Com 78 anos de luta, Isaura recolhe recicláveis todos os dias

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha! Para ouvi-la, é só clicar no play:

 

 

O sol ainda está com preguiça de sair, mas Isaura já acordou. Cinco e meia, seis: é sua hora de despertar. Coloca o tênis, tira o carrinho da garagem e sai, empurrando o veículo movido pela sua força. Duas rodas e uma estrutura de madeira carregam uma quantidade tão grande que ela não sabe precisar.

Todos os dias, Isaura Davanço anda por cerca de duas horas e meia recolhendo recicláveis no Jardim Paulo Gomes Romeo, zona Oeste de Ribeirão Preto. Sábado e domingo tem folga? Não para ela. De quarta-feira, dobra os turnos. Sai de manhã e também no final da tarde. Passa, ao todo, cinco horas caminhando.

Nem os 78 anos, as broncas e apelos dos filhos e netos ou mesmo o problema que paralisa os rins conseguiram lhe parar.

 O dia que eu não saio, fico com o corpo doendo. Tenho que estar andando. Já acostumei. Fico doente quando não vou.

Precisou acostumar. Diz que recolhendo recicláveis, criou sozinha as filhas.

Os quilômetros caminhados e os quilos que carrega parecem não pesar tanto quanto sua história. Teve que aprender a viver em luta. Foi acostumada, desde muito cedo, a tempestades que não traziam o sol.

O choro sai fácil.  Como despejar as lembranças da violência? Conta que, com o pai, as agressões eram constantes. Depois, continuou sendo agredida pelo marido.

Mas os sorrisos moram em algumas lembranças e nas vivências do presente. É feliz? “Quando os filhos e os netos estão reunidos no quintal”, diz. Também gosta de pescar, na companhia de um dos netos.

Ganhou a primeira boneca dos recicláveis. Havia sido o sonho de uma vida toda ter uma boneca para ninar. O realizou depois de adulta e guarda o brinquedo em seu quarto, como troféu, junto a um urso de pelúcia e uma outra boneca com a cara rabiscada.

– Essa daqui eu não dou para ninguém. Dou valor no que eu ganho.

Um dos cachorros que tem em casa rasgou o ursinho, presente que a filha lhe deu quando completou 65 anos.

– Eu vou costurar! Ô coisa!

O dia em que conheceu a dupla sertaneja Lourenço e Lourival, por empenho da filha, também está entre aqueles que lhe trazem o riso. O maior sonho que cultiva hoje é o de conhecer o cantor Leonardo, “chegar pertinho dele”. Mas diz que “isso não pode fazer”.

Onde nasceram sonhos tão inusitados? A música sertaneja, desde os tempos de roça, é companhia que alenta os dias. Seu radinho é companheiro. As notas trazem uma rota de fuga?

– Traz alegria! É bom!

Aos 78 anos, Isaura pega recicláveis todos os dias no Paulo Gomes Romeo e conta história de muita luta

Isaura nasceu e cresceu no sítio, somando cicatrizes das surras que o pai lhe dava. Com os sete irmãos e a mãe não era diferente.

– Apanhei muito na cabeça, ele batia. Se deixasse um matinho para trás, ele metia a enxada na testa. Tinha um reio com arame na ponta. Batia com aquilo, jogava a gente no chão. Jogava minha mãe no chão e sapateava em cima dela.

As histórias de tristeza povoam suas lembranças. Um dia, a mãe pegou a mortadela que o pai escondia e deu aos filhos.

– Ele quase matou ela de tanto bater. Minha mãe tava grávida, mas não teve jeito de salvar a criança.

Começou a trabalhar aos seis anos e não pôde estudar. O pai dizia que filha dele não aprenderia a escrever para mandar cartas ao namorado.

– Hoje, quem sofre é a gente. Passa amargura.

Aos 23 anos, fugiu de casa para se casar, acreditando que a vida seria diferente.

No dia do casamento, o pai chegou na festa, derrubou a barraca onde os noivos iam dançar a valsa e profetizou:

– Ele disse que eu não ia ser feliz. E eu não fui. Foi só sofrimento.

As agressões mudaram de mão, mas continuaram diárias.

– Ele me batia, me traía, andava com outras na minha frente. Eu carregava lenha na cabeça para ajudar ele a economizar no gás. Deixava o gás para a última hora. Trabalhava no curral, ficava sozinha no barracão e ainda apanhava quando ele chegava. Isso não é vida…

Um dia, decidiu dar um basta. Os filhos estavam com fome e ela colheu um cacho de bananas para lhes oferecer. Quando o marido chegou, disse que os meninos iriam apanhar. Isaura pegou a faca que estava usando e ordenou: “Ninguém vai apanhar hoje!”. Depois, passou a guardar a arma que o marido comprou embaixo do travesseiro.

