Aos 91 anos, Dinah ensina piano e toca a alma

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha! Clique no play para ouvi-la:

 

 

Um médico de dedo em riste enfatizava o quanto o desafio seria grande: “Seu filho nunca mais vai ouvir. Não tem cura. Trate da reeducação dele. Não perca tempo. Comece amanhã”.

Dinah chorou. Mas reverteu cada lágrima em ação.

– Você precisa ter coragem de enfrentar tudo. E eu só percebi isso com a doença do meu filho e o médico valente que teve a coragem de me fazer chorar. Fiquei com raiva, mas como agradeço a esse médico! Eu senti uma firmeza na vida.

Ela tinha por volta dos 30 quando o filho mais velho, aos seis anos, teve uma meningite que lhe tirou a audição. A história que já somava, tocando e ensinando piano, se fortaleceu com a dor.

– Eu sou uma professora corajosa por causa desse médico. Sou muito firme com meus alunos, sou enérgica. Mas é a energia que a vida precisa.

A música é herança de família. O pai dela, Belmácio Pousa Godinho, foi um grande nome em Ribeirão Preto, compositor gravado internacionalmente e dono de uma das maiores lojas de instrumentos da cidade, “A musical”, que funcionou por mais de 60 anos no Centro.

Ele nasceu em Piracicaba, mas em Ribeirão criou suas raízes. Jogou no Comercial, se casou, teve um casal de filhos.

Dinah Pousa Godinho Mihaleff repete algumas vezes: “Eu nasci em um berço de música”, para explicar a origem inata de seu encantamento pelas partituras e melodias.

O pai tocava flauta, mas compunha no piano. Em sua loja, pioneira no interior, eram vendidos pianos que vinham da Alemanha. Ainda menina, ela escolheu seu instrumento. Lembra que devia ter uns oito anos quando começou a tocar, inspirada pela música do pai.

– Ele compunha sempre de madrugada. E me chamava: ‘Dinah, venha ver que música linda eu fiz!’. Para ele, a coisa mais fácil era compor uma música. “Supremo adeus”, que é a mais conhecida, ele fez vindo de Piracicaba para Ribeirão. Desceu para tomar um café na Vila Bonfim e lá compôs.

Não houve dificuldade, então. A música estava impregnada em si – e nunca deixou de estar. Começou pequenina, teve bons professores e logo se tornou uma profissional.

– A música é alguma coisa que penetra na sua vida e não mais você a deixa, porque ela toma conta do seu ser. O som musical faz bem e, quando você entende isso, não tem como não valorizar a música como algo importante.

Ela não quis uma vida de concertista. Mais do que os palcos, a sala de aula lhe encantava por completo.

– Eu não saberia fazer outra coisa da minha vida, senão dar aulas de música e, principalmente, de piano. É muito gratificante…

Aos 91 anos, assim, continua lecionando – inclusive para professores.

– Com essa idade, eu posso te contar coisas muito lindas…

Na escola onde trabalha, Ad Libitum, o auditório foi batizado com seu nome. A diretora da instituição foi sua aluna, quando Dinah ainda lecionava na universidade. A homenagem emocionou a professora.

– Eu não consigo nem saber quantos alunos tive. Foram milhares…

Conta que semanas atrás teve uma pneumonia que lhe deixou na cama. Não demorou a se restabelecer, porém.

– O que me fez sarar mais depressa foi a vontade de voltar para as aulas.

  Aos 91 anos, Dinah continua ensinando piano e tocando a alma

Para a entrevista, Dinah chega com uma pasta cheia de papeis nas mãos. Nos sentamos em frente ao piano onde ela dá as aulas, no auditório com seu nome. Eu no banco de quem toca, ela na cadeira de quem ensina.

– Esse é meu lugarzinho, minha cadeira. Sinto uma felicidade muito grande em estar aqui. Não posso nem dizer o quanto isso é bom! O quanto sou feliz!

Nos papeis dentro da pasta está seu vasto currículo em detalhes. Faz questão de ler item por item – não pode se esquecer de nada.

Fala com orgulho das dezenas de especializações e cursos que fez. Viajou pelo mundo aprendendo com professores renomados internacionalmente. Trouxe muitos desses nomes para Ribeirão, em seminários, colóquios, eventos.

