Márcia deixou carreira de advogada para fundar ONG

Vale a pena ler de novo:  história publicada pela primeira vez em 30 de agosto de 2017.

 

Márcia e os amigos organizaram uma festa de Natal solidária porque sentiam vontade de ajudar.

Era para ser só a festa, só em dezembro. Mas, levando o bem, ela se encontrou.

Três anos depois, deixava a carreira de advogada – com escritório próprio e grandes clientes – para administrar a ONG que se formou daquela primeira festa.

– Eu entendi que essa era a minha missão. A matemática de Deus não é a nossa. Quanto mais você dá, mais você recebe.

Hoje, 10 anos depois, segue no mesmo caminho.

Márcia Pieri ONG Mãos Estendidas

Márcia Pieri conta que teve uma grande dificuldade em decidir qual carreira seguir na época do vestibular. Começou quatro cursos diferentes antes de optar pelo Direito.

– Hoje, eu entendo que a preocupação por Justiça já estava na minha vida. O Direito me deu a amplitude de saber que todos nós temos direitos e o Estado tem que garantir que todas as vozes sejam escutadas. A justiça social.

Quando começou a organizar a festinha de Natal, em 2007, não cogitava o que viria.

Optaram pela favela do Monte Alegre e, com três meses de trabalho, conseguiram levar diversão, comida e presentes para 800 crianças naquele dezembro.

Achou que o trabalho tivesse acabado quando o fim de tarde encerrou a festa.

Conta que em fevereiro de 2008, porém, o líder da comunidade telefonou, disse que as crianças estavam sem apoio, precisavam de um projeto social fixo e convidou Márcia para implementar.

– O meu primeiro comportamento foi resistir: Não vou ser eu! Tenho minha profissão!

O líder, porém, foi persistente. Prometeu ajuda, disse que Márcia só iria participar.

A ajuda durou três meses. Ela se viu sozinha com a criançada, tendo como espaço a igrejinha da comunidade.

– ‘E agora?’, era o que eu pensava. Mas fui ficando.

Logo nesse começo batizou o projeto de “Mãos estendidas”. Trabalhava como advogada durante a semana e aos finais de semana tinha as atividades na comunidade.

Levava cerca de 40 crianças a passeios, organizava festas, atividades recreativas, oficinas.

Depois de três anos em ação, a entidade foi convidada para participar de um programa chamado “Moradia Legal”, de reestruturação da comunidade.

A proposta, entretanto, veio acompanhada de responsabilidade. “Mãos estendidas” deveria ocupar um espaço na favela e se formalizar como ONG.

– Eu não tinha como continuar com a minha carreira. Para ser ONG, eu precisaria passar o dia todo funcionando, com políticas públicas. Veio a minha renúncia. Larguei tudo.

Conseguiu organizar equipe com psicólogos, assistentes sociais e oferecia as crianças da comunidade atividades no contra turno escolar, além de apoio às famílias.

Deixou os tribunais pela justiça social.

Márcia Pieri ONG Mãos Estendidas

O trabalho da ONG no Monte Alegre se estendeu até este ano.

As questões econômicas – dependendo de doações e com pouco recurso público – tornaram a atuação insustentável. Parar, entretanto, não estava nos planos de Márcia.

Há alguns meses, a ONG “Mãos estendidas” havia conseguido a doação de um novo prédio pela prefeitura, para a ampliação dos trabalhos já desenvolvidos com mulheres presas.

Quando Márcia viu que não podia mais sustentar as atividades com crianças no Monte Alegre, passou a sede para outra instituição interessada em manter o trabalho e decidiu mudar o foco da assistência.

Na unidade do Parque Bandeirantes, atende cerca de 50 mulheres vítimas de violência e egressas do sistema carcerário com psicólogos, assistentes sociais, oficinas, aconselhamento.

O projeto é mantido com trabalho voluntário, nota fiscal paulista e doação.

Nesse mês, a Lei Maria da Penha completou 11 anos em vigor. A ONG participou dos debates, eventos e discussões.

De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública, só neste ano foram instaurados 947 inquéritos policiais pela Delegacia de Defesa da Mulher de Ribeirão Preto e 76 agressores foram presos. No ano passado, foram 1.361 inquéritos e 142 prisões.

Márcia continua em busca da justiça que ouve todas as vozes.

– Dizem que as mulheres que sofrem violência não têm voz. Elas têm voz, sim. Mas ninguém as escuta.

Pelas paredes da ONG, frases coladas ajudam a olhar sempre em frente.

 

Márcia quer continuar no caminho que escolheu seguir 10 anos atrás.

As preocupações são grandes, porém.

Além da maratona diária para manter as contas da instituição em dia – com bazares e festas para arrecadação de fundos – ela fala das inseguranças governamentais.

Com a mudança de gestão na Prefeitura de Ribeirão Preto, explica que não há certeza, sequer, sobre a manutenção do prédio doado para os trabalhos.

E se angustia.

– Nós atendemos hoje 20 mulheres encaminhadas pela prefeitura. Oferecemos um serviço que a prefeitura não tem. Essas mulheres precisam de uma estrutura de empoderamento.

No que depender de si, garante que não há mudanças.

– Foi uma opção de vida e não me arrependi. É uma oportunidade que Deus me concede.

Confessa que, dias e outros, apazigua brigas internas. Chegou, nos últimos meses, a montar um escritório de advocacia novamente, para retomar a vida profissional.

– Ainda hoje tenho lutas com meu ego. Há a vontade de ter a realização profissional, ganhar dinheiro. Tudo o que eu faço é voluntário.

O lado que ganha, ela conta, é sempre o mesmo.

– A partir do momento em que você se doar, você será abençoado. Meu negócio é aqui. Como desobedecer a vontade de Deus quando você tem a convicção de que está no lugar certo?

Era para ser só uma festa, só em dezembro.

Mas a solidariedade – que bom! – se estendeu por uma década. E quer continuar.

 

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