Após acidente, Paulo se apaixonou pela fisioterapeuta Bruna  

Texto: Alice de Carvalho Leal

 

– Se não fosse o acidente, nada disso estaria acontecendo. Não estaríamos aqui hoje, talvez nem teríamos nos conhecido.

Com essas palavras, Paulo Henrique Amarante Neto, de 35 anos, dá início a nossa conversa através de videochamada, como manda o protocolo dos dias de hoje. Ao lado dele, a companheira Bruna Ungaretti, de 32, observa atentamente tudo o que é dito.

Durante o diálogo, a troca de olhares e os carinhos não negam: existe amor de sobra entre o casal. Amor que floresceu na dificuldade.

Cada um seguia o próprio caminho. Paulo, nascido em São Paulo, atuava como engenheiro mecânico em diversas cidades do Brasil afora. Desde pequeno, vivia viajando por conta do emprego do pai e, depois de formado, pelo trabalho que também escolheu.

Enquanto isso, Bruna, natural de Ribeirão Preto, conquistava o diploma de fisioterapeuta e alavancava a carreira profissional na área.

A história a dois começa em dezembro de 2013. Só que separados. Eles não se conheceram nessa data, mas todos os acontecimentos a partir dela foram determinantes para uni-los.

História do Dia

Paulo foi passar um final de semana nos Lençóis Maranhenses ao lado da pessoa que namorava na época. Durante um dos passeios nas dunas, já no final da tarde, resolveu dar um mergulho.

– Eu estava em uma duna bem alta e fui saltar em uma lagoa. Saí correndo e pulei de cabeça. Só não esperava que a lagoa fosse tão rasa.

Apesar da altura da duna pressupor o contrário, ele calcula que havia apenas 50 centímetros de profundidade. Bateu com a cabeça no fundo do lago e ali ficou, submerso e paralisado. Por sorte, o salto estava sendo filmado, o que fez com que a companheira notasse imediatamente o acidente.

– Se ninguém tivesse visto, com certeza eu teria morrido afogado.

No local, no entanto, não havia socorristas capacitados para imobilizarem Paulo e impedir que os danos fossem ainda maiores. Ele foi retirado da lagoa sem qualquer material de segurança e levado a uma área plana da duna.

– Meu pescoço estava solto e não tinha uma prancha ou algo do tipo. Acredito que isso tenha prejudicado muito a lesão.

Depois disso, como ele mesmo descreve, foi cena de filme. O local onde aconteceu o acidente era de difícil acesso e o socorro demoraria muito a chegar. O proprietário da pousada onde estava hospedado ofereceu seu helicóptero particular para que ele pudesse estar no hospital o mais rápido possível. A cabine da aeronave era pequena demais para que Paulo fosse deitado e evitasse novas fraturas. Três horas depois do ocorrido, precisou ir sentado até a unidade de saúde.

Ao chegar, identificaram um trauma na coluna que indicava que a paralