Vendendo Tupperware, Jonecy conheceu 13 países e inspirou conto de Ziraldo

Pelas ruas, muitas vezes de terra, ia Jonecy com sua bicicleta. Levava os dois filhos na garupa e uma sacola lotada de potes de plástico para a venda.

Não reclamava, porém. O trabalho de vendedora foi o caminho que se abriu quando ela pensava não haver meios de melhorar o futuro.

Cresceu em Colíder, cidade do interior do Mato Grosso, que hoje soma 32,9 mil habitantes.

Se casou aos 16 anos, com o primeiro namorado. O primeiro filho veio aos 20 e dois anos depois nasceu o segundo.

Jonecy do Carmo Boeno conseguiu terminar o Ensino Médio, mas não havia qualquer previsão de faculdade.

– Eu acho que eu teria criado os meus filhos em casa… Jamais teria conhecido tudo o que conheci!

Vendendo Tupperware de porta em porta, a jovem, que até então nunca tinha andado de avião, conheceu 13 países.

Em três meses de vendas, já era líder.  No mesmo ano de 1993, como prêmio pelos altos números vendidos, fez sua primeira viagem internacional, com destino à Aruba.

Em 2009, foi a vendedora com maior número de vendas de todo o Brasil, depois de cinco anos no ranking das nove principais. Recebeu premiação internacional, que exibe na parede do escritório.

Hoje, é responsável pelas vendas de Ribeirão Preto e toda região, comandando equipe de quase nove mil pessoas. Fez faculdade de Administração e cursa, atualmente, especialização em coaching.

Tudo isso, entretanto, não é mais importante do que o motivo que faz Jonecy ter orgulho do seu trabalho. E querer, todos os dias, continuar.

– Eu era dona de casa, não tinha tempo para mim, com baixa estima total. Mudei totalmente. Vejo isso acontecer com outras mulheres. Elas se transformam. Passam a não depender mais do marido, a ter independência financeira, a cuidar delas. É o que me deixa realizada.

Há dois anos, em uma ação pela comemoração dos 40 anos de empresa, a história de Jonecy foi inspiração para um conto de Ziraldo no livro “O que tem dentro da Tupperware?”.

O maior prêmio em 25 anos de vendas.

– Eu posso morrer, mas o livro vai ficar como o meu maior troféu. É o reconhecimento da minha vida!

Jonecy Boeno Tupperware Ribeirão Preto

Jonecy conta que quando se casou, aos 16 anos, foi por amor.

O marido era motorista de ônibus e sete anos mais velho. As contas dos dois, começando a vida e logo com dois filhos, eram sempre apertadas.

– São poucas as oportunidades de trabalho para mulheres que não têm estudo, em uma cidade tão pequena e com dois filhos.

Foi a sogra quem lhe indicou para a empresa. Jonecy tinha 22 anos, um filho de dois e outro bebê.

Conta que, quando começou as vendas, em Colíder, era a única vendedora da cidade. Organizava reuniões nas casas das mulheres e levava as sacolas de utensílios para vender. O marido lhe comprou a bicicleta que usava para ir até as casas, com uma condição:

– Eu teria que pagar!

Não foi problema para a vendedora nata. Um ano depois, como líder de vendas, foi morar em Sinop, cidade um pouco maior, a pedido da empresa. E conseguiu trocar a magrela por um Corcel: seu primeiro carro.

Mais que o patrimônio, porém, a conquista celebrada foi outra.

– Eu não sabia dirigir. Aprendi! E tudo ficou mais fácil!

Nem tudo eram flores na vida de vendedora, porém. Jonecy viajava pelas cidades do interior do Mato Grosso, em estradas feitas de terra e buraco.

– Às vezes, a gente levava três dias para cruzar 300 quilômetros.

Uma dessas viagens virou trecho do conto de Ziraldo, inclusive.

Era preciso pegar uma balsa que levava à cidade do outro lado do rio. Quando Jonecy conseguiu chegar à margem, já era tarde. A balsa tinha partido.

– Nós dormimos dentro do carro, do lado do rio, ouvindo as cobras.

Neste ano de 2009, marcado pela aventura, ela foi a vendedora que mais vendeu em todo Brasil.

Um dos prêmios que recebeu foi uma viagem para Buenos Aires. Mesmo depois de 16 anos de vendas – e muitas viagens – ela ainda não havia perdido o medo de avião. E passou por teste de fogo.

