Vale a pena ler de novo: Marcos conta a história que dá vida à estátua

“É de verdade mesmo?”

“Olha, ele não mexe nem o olho!”

“Como aguenta esse calor?”

Não há quem passe imóvel pela estátua viva. Quem está com muita pressa pode até não parar, mas segue entortando o pescoço, de olho na cena.

Roupa preta e prata, olhos fixos na espada japonesa e uma caixinha para contribuições. O artista só se mexe quando recebe uma moeda. Faz um movimento com a espada, tira uma mensagem de dentro de uma bolsa e entrega para o encantado espectador.

Impossível não se encantar! E questionar: qual é o rosto – e a história – por detrás do estático ninja?

Marcos Roberto Morais de Melo, 23 anos, chega à porta do Teatro Pedro II de bermuda, regata branca e chinelos. Jovem comum, pensa quem o vê.

Senta nas escadas do camarim improvisado, tira a maquiagem da sacola e começa a pintar os olhos de preto e prata. Veste a calça, a camisa de mangas, coloca o gorro. Agora, é o ninja. E nem mesmo a timidez do jovem de regatas permanece.

– Aqui era onde eu trabalhava.

Mostra o logo do frigorífico estampado na sacola onde hoje carrega a maquiagem e a fantasia. Aos 21 anos, Marcos deixou um emprego de carteira assinada e salário bacana e embarcou com destino à arte, sem qualquer certeza.

Trabalhava no frigorífico há dois anos e oito meses. Mas, de fato, sempre esteve certo de seus objetivos.

– Eu trabalhava durante o dia para poder pagar o curso de teatro a noite.

Quando se formou, não conseguiu continuar dividindo o tempo – e o coração.

– Trabalhar naquilo que não se gosta, só por dinheiro, não é prazeroso.

Há dois anos, faz teatro, é estátua viva e um dos fundadores da Companhia de Estátua Viva de Ribeirão Preto.

O primeiro personagem/estátua que encenou foi Mário de Andrade: começo de peso. Marcos apresentou sua obra favorita na feira do livro, com sucesso de público.

Não demorou a perceber os maiores desafios de ficar até cinco horas quase estático.

–  O corpo reage, começa a tremer, a doer. Segurar o livro, no personagem do Mário, era um grande peso.

Desafios que vai tirando de letra com preparo.

-Você vai entendendo os limites do corpo. Faço Yoga e me ajuda muito.

E ele não pisca mesmo? Marcos conta o truque. Aprendeu a piscar quando ninguém está olhando e tão rápido que é quase impossível de perceber.

Consegue manter a concentração, mesmo quando o público insiste em tirá-la.

– Tem gente que conta piada, tenta de toda forma me fazer rir.

E, para suportar com mais facilidade, brinca com o calor.

– Se consegue trabalhar no sol de Ribeirão, trabalha em qualquer lugar!

 

Para atuar na rua, Marcos precisou convencer a fiscalização de que está na lei, fazer amizades com vendedores ambulantes e entender a pluralidade de gente que passa pelo Calçadão de Ribeirão Preto.

– Na rua, a arte é marginalizada. As pessoas não veem como trabalho, porque falta incentivo do governo. Não há contato com a arte.

Fica feliz quando percebe que, em dois anos de trabalho, o estranhamento e as barreiras dão lugar ao encantamento.

– Tem gente que leva os filhos no Calçadão de sábado só para ver a estátua. O sorriso no rosto da criança é gratificante.

Tanto, que faz Marcos querer continuar no caminho que escolheu.

Participa de iniciativas culturais, está sempre pronto para reivindicar, pensa em embarcar para festivais fora do país e, junto com os artistas da companhia, quer tornar Ribeirão referência na arte de estátua viva.

No ano passado, promoveram uma corrida de estátua. Corrida?

– É! É diferente. O objetivo era andar o mais devagar possível!

Imóvel em meio ao vai e vem de gente, inventa um novo tempo.

– É algo que me completa. Com a minha arte, posso mostrar em que eu acredito.

Uma moça para, olha, tira foto, coloca a moeda na caixinha e segue seu caminho mais feliz. O trabalho de Marcos está completo.

 

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Comentários
  • Aparecida Belagamba
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    Que trabalho lindo tem que ter muita coragem e determinação. ..Parabéns Deus continue te abençoando e continue encantando este povo sofrido com tanta dedicação e amor pelo seuvtrabalho

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