Orando por quem precisa, Maria é a ‘enfermeira das ruas’

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 18 de maio de 2017!

Jaleco branco, luvas de plástico e a vontade de cuidar do outro: Maria vende água pelas ruas de Ribeirão Preto, com ponto fixo em frente ao Hospital das Clínicas.

O sonho era ser enfermeira, mas a vida não deixou.

Se tornou, então, a enfermeira das ruas, anotando o nome de quem precisa de oração entre uma venda e outra, para colocar dentro da Bíblia.

Em frente ao hospital, não faltam pacientes. Acorda às 3h da madrugada, ajoelha no chão e reza, com fé de que o melhor sempre vem.

– O pessoal fala assim: ‘A Maria é a enfermeira de Jesus! Ela é uma benção!’.

Ganha os jalecos das enfermeiras que conheceu em mais de 20 anos de vendas. Usa as luvas para pegar o gelo sem contaminação.

No dicionário, enfermeiro é aquele que está habilitado a cuidar dos enfermos.

– Quantas vidas Deus curou ou recolheu depois da oração! Eu pergunto: Você aceita uma oração? O que eu posso fazer pelos outros, eu faço de coração. E a resposta vem.

Maria teima com a vida. De jaleco branco e fé de transbordar, encontra sua forma de cuidar.

Maria enfermeira das ruas

Maria Aparecida Ferreira, 59 anos, não pede a cura nas suas orações. A sua fé é de que o melhor sempre vem. Ainda que não seja a cura. Ainda que a gente não entenda muito bem.

Quando seu filho de 26 anos foi assassinado se ancorou nessa certeza.

–  Deus recolheu o meu filho para perto dele. Foi melhor assim.

O menino se envolveu com o tráfico e, depois de um período preso, entrou para uma quadrilha de assalto a banco. Morreu na Bahia, pela arma de um policial, há oito anos.

Maria prosseguiu.

Aprendeu cedo a prosseguir.

Quando precisou deixar a escola para ajudar os pais na roça, aos sete anos, prosseguiu.

E, assim que pôde, voltou a estudar.

Aos 20 anos, terminou a quarta série e se preparava para o fundamental, quando conheceu o marido. Por ciúme, ele não deixava Maria estudar.

Mais uma vez, teve que deixar a escola, contrariando sua vontade.

Quando começou as vendas nas ruas, 20 anos atrás, não pensava em usar jaleco. Uma enfermeira deu, se sentiu bem dentro dele, prosseguiu.

Também não pensava que seria chamada de enfermeira, como sempre sonhou ser.

Fala devagar, baixinho, como se cada palavra tivesse a ordem certa para sair. Tem o rosto marcado pelo sol, pelo tempo, pela vida. E, apesar de todo o sofrimento, transmite calma e aquela sensação de que tudo vai dar certo.

– A vida é de luta, mas a vitória vem.

Maria enfermeira das ruas

Antes das vendas, Maria conta que fez muita faxina, morou em “casa de família”, trabalhou como cozinheira.

Começou vendendo bolo, pão de queijo, café da manhã na rodoviária. Não sabe explicar como foi parar na porta do Hospital das Clínicas.

– Eu sou uma obreira. Deus me levou até lá.

E quem há de dizer que o sonho pela enfermagem não teve seu peso?

Todos os dias, Maria andava 24 quilômetros para ir de casa (no Ipiranga) até o hospital, (no Monte Alegre), empurrando seu carrinho de gostosuras.

Hoje, mudou um pouco a rota.

Vai de casa ao Centro e para na unidade de emergência do hospital, que fica na área central, encurtando um pouco o caminho para cerca de 12 quilômetros ao dia. Vende água e suco.

Diz que tem problemas de coluna e certa vez, antes de uma cirurgia que precisou fazer, o médico disse que dificilmente voltaria a andar.

– E eu tô aqui! Os médicos nem acreditam!

Maria acorda entre 3h e 5h da madrugada todos os dias. O horário depende do número de orações que precisa fazer – primeira ação do seu dia.

– Na madrugada, está tudo em silêncio. Deus gosta do silêncio.

Depois, cuida da casa. Há 15 anos, vive sozinha. Separou do marido, os filhos se foram, aprendeu a ser só.

Sai para as vendas por volta das 10h e só volta para casa às 18h.

Diz que não sente dores ou cansaço. E gosta da profissão que escolheu seguir: vender, orar, cuidar. “As amizades” é que tem de melhor nesse caminho, ela diz.

– Dentro de uma casa tem que ter um guerreiro.

Maria, em seu jaleco branco, luvas de plástico, continua a prosseguir.

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