Conta que pegou um avião pequenino, que a levaria de Juína a Cuiabá, para o voo internacional. Mal o avião chegou aos ares, um dos passageiros teve um mal súbito e morreu. Tiveram que retornar, para entregar o falecido à terra firme.

– Eu não queria mais subir no avião de jeito nenhum. Mas não tinha nem telefone para ligar pedindo que me buscassem. Tive que continuar. Voltar para o avião. Mas que medo!

Foi perder o medo de altura em uma montanha russa de Orlando, que encarou como desafio.

– Depois disso, nunca mais chorei nas viagens. Chorava em todas!

Quando conquistou o pódio de vendas, em 2009, além das premiação e viagens, recebeu o convite para deixar o Mato Grosso e coordenar a equipe de toda região de Ribeirão Preto.

– Eu achava que não iria me acostumar, pelo tamanho da cidade. Mas fui muito bem acolhida!

Partiu com os dois filhos e uma mala de coragem. O casamento, que já não andava bem, terminou depois de 23 anos. E ela não só enfrentou a nova fase, como continuou acumulando títulos.

Em 2014, a região de Ribeirão Preto foi a 11ª do mundo todo em crescimento de vendas, o que deu à Jonecy lugar de prestígio no livro anual da empresa, com fotos de vendedores do mundo todo.

– O trabalho, quando feito com amor, é muito prazeroso!

Jonecy Boeno Tupperware Ribeirão Preto

Hoje, como coordenadora da região de Ribeirão Preto, Jonecy não tem mais a função de vendas, mas de treinar e capacitar outros vendedores.

Depois de décadas trabalhando só com mulheres, a empresa aceita vendedores homens. Jonecy afirma, porém, que as mulheres são ainda maioria.

– Hoje, meu trabalho é mudar a vida dessas mulheres.

Conta a história da senhora que chegou à empresa com depressão e meses depois já não precisava de remédios, da mulher que sofria violência em casa e conseguiu sua independência, das mudanças que vê no dia-a-dia da sua equipe.

Os produtos são focados em cozinha, Jonecy bem sabe. Avisa, porém, que muitos compradores, hoje, são homens.

– Hoje, o lugar da mulher é onde ela quiser.

Não deixa de frisar, sem modéstia:

– Eu gosto de cozinhar! Cozinho muito bem!

O episódio com Ziraldo, como ela bem disse, foi o maior troféu da vida. A história dela foi uma das 12 escolhidas, entre milhares de consultoras espalhadas Brasil afora.

Jonecy não sabia do livro. Conta que recebeu uma jovem, que lhe entrevistou com a desculpa da celebração anual da empresa.

No dia da solenidade, estava no palco quando subiu o escritor.

– Eu sempre fui fã dele. Meus filhos assistiam “O menino maluquinho”.

Ziraldo entregou um livro a Jonecy, com um trecho grifado, e lhe pediu que lesse em voz alta.

– Quando eu comecei a ler, percebi que era a minha história que estava ali.

Foi impossível conter a emoção. E é ainda hoje.

Guarda o livro, com grifo e tudo, junto às medalhas e premiações que somou ao longo de 25 anos de vendas.

Os planos para o futuro são relacionados ao presente. Quer transformar uma de suas vendedoras em líder de vendas nacional, pensa em fazer inglês e continuar a conhecer esse mundão afora.

– Me sinto muito realizada. Tudo o que planejei, estou executando.

Dentro da Tupperware de Jonecy tem – e sempre teve – a vontade de vencer!

 

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Todos os 2 comentários
  • Jonecy
    Responder

    Obrigada Daniela ! Você além de uma escritora sensacional, uma pessoa de energia muito boa!
    Muito sucesso nos seus projetos sempre! bjs

  • ROGÉRIO NOVAES
    Responder

    Gratidão Daniela, por contar tantas histórias de vidas que transformam nossas vidas. A história da Jonecy traz mais que as conquistas e o sucesso de uma mulher trabalhadora.
    Traz um exemplo de superação e da gigantesca força que as mulheres possuem quando acreditam em si mesmas. Mulheres são obstinadas, possuem o dom da transformação. Jonecy é um belo exemplo. Uma Mulher Admirável!

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