Abigail deixou o Ceará aos 18 anos pelo sonho da faculdade e se formou professora aos 53

 

 

De lata d`água na cabeça, o sertão ardendo em sol e seca, a menina Abigail voava longe.

Casa de taipa, feita de madeira e barro. Seis filhos, mãe guerreira, pai das palavras. Quando chegava da roça, Crispim Martins, autodidata, abria um livro, devorava as letras e, sem precisar dizer muito, mostrava para a filha que, sim, era possível sonhar.

Abigail escutava as histórias do pai atenta. Arregalava os olhos e ouvidos e ia registrando as frases, para depois repeti-las nos dias bons e ruins.

O conhecimento, ele dizia, é a maior riqueza. “Ninguém rouba, o cupim não rói e a traça não destrói”. A menina tomou o dito como a maior verdade da vida. E, aos 58 anos, não se cansa de aprender, com a euforia dos pequenos quando descobrem as letras. Hoje, ela é a professora que ensina a ler e escrever.

Aos 50 anos, já se aposentando do trabalho de 25 anos na enfermagem, realizou o sonho do “grau superior”, compartilhado com o pai, e se formou em Pedagogia.

 

 

Na foto, levanta o canudo do diploma com sorriso cortando os lados do rosto. Há dois anos, passou no concurso do Governo do Estado e dá aulas para alunos de primeiro ano. Ela, que aprendeu as primeiras letras com a irmã, é hoje alfabetizadora. Pensa em mestrado, seguir aprendendo.

Por que parar? O caminho até aqui, afinal, é história de mulher forte, que guarda coragem nos bolsos.

 

Abigail deixou Ceará aos 18 anos pelo sonho da faculdade e se formou professora aos 53

À esquerda, Abigail na adolescência. À direita, Abigail quando menina 

 

Lá na rudeza do sertão, Abigail Martins de Oliveira Ribeiro sonhou com a escola. Junto com o pai acreditou que, um dia, faria o “grau superior”, como falava Crispim.

A família vivia da terra. Se o céu dava chuva, tinham o que comer. Se não dava, era agradecer quando tinha feijão com farinha.

Não havia energia elétrica na pequena Lagoa dos Bois, sertão cearense.

Aprendeu as letras com a irmã mais velha e, então, ensinou os irmãos mais novos: era assim. A primeira escola que frequentou ficava a uma hora de caminhada. Sua tia, Rosalina, era a professora, a diretora, solitária tomando conta de todos os alunos, do 1º ao 4º ano.

As frases do pai sempre norteando a trajetória. Quando a mãe disse “Homem, tu não pode levar essa menina para estudar”, a resposta foi firme: “Mais vale querer do que poder”.

Abigail conheceu televisão aos 10 anos, quando deixou o sertão e foi morar com uma tia, na cidade, para continuar na escola. Foi preciso uma mochila cheia de coragem e roupas.   Aos finais de semana e feriado, voltava para a casa dos pais.

Aprendeu a ignorar as dificuldades. Era uma boca a mais na casa, que já tinha suas carências. O pai não podia arcar com a despesa. A menina fingia não saber que era um peso.

– Eu não queria ouvir, não contava para o meu pai. Eu queria estudar e não dava importância para as outras coisas. Agradeço a minha tia por ter me acolhido.

Tão logo aprendeu a escrever, passou a enviar cartas pedindo aos tios que moravam no Rio de Janeiro e em Ribeirão Preto um pouso para que pudesse terminar os estudos. A tia de Ribeirão disse que a menina poderia ir, mas só quando terminasse o Ensino Médio. Fez o “normal”, como era chamado na época, e partiu desejando a faculdade de Pedagogia.

– Eu fiquei sonhando em vir.

Aos 18, o pai emprestou dinheiro no banco e comprou uma passagem para que Abigail chegasse a Ribeirão Preto, depois de três dias e duas noites de viagem no ônibus. Não tinha dinheiro para comprar comida no caminho. Então, levou marmitas reforçadas com farofa e outras coisas feitas em casa.

 

Casamento de Abigail: os pais viajaram do Ceará para a festividade 

 

Chegou em 1981. E as coisas foram tomando rumos diferentes do sonhado. A faculdade ficou para depois. A tia avisou que haveria um concurso para atendente de enfermagem no Hospital das Clínicas de Ribeirão e ameaçou: “Se não passar, vou te devolver para o sertão”. Mais uma das frases que ficou sempre na memória.

Abigail estudava noite e dia. Passou, com boa qualificação. Naquele mesmo ano, começou a trabalhar no hospital.

– Foi por necessidade. Não é que eu não goste. Sou muito grata ao HC, mas o sonho estava lá, vivo. Nesse tempo todo, eu esquecia, mas depois lembrava de novo.

Trabalhou 25 anos na enfermagem do Hospital das Clínicas. Fez o curso técnico de auxiliar de enfermagem e foi ficando. Se casou em 1987 e os três filhos – dois meninos e uma menina – vieram seguidos. Entre 89 e 91, nasceu o trio.

– E eu não parei de trabalhar. Cuidava deles, trabalhava, lavava as fraldas a noite e começava de novo no outro dia.

 

Abigail, os três filhos e o marido

 

Quando os filhos foram para a primeira série, veio a preocupação. O bairro onde viviam, na periferia de Ribeirão, andava perigoso e o coração da mãe apertou.

– Eu sabia que, para aprender, a criança tinha que estar em um bom ambiente.

Passou a trabalhar em dois hospitais, começando às 5h e parando às 18h, para pagar a escola particular para os três. Ficou nove anos nessa rotina.

– Eu olho para trás e nem acredito que consegui dar contar.