Passou 13 anos casada antes de somar forças para pedir o divórcio.

Ficou sozinha com os seis filhos. E, então, viveu a parte mais doída da história. Conta que o ex-marido pegou quatro crianças na escola e sumiu. Isaura ficou só com a mais velha e com a mais novinha, de um aninho.

– Eu fiquei quase louca sem meus filhos. Cheguei a comprar pinga para conseguir dormir. Roubaram os meus meninos de mim.

Só voltou a ver os filhos já crescidos, décadas depois. Quando adultos, eles a procuraram.

O pai dela morreu queimado. Colocou fogo no próprio corpo, protagonizando mais uma tragédia na vida dos filhos. Diz que é católica, tem fé.

Não entendo nada… por que sofrer assim?

Aos 78 anos, Isaura pega recicláveis todos os dias no Paulo Gomes Romeo e conta história de muita luta

Decidiu se mudar de Franca para Ribeirão 50 anos atrás, tentando retomar a vida. Depois de um tempo, começou a namorar e diz que, pela primeira vez, era tratada com carinho. Engravidou de gêmeas, mas o pai não chegou a conhecê-las.

– Ele foi viajar de caminhão e mataram ele na estrada. Eu tava grávida de quatro meses. Aí eu não quis mais, não. Fiquei sozinha.

Criou as quatro filhas com a garra com que, ainda hoje, empurra o carrinho. Trabalhou como camareira e diarista antes de começar a recolher os recicláveis, décadas atrás.

– Eu passei fome, mas não deixava elas passarem. Tirava da minha boca e dava para elas.

Hoje, as caçulas já estão com 40 anos.

No bairro onde morou por mais de três décadas, Salgado Filho, em um terreno invadido, conta que fez um sítio em área urbana. Depois que seu barraco pegou fogo, conseguiu comprar tijolos e construiu uma casa de alvenaria. Criava bichos, cuidava de árvores, plantava e colhia. Diz que, por quase 20 anos, viveu ali sem água e sem energia elétrica.

Quando a área passou por reintegração de posse, oito anos atrás, foi viver no Paulo Gomes Romeo, com uma das filhas, financiando uma casa.

– Eu chorei tanto… não queria sair de lá…

As saídas mais e mais constantes para recolher os recicláveis se tornaram, então, uma forma de amenizar a falta do cantinho que tanto gostava. Fez amizade com o bairro e é conhecida por todo lado.

– O povo me ajuda, me dá muita coisa. E eu dou valor no que recebo.

Ela e a filha sustentam a casa. Diz, então, que o que recebe com os recicláveis ajuda nas finanças, apesar da filha explicar que o trabalho da mãe não é uma necessidade financeira.

– O problema é que se ela parar, fica doente.

Os rins estão com problemas. Um deles já quase não funciona. A filha espalhou cartazes enormes pela casa: “Proibido sal”, tentando conscientizar a mãe. Os médicos disseram que é necessário começar a hemodiálise e, então, parar com as andanças e com o peso.

Eu prefiro morrer. Se eu colocar isso, não posso lavar roupa, limpar a casa, não posso fazer nada.

Segue, então, com seu carrinho pelas ruas do bairro. O rosto se ilumina quando segura as bonecas e o urso de pelúcia que ganhou. Abre um sorriso bonito para a foto.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Aos 78 anos, Isaura pega recicláveis todos os dias no Paulo Gomes Romeo e conta história de muita luta

 

Mostrando 6 comentários
  • Darci petti
    Responder

    Que garra, que coragem, só com muita proteção divina pra ter esta determinação.
    Abraço

  • claudinha
    Responder

    Me orgulho de ser filha dessa mulher incrível.

  • Daviane Barbosa
    Responder

    Parabéns dona Isaura que Deus abençoe muito a senhora

  • Maria
    Responder

    Exemplo de garra para essa geração mimimi

  • Roberta
    Responder

    Que história de guerreira…Me emocionei com a história de sua mãe Claudinha.

  • Agnaldo
    Responder

    Quem conheceu está mulher sabe o que ela enfrentou . você Isaura é muito especial eu continuo admirando a sua luta . A sua vida.sem palavras.voce é simplesmente um verdadeiro exemplo de vida.amo vocês … Cláudia …..tika Isaura

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