Valter é o ‘olho que tudo vê’ da rua São Sebastião

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 16 de junho de 2017! 

 

Entre o vai e vem de gente nas calçadas da rua São Sebastião, um homem permanece imóvel. Sentado em um banquinho, observa atento à movimentação.

Difícil arrancar um sorriso do rosto sempre sério. Valter Valeriano de Brito Filho está focado em vigiar. E antecipar o que pode acontecer de ruim.

Há 15 anos, essa é sua rotina. Depois de muita turbulência, foi chamado para trabalhar como vigilante de duas lojas de roupas da São Sebastião, Centro de Ribeirão Preto.

O foco da loja é o público jovem. Com vestuário, acessórios e tênis “da moda”, o estoque era alvo de constantes furtos. Decidiram contratar um vigilante para tentar conter a situação.

Valter garante que deu certo.

– Nós fizemos um trabalho intenso.

Ainda assim, resolve em média um furto por semana. ‘Resolve’ vem da forma que escolheu lidar.

– Eu levo para um canto, converso, faço um trabalho de aconselhamento. Procuro ter uma política pacificadora. E, muitas vezes, acabo dando aquele sermão de pai.

Há 15 anos, Valter é o olho que tudo vê na quadra 6 da São Sebastião.

Valter Valeriano de Brito Filho

Antes de começar a contar, Valter avisa que sua história tem doses de tristeza.

Viu três dos seus quatro irmãos morrerem por envolvimento com o crime. Um deles foi assassinado a tiros pelo tráfico.

A família vivia na periferia de Ribeirão Preto e o contato com as drogas era constante. Valter cresceu entre as tragédias dos irmãos e sua própria tragédia, que parecia predestinada.

Aos 12 anos, conheceu a cocaína e não demorou a partir para o álcool e outras drogas. Chegou a usar crack e, por algumas vezes, embarcou também no mundo do crime.

Casou aos 18 anos, em meio ao vício e toda turbulência. A união foi igualmente conturbada.

Quando um amigo convidou para ir à igreja, 17 anos atrás, Valter zombou do convite. Tinha acabado de enterrar o irmão, assassinado. Mas, aos 25 anos, não estava preocupado com mesmo futuro, que parecia certo.

– Eu fui pensando em me aproveitar da situação e das pessoas que estavam lá.

Já no primeiro culto, saiu balançado. Voltou uma segunda vez, com o intuito de desafiar o pastor. Na terceira vez acabou desafiado – e vencido.

– Eu me entreguei. E comecei a construir uma nova história de vida.

Valter Valeriano de Brito Filho segurança Centro Ribeirão

Na nova história, Valter recebeu a proposta de trabalhar como vigilante. Aceitou o trabalho que 15 anos depois ainda enche de orgulho.

– Nós já evitamos três assaltos a mão armada só observando a situação. Além disso, ajudo os estabelecimentos vizinhos, quem passa por aqui. No Centro acontece de tudo!

O trabalho de vigilante se desdobra em conselheiro, socorrista, guia de informações.

Valter conta que pelo menos uma vez ao mês presencia acidentes na São Sebastião e nas ruas que a cortam. Já socorreu de idoso a criança, sempre com urgência.

Também é com urgência que pensa em um conforto quando alguém encosta por ali aos prantos ou com o rosto triste.

– O melhor é mostrar os caminhos que a vida tem. Para isso, uso minha história.

Também usa sua história para aconselhar quem é pego furtando.

Valter diz que busca sempre antecipar as situações. Às vezes, porém, é surpreendido, como no caso da neta e da avó que compraram um tanto de coisas e o alarme da loja apitou quando estavam saindo.

Usa a política do aconselhamento.

– Eu falo para não fazer mais isso… converso.

Valter diz que ajudar alguém, de alguma forma, alegra a rotina. Isso não quer dizer, entretanto, sair fazendo amigos. Ele é taxativo:

– Sou seletivo. Não tenho muitos amigos. Amigo é quem senta na minha mesa. Não fico abrindo minha particularidade.

Da mesma forma que quase não abre sorrisos. Quem para um pouquinho, porém, logo ganha um.

– Quem tem acesso a mim diz logo: ‘Achei que você era bravo e não é isso’.

Ele chora em três momentos da conversa e não economiza emoção quando fala da vida.

 – A vida é um constante desafio. Todos os dias, a gente tem que vencer a vida antes de voltar para casa.

Quando senta no banquinho de vigia, retoma a seriedade, porém. Chega a enrugar a testa no esforço de observar o entorno.

Quando antecipa o que é ruim, vai para casa com a sensação de vitória. Dever cumprido.

 

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