Prometeu para seus meninos: “Quando estiverem formados, eu é que vou fazer faculdade”. Promessa feita é desejo cumprido. E o fez antes do tempo. Quando o caçula entrou na UFTM, Abigail passou em Pedagogia no Moura Lacerda.

Começou o curso presencial em 2011 e, naquele mesmo ano, saiu a aposentadoria da enfermagem. Depois de formada, em 2014, aos 53, decidiu que não teria o diploma só para guardar – o que já seria grande mérito. Entrou no concurso da Secretaria de Educação do Estado.

– Saí da rede estadual na Saúde e voltei na Educação.

Há dois anos, realiza o sonho que carregou na mala quando deixou o sertão.

– Eu escolhi ser professora porque quero dar minha contribuição. A educação está difícil. Muita gente sai da escola sem aprender. É como aquela história do passarinho que tenta apagar o incêndio carregando água no bico, sabe?

 

Abigail trabalhando na enfermagem 

 

Abigail enviou uma mensagem dizendo que gostaria de ver sua história registrada. Depois, contou:

– A primeira vez que pensei em escrever minha história foi quando fui substituir uma professora, no quinto ano. O que vou falar para os alunos? Decidi contar minha história e ir falando sobre as regiões do Brasil. Quando terminei, eles aplaudiram.

Ela conta todos os momentos firme, sem derramar lágrima sequer. Olha para trás com a admiração de quem foi além.

– Me sinto realizada. Sinto orgulho de mim, porque estou vencendo. Faria tudo de novo. Valeu a pena.

Diz que, como professora, é “nova”, está aprendendo. E sente, então, a mente rejuvenescer. Já aprendeu que é preciso ensinar com afeto.

– A gente tem que cativar a criança, ela precisa interagir. Eu faço jogos, brincadeiras para que elas possam se interessar e aprender mais rápido.

Aprende ao mesmo tempo em que ensina: ciclo sem fim.

– Desde criança eu pensava: a gente precisa estar sempre aprendendo. Nunca aprende tudo. É rejuvenescedor.

 

Abigail no dia da formatura em Pedagogia aos 53 anos

 

Não sente a idade que a cronologia lhe dá. Então, faz o próprio tempo. Pensa em mestrado, está se especializando em alfabetização, sempre em movimento.

– Eu tenho muita fé em Deus, fé na vida. A gente tem uma missão e precisa cumprir.

Faz questão de dizer que é católica, ama sua família que ficou no sertão e agradece toda a ajuda que recebeu ao longo da trajetória. Quer um perfil completo.

 – Querer é poder, mas se ficar só querendo, sem alguém para te dar a mão, não adianta.

Lá na pequena Lagoa dos Bois, seu pai deixou legado. Até hoje as pessoas comemoram o aniversário do Crispim e relembram o sindicalista rural aguerrido, conselheiro, leitor, que aplicava até injeção em quem precisasse.

Aqui em Ribeirão, há milhares de quilômetros, Abigail celebra seus raízes e escreve mais uma história para ser lembrada. No sol do sertão, sonhou com um futuro feito de conhecimento. A cada dia, escreve mais uma página.

 

Fotos: arquivo pessoal

 

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https://vlibras.gov.br/
Mostrando 12 comentários
  • Ercia Missaio Koto
    Responder

    Menina valiosa! Fez parte de minha equipe de saúde no serviço de nefrologia. Muito orgulho!

    • ABIGAIL MARTINS DE OLIVEIRA
      Responder

      Gratidão Ercia, você me deu a oportunidade de uma segunda renda para manter meus filhos na Escola, jamais esquecerei….

  • Silvia Helena Piantino Silveira
    Responder

    Que linda sua história Abigail, parabéns por ter realizado seu sonho. Tenho muito orgulho de ter sido sua professora no Curso de Pedagogia. Você foi uma excelente aluna. Sucesso e felicidades sempre. ??

    • Patrícia
      Responder

      Que história linda. Fiquei encantada.

    • Zélia
      Responder

      Abigail minha irmã,eu como sua irmã mais velha fico lisongiada por ter feito parte dessa sua trajetória,fico muito feliz por você ter conseguido chegar onde queria,ter realizado seus sonhos,tenho muito orgulho de você minha irmã.

    • Jessica
      Responder

      Biga, que orgulho que tenho de você! E que imensa honra te conhecer, e ver a pessoa extraordinaria que você é! Saiba que é uma felicidade ter você ao lado como amiga, aluna, conselheira e aprender contigo com esse exemplo de vida de força e garra! ?

  • Maria Dalva Martins
    Responder

    Parabéns, Deus Abençoe sempre,tio Crispim grande homem, tia Totonha maravilhosa, um previlego ter conviver com eles… Parabéns.. Abigail

  • Daiane cristina antero severino severino
    Responder

    Que mulher guerreira , Deus te Abençoe. Vc é um exemplo para muitas mulheres. Parabéns

  • Antônia
    Responder

    Que linda! Um verdadeiro exemplo de determinação!!! ?

  • Eudirene
    Responder

    É guerreira, determinada, persistente… parabéns!!!
    (É minha prima…)

    • Sônia Teles
      Responder

      Abgail, somos duas guerreiras. Tbem fiz minha faculdade após os 50 anos e dps q meus 03 filhos se formaram.
      Parabéns!! Conhecimento não tem tempo e nem idade. Siga em frente,vc merece e pode tudo. Felicidades. ?????.

  • Elizete Castilho Guedes
    Responder

    Abigail minha amiga, que história linda…só conhecia uma pequena parte, obrigada pelo incetivo que me dás, parabéns!

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