– Eu me considero uma boa professora porque nunca deixei de estudar.

Ainda adolescente, conta que dava aulas no próprio espaço onde estudava. Foi aluna no conservatório da dona Diva Tarlá de Carvalho, importante musicista de Ribeirão. Fez o magistério, obteve diploma para o ensino de piano, licenciatura em Música, graduação em piano pela Faculdade de Música de Ribeirão Preto, Unaerp, onde exerceu por décadas suas atividades como professora.

Foi professora e diretora no Colégio Técnico Musical da Associação de Ensino de Ribeirão Preto, onde iniciou suas atividades em 1954, e também coordenadora e chefe de departamento na Unaerp, instituição que só deixou quando se aposentou.

Páginas e páginas de trajetória em partitura.

  Aos 91 anos, Dinah continua ensinando piano e tocando a alma

Depois de aposentada passou, então, a dar aulas na escola Ad Libitum, revendo alunos que hoje são professores.

– Eu fui acolhida com tanto carinho aqui! Me receberam como se eu fosse alguém que pudesse dar a essa escola uma grande força musical.

É isso que procura fazer a cada dia de aula. São três dias de aulas por semana, com sete alunos fixos, em suas contas. Para estar com eles, não tem acorde ruim ou pneumonia que a derrube. Fala de cada um com carinho quase melódico.

– Eles são iluminados! Deus deu uma luminosidade e eles são capazes de estudar. São estudiosos, maravilhosos e me compreendem muito bem.

Guarda na bolsa o cartão de aniversário que uma dupla de irmãos lhe escreveu, agradecendo pelas aulas e pelo carinho. Também leva consigo os encartes do recital de uma aluna e de outro. Conta cheia de orgulho daqueles que estão tocando mundo afora.

– Isso é felicidade! Eu me sinto muito feliz com os meus alunos. Com o que pude dar a eles e com o que eles me deram de bonito.

É rígida, mas seu segredo não está em palavras mal ditas, gritos ou mal tratos. Bem o contrário. Conta que aprendeu com o marido a arte de se fazer ouvir:

– Ele dizia: ‘Não grite, fale sempre baixo’. Quanto mais baixo você fala, mais você toca o coração. Gritar não leva a nada.

Se o dedo estiver em riste, no entanto, já se sabe que o assunto é importante. Assim como médico que lhe apontou o dedo lá atrás, tomou para si o gesto de firmeza.

– Os meus netos falam: ‘Se a vovó apontar o dedo, ih, sai de perto!’.

Sua firmeza não é sem fundamentos. Tem o amor como raiz, com o desejo de ver o outro seguindo em frente.

– Assim é a vida: se você não for valente, levantar o dedo para si mesma, você não vai. Se te acontecer algo triste, você não será capaz de ser feliz. Sabe o que é ser capaz de levar adiante alguém que precisa de você?

O filho, motivo de tanto aprendizado, se tornou um adulto de quem ela se orgulha e fala com admiração.

– Ele estudou, fez Engenharia, trabalhou e foi um dos bons, muito bom. Tudo o que ele faz é com muita perfeição.

Diz, então, que encontrou na vida mais motivos para melodias alegres do que melancólicas.

– Você é jovem. Pode saber: a vida tem coisas felizes e outras tristes. E eu acho que tive mais felicidade do que tristeza.

Conta que o marido – com quem se casou perto dos 20 anos e dividiu a trajetória – passou nove anos na cama, antes de falecer quase uma década atrás. Sua mãe e seu pai também viveram esses sofrimentos.

– E eu estou aqui, com 91 anos, firme, muito firme. Aprendi, com aquele médico, a ser valente na vida. Vá e faça o que tem que fazer. Não volte atrás.

Assim pretende continuar. Sempre em frente.

A memória já tem falhas, se perde entre tanta vida vivida. Quando se senta no piano, porém, não há tempo que apague as notas. Toca alto e forte sua música quem vem da alma.

– É isso: uma vida inteira de amor. Depois de tanto aprender, eu vi o quanto Deus nos faz iluminados para sermos pessoas que podem dar felicidade a quem precisa. Você não sabe o quanto é feliz uma pessoa que toca…

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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