Dono da Invicta, Rodrigo entrou para o ramo cervejeiro como entregador

Rodrigo Silveira era um adolescente quando abriu seu primeiro empreendimento. Uma sorveteria, no bairro Ipiranga, Ribeirão Preto. O nome era “Veneza”, ele puxa na memória. Enquanto as temperaturas estavam altas, deu certo

– Eu não estava preparado para o inverno.

Esse primeiro negócio durou um ano, mas a experiência valeu para a vida toda.

– Me preparou para a frente. Empreender é entender de fluxo de caixa, créditos, administração. É cuidar da gestão, não só do sonho. Sempre me imaginei gerando empregos, fazendo algo de bom.

Foi intenso o caminho que tornou realidade essa imaginação. Trabalhando em uma casa de sementes, ele foi se encantando com as possibilidades que nascem dos grãos. Entrou como entregador em uma cervejaria em 1998, se interessou pela produção e foi mudando de cargo.

Trocou uma viagem de férias, que a cervejaria lhe deu como premiação pelos anos de trabalho, por um curso de cervejeiro.

– Meus amigos foram viajar e eu pensava: ‘Tudo bem. Terei outras oportunidades’.

Atuou por onze anos nessa empresa e por mais dois em outra antes de montar a sua própria. Oito anos atrás, deixou o emprego em uma grande fábrica cervejeira nacional para empreender.

Seu primeiro espaço, inaugurado em 2011 com um sócio, tinha 400 metros de extensão. Hoje, são mais de 2,5 mil metros de fábrica, com produção de 60 mil litros de cerveja e chopp ao mês.

A Cervejaria Invicta começou com três estilos de choop. Em menos de um ano, passaram a produzir cervejas em garrafas. Hoje, já são quase 40 rótulos, além das sazonais, com receitas criadas sempre com a participação de Rodrigo.

Suas cervejas ganharam prêmios nacionais e internacionais, como o Concurso Brasileiro de Cervejas, em Blumenau, MBeer Contest Brazil, South Beer Cup, realizados no Brasil e Argentina, Copa Cervezas de América, no Chile, Global Craft Beer Award, na Alemanha.

Empreendedor nato, ele continua pensando além. Está expandindo a distribuição para São Paulo e, dentro da cervejaria, implementa novos negócios que vão da produção de cerveja para terceiros à manutenção de uma loja que oferece todo o maquinário e os ingredientes para quem quer produzir a própria bebida.

Conta que, recentemente, criando uma nova receita inspirada em Hamlet, de Shakespeare, passou uma semana sem dormir, com a cabeça acelerada. Desacelerar não é seu forte.

– O problema é que as pessoas vêm para um universo que envolve paixão, que é o cervejeiro, mas não têm conhecimento de gestão. Elas não têm a mínima noção do quão difícil e o quão perigoso é. Se não deu certo, não é porque elas não são capazes, mas porque não tiveram quem pudesse orientar.

Cervejaria Invicta Ribeirão Preto

Rodrigo conta que sua família se mudou de Minas para Ribeirão Preto logo após seu nascimento, em 1978. A mãe era dona de casa e o pai trabalhava como pedreiro.

– Ele se virava. Fazia casas para vender. Tinha momentos difíceis, outros bons. Sempre quis ser empresário de si mesmo.

Na juventude, apesar de “comercialino roxo”, como diz, jogou para o Botafogo.

Diz que começou a trabalhar cedo. A sorveteria foi um dos muitos passos. Estava próximo desse nicho e decidiu ter a sua própria. Na casa de sementes, iniciou pesando os pacotes, depois foi coordenador de preços. Pensava além e ia mudando os cargos.

Entrou na Cervejaria Colorado para trabalhar como entregador, em 1998, aos 20 anos. E foi alcançando objetivos: motorista, office boy, vendedor de chopp, representante comercial.

Passou cerca de três anos no setor de vendas. O suficiente para se interessar pela produção e conquistar uma vaga na fábrica.

Um acidente revelou seu potencial. Rodrigo conta que o funcionário que coordenava a produção se queimou e precisou ser socorrido para o hospital.

– Eu finalizei a produção sem nunca ter produzido.

Passou, então, a trabalhar nessa área. Entrou na faculdade de Engenharia de Produção, pelo desejo de seguir por esse caminho. Chegou ao cargo de gerente de processos e desenvolvimento de produtos.

– Era um mercado muito novo!

Depois de 11 anos de trabalho, a acomodação seria caminho possível. Decidiu, então, que era hora de buscar novos trajetos. Já tinha a vontade de ter sua própria cervejaria, mas sentia que era preciso aprender um pouco mais.

Teve uma passagem rápida por uma cervejaria de Piracicaba e, depois, foi contratado por um grande grupo cervejeiro nacional. Ao invés de ficar na área de produção, na qual já tinha experiência, quis trabalhar no setor de envase.

– Eu queria algo que ainda não conhecesse.

E assim foi! Coordenou equipes, trabalhou no envasamento de milhares de produtos por cerca de dois anos até decidir que era a hora, enfim, de ter sua própria cervejaria. Dessa vez, com conhecimento e experiência.

Buscou um tio para sociedade e no final de 2010 começaram a buscar local, nome: dar forma ao sonho. Desde sempre, se instalaram na avenida do Café, mudando apenas o numeral, na recente ampliação.

Desde agosto de 2011, produzem cervejas, chopp e atendem a clientela, no modelo de Brewpub. Nos primeiros rótulos, homenagearam Ribeirão Preto, com imagens dos lugares tradicionais da cidade.

– Na época, eram, em média, 150 cervejarias no Brasil. Hoje, são quase mil fábricas. Com todas as dificuldades, nós chegamos a oito anos de vida com muitas coisas criadas.

Cervejaria Invicta Ribeirão Preto

Rodrigo, além de empreendedor, passou a atuar por melhorias no mercado cervejeiro.

– Assim como o futebol, cerveja é um negócio que todo mundo acha que entende… mas é preciso conhecer a história. Ela é muito importante para a sociedade. A gente só é civilização graças à cerveja. Faz parte da vida de todas as pessoas, mesmo as que não a consomem.

Entre 2017 e 2018, foi presidente da Associação Brasileira de Microcervejarias (Abracerva). Defendeu e conquistou uma tarifação de impostos menor para as pequenas cervejarias (mesmo que a sua já não se enquadre nesse segmento).

– A cerveja artesanal ainda é muito cara. Não cabe no orçamento das pessoas. Isso porque os governos não entendem nosso modelo de negócio, que é tributado de maneira super radical. Nossos insumos são bem mais caros, nós não produzimos em larga escala.

Todo ano, a Invicta promove, assim, a “Semana da Justiça”, vendendo seus produtos pela metade do preço, como forma de democratizar o acesso.

– A cerveja pilsen, a mais consumida pelo brasileiro, não é a única. Há uma cerveja para cada ocasião.

Ele entende que um mercado de nicho, como o cervejeiro, precisa trabalhar unido. E diz que, em Ribeirão Preto, essa ideia é colocada em prática pelas mais de 10 cervejarias que reforçam a fama da cidade cervejeira.

– Nós nos reunimos para falar de processos, falar do mercado. Se o cara vem aqui, eu mostro minha tecnologia. Na rua, cada um usa sua estratégia, mas sempre respeitando o outro.

O segredo da boa cerveja? Rodrigo, então, não esconde.

– Não tem grandes segredos. O que diferencia são os detalhes: a temperatura, a moagem dos grãos.

Água, malte, lúpulo e fermento são os principais ingredientes. Mas ele cria cervejas com frutas, café, baunilha, flores.

– É o que mais me encanta: a possibilidade de produzir infinidades de aromas e sabores. Unir água, malte e lúpulo e conseguir agradar paladares.

Diferentemente do que muita gente pensa, ele não toma cerveja todo dia. Defende que a bebida seja degustada em menor quantidade, com maior qualidade.

Para o amanhã guarda angústias e expectativas. Se inquieta com a economia e a instabilidade do Brasil. Espera que tudo alavanque para que possa continuar produzindo e crescendo.

– Espero conseguir perpetuar a marca. Que as pessoas de Ribeirão se aproximem mais dela, se sintam donas. Realizado? Me sinto. Mas tenho muitas coisas para realizar!

Na cabeça, dezenas de ideias saltitam. Se depender dele, não vai faltar cerveja para nenhuma ocasião!

 

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