dirige, devora livros, diz que é disléxico e que, até ter um diagnóstico, custou a se entender.

É feito de movimento.

– Minha vida é ter ideias. É muito difícil eu não ter ideias porque eu não consigo fazer outra coisa. Eu tenho tantos projetos que tenho que ler para limpar a cabeça.

Na Ditadura, passou uma semana preso com toda a equipe do cineclube, porque exibiram um filme proibido de Godard.

Dividia cela com um senhor sem dentes e sem perspectivas na vida. Todo dia, porém, o preso cantava um samba de composição própria, alfinetando o carcereiro.

– A gente sabia que ia apanhar, mas era tão legal. É muito horrível ver o que está acontecendo com o país. Mas, ao mesmo tempo, a gente tem um povo maravilhoso, que faz samba não importa o que aconteça.

Kaxassa diz que não tem carro e nem casa própria.

– Eu tinha, mas vendi. Acho um absurdo esse negócio de ter casa, acumular dinheiro, ficar trilhardário enquanto o outro tá aí passando fome!

Em três horas de entrevista, ele se referiu à loucura pelo menos 10 vezes, em diferentes formas verbais: malucos, maluquice, loucos.

– A maluquice? Era a falta de compromisso com uma realidade que a gente não acreditava. A minha vida poderia ter sido muito difícil. Mas não foi. Porque a liberdade de pensamento era muito grande.

Já teve pancreatite sete ou oito vezes, mas garante:

– Eu tomo um litro de cachaça e não tenho ressaca! Cara, não dá para acreditar!

É casado há 35 anos com a mesma mulher e tem um filho.

Recentemente, depois de tanto tempo na direção, atuou como ator em um filme. Interpretou Fidel Castro, formalizando a fama de comunista que sempre o acompanhou e não teve razão para ser negada.

Na mesa do tradicional bar do Centro onde nos sentamos, pararam, pelo menos, cinco pessoas. Vinham cumprimentar Kaxassa, saber das coisas, iniciar um papo rápido.

– Aqui eu tô em casa.

No celular recém-comprado na tentativa de aprender a usar a tecnologia, ele coleciona fotos antigas. Em algumas, posa com políticos, ex-presidente, artistas, intelectuais.

Em outra, está com Sócrates, abraçados, gargalhando.

Há ainda aquela em que está a atuar como coroinha – quase não acreditou quando a irmã mandou.

Aos 56 anos, Kaxassa – que enganou as próprias expectativas sobre a morte – escreveu vasto passado.

Fazendo cultura, ele fez a sua revolução. Transformou um pedacinho de mundo. Com as ideias que nunca param, há de continuar transformando.

 

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