Weber Sian: 25 anos registrando Ribeirão em fotografia

Foi encantamento certo. Weber Sian até achava bacana esse lance de fotografia. Mas, depois daquele dia, entendeu a arte de registrar momentos como uma paixão.

Na sala escura, o negativo vira imagem em papel, depois do contato com a solução química com nome de “revelador”.

– Acho que tem esse nome por isso. A foto vai aparecendo, literalmente. Eu me encantei muito com o processo todo.

Ele tinha por volta dos 16 anos. E nunca mais deixou de fotografar.

Depois de aprender o processo de revelar, passou a registrar seu olhar sobre o mundo. Quando viu sua primeira foto publicada no jornal, mais uma dose irremediável de encantamento.

– A fotografia acontece a todo instante. Mas quando há um fotógrafo, ou alguém que goste de fotografar, esse momento é eternizado. É isso que eu acho bacana: a fotografia está acontecendo sempre. Cabe a você eternizar esse momento, ou não.

São 25 anos na carreira de registrar o instante, 15 deles como fotógrafo do Jornal A Cidade de Ribeirão Preto.

Nesse percurso, conquistou o prêmio Vladimir Herzog, um dos mais importantes a nível nacional. As fotos premiadas retrataram a desocupação truculenta da Favela da Família, no Jardim Aeroporto, zona norte de Ribeirão, feita pela Polícia Militar em 2011.

– A realidade que muita gente não viveu, mas eu vivi, me transformou em um bom entendedor para distinguir o que é certo ou errado. Se você não entende aquela realidade, você pode acabar julgando.

Weber cresceu em um bairro da periferia de Ribeirão Preto. Durante os três anos em que trabalhamos juntos no Jornal A Cidade, ele me contava suas histórias de adolescência entre uma pauta e outra. E me deixava sempre em sobressalto.

– Muitos dos meus amigos estão presos, mortos ou envolvidos com o crime.

Crimes que, na rotina de fotojornalismo, ele está a registrar.

Já entrou em presídio e saiu minutos antes de estourar a rebelião. Fez foto de prefeita presa e muito retrato da nossa gente: sorrindo ou chorando. Foi ameaçado um tantão de vezes. E se arriscou para registrar “aquele” instante.

Hoje, aos 41 anos, depois de acompanhar a transição da fotografia analógica para a digital – com todas as mudanças que ela trouxe – se renova entre o fotojornalismo e a fotografia de família. E encontra mais um caminho que encanta, pelas mesmas lentes.

– A fotografia é uma máquina do tempo. Ela não consegue avançar no futuro, mas te leva para o passado. Você pode viver o casamento do seu avô sem estar lá. E saber como era sua cidade. A fotografia é poderosa.

Weber Sian fotógrafo Ribeirão Preto

Weber nasceu em Ribeirão Preto, morou até os sete anos na Vila Tibério e viveu a adolescência no bairro Campos Elíseos. Os pais se separaram e, então, ele passou a maior parte do tempo com os avós.

– Meu avô e minha avó sempre me orientaram sobre o que fazer. Acho que isso foi determinante para que eu não fosse para o mesmo lado que meus amigos foram.

Entre as lembranças da infância que não viraram foto, mas vivem na memória está o primeiro dia de aula, aos sete anos.

Demorou para entrar na escola e, então, não entendia o porquê de não continuar em casa. A mãe colocou uma fantasia de capitão América, para amenizar a tensão.

– Ela me deixou na escola e foi embora. Eu fiquei no corredor chorando.

O questionamento do amiguinho marcou, mas não cessou o choro: “O que o capitão América tá fazendo chorando, cara?”.

Para Weber, o primeiro dia de aula foi a marca de sua trajetória como aluno. Conta, sempre com pesar no relato, que deixou os estudos no colegial.

– Minha história com a escola é essa: a gente não se deu muito bem. Não sei se foi esse trauma do começo… Mas eu nunca consegui entender o que era ensinado. Eu tinha dificuldade para aprender e ninguém percebia. Viajava nas aulas… Existe um julgamento em relação a isso.

Ele terminou o Ensino Médio mais tarde, no supletivo. Mas não fez faculdade. A rotina diária de fotografia trouxe o aprendizado. Com a câmera na mão, a mente não foge. A atenção é total.

O pai, que também é fotógrafo, foi quem lhe abriu os caminhos.

– Foi um presente que ele me deu.

Weber, em toda conversa, ressalta o quanto lhe é grato.

Aos 16 anos, ele começou a trabalhar em uma perfumaria. Seu pai – com quem não tinha contato diário – passava sempre por ali e lhe viu trabalhando. Depois de um tempo, a perfumaria fechou. E o pai, também ao passar pelo local, soube da notícia.

– Ele perguntou se eu queria aprender fotografia. Eu achava legal, mas nunca tinha me interessado.

Começou aprendendo a preparar o “revelador”, com um processo químico. E achava aquilo tudo um tanto um chato. Até descobrir a função que a tal solução tinha.

– O dia em que eu vi uma foto minha, com meu nome assinado no jornal, eu não acreditava. Ficava imaginando quanta gente iria ver aquilo! Foi muito marcante.

Passou a trabalhar com o pai na Revide e depois no jornal Enfim. Atuou na Revista Expressão por cerca de cinco anos. Quando saiu, passou um ano e meio parado. Depois, trabalhou alguns meses no jornal Diário e quase um ano no Verdade, onde a cobertura policial imperava.

– Eu sempre almejei o Jornal A Cidade.

Conquistou esse desejo profissional em 10 de setembro de 2003: quinze anos completados na semana passada.

– Foi um auge na minha carreira. O primeiro lugar onde eu trabalhei com uma câmera digital profissional. Aprendi muito!

Weber Sian fotógrafo Ribeirão Preto

Entre os momentos que marcaram a carreira, está a reportagem na cela dos presos considerados “ameaçados” dentro do presídio, quando ainda trabalhava no Enfim. Foi conhecer de perto como viviam homens condenados por estupro, pedofilia, entre outros crimes hediondos.

– Eu tive medo, mas ao mesmo tempo eu sentia que poderia vivenciar e estar em um lugar onde dificilmente as pessoas estariam. E compartilhar aquilo com elas.

Em uma das reportagens em presídio saiu segundos antes de começar uma rebelião.

Viu – e registrou – a prefeita Darcy Vera ser presa. E passou a se emocionar sempre que se lembra do menino que, em uma reportagem sobre o Natal na favela, pediu um frango do Papai Noel. E da mulher que perdeu tudo em uma das muitas enchentes que Ribeirão enfrentou.

– Tem horas que não dá para ser imparcial. Passar pela situação e não ajudar. Eu me coloco muito no lugar.

Já teve que apagar fotos a mando de um traficante armado de faca, mas refez o trabalho no primeiro ímpeto. E, então, precisou fugir do bairro, com jovens correndo atrás.

Por mais que o talento seja visível nas imagens que faz, acredita que também contou com a sorte quando ganhou o prêmio Vladimir Herzog em 2011.

 – O repórter fotográfico tem que dominar a técnica, mas também tem que ter a sorte de estar no lugar certo.

A própria Polícia Militar convidou a imprensa para acompanhar a reintegração de posse da Favela da Família. A ideia era que fosse uma ação pacífica, mas quando os moradores se negaram a sair do local o confronto ocorreu com violência.

Weber fez os registros na linha de fogo entre bombas e pedras. Quando conseguiu entrar na favela, o registro da violência policial sem controvérsias foi escancarado nas fotos.

– Eles estavam realmente expulsando as pessoas da favela. De onde eu estava, conseguia registrar tudo. Eu estava com medo: tinha bomba e pauladas para todo lado. Mas o medo também nos protege. E a adrenalina é mais forte.

A notícia do prêmio saiu em toda imprensa de Ribeirão – e pelo país.

– Foi muito marcante. Eu não acreditava! Muita gente me ligou. E as pessoas me paravam na rua para dizer: ‘Você não é o cara que ganhou o prêmio? Parabéns!’.

Na premiação em São Paulo ele ainda foi sorteado e ganhou uma viagem para Nova York, onde conheceu a sede da ONU e da agência ProPublica.

O reconhecimento merecido – e tão almejado: digo por mim que, como colega de trabalho, me tornei fã.

 

 

Fotos da reintegração de posse, premiadas pelo Herzog

 

Entre uma pauta e outra, Weber viu o fotojornalismo mudar. O digital devorou o analógico, com pontos positivos e negativos – como tudo na vida.

Usou a câmera analógica até não poder mais continuar.

– O analógico exigia o conhecimento. O digital dá a possiblidade de corrigir, de mudar. Eu não busquei o digital quando surgiu. Mas facilitou a rotina de todo mundo. E a qualidade é absurda.

Para ele, a possibilidade de registrar qualquer instante, ao alcance de um clique no celular, fez ressaltar o fotógrafo que existe em cada um de nós.

– O olhar é peculiar. É sua identidade na fotografia. É do ser humano. Não vai morrer.

Mas trouxe a banalização.

– Antes você tinha 36 poses no filme. Hoje, pode fazer quantas fotos quiser pelo celular. É muito legal você poder mostrar para as pessoas o que está vendo. Mas, quando isso é feito de maneira banal, perde-se o sentido.

É do tipo que incentiva os amigos a revelarem suas fotos. Vivia me dizendo: ‘Meu, não adianta fazer um monte de fotos da viagem e não revelar. Tem que revelar’. E tem um número incontável de fotos da filha – uma fofura de cinco anos – em álbuns guardados em casa.

– O celular pode se perder ou quebrar. As pessoas fazem foto de tudo, mas não têm o hábito de revelar. É o registro.

Confessa que se angustia com as incertezas vividas pelo Jornalismo.

– Eu tenho vontade de avançar em 2020 para ver o que vai acontecer.

E, na angústia, encontrou um novo caminho para continuar fazendo o que ama. Há cerca de dois anos começou a registrar casamentos, aniversários e ensaios, com a espontaneidade do instante que a escola do Jornalismo bem lhe ensinou.

– É algo que eu nunca havia pensado. Sempre foquei no Jornalismo. Mas gostei muito. É onde quero investir daqui para frente.

Quando a angústia sobre o futuro pareceu grande demais, ele conta que até pensou em mudar de área.

– Pensei um monte de coisas que não iriam dar certo, porque eu não me vejo fazendo outra coisa. O meu trabalho é o hobby de algumas pessoas. É prazeroso.

Se apega ao encantamento da primeira foto revelada na sala escura. À primeira foto publicada na revista.

– A maior realização é ver a foto pronta e saber que ficou legal.

Antes de terminar a entrevista tiramos uma selfie para registar mais esse momento: a história do fotógrafo transformada em literatura. O fotógrafo na frente das câmeras: para variar! O digital nos auxilia nesse momento nada banal. Mas esta foto eu faço questão de revelar.

 

Conheça o trabalho do Weber AQUI

 

Crédito da foto 1: Matheus Urenha
Crédito da foto de premiação: F. L. Piton

 

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Todos os 2 comentários
  • Weber
    Responder

    Dani, ficou demais, tinha certeza que não seria diferente, parabéns!!

  • MI CLAUDEMIR BAPTISTA
    Responder

    Parabéns Weber, ficou d +, show de bola, gde.abraço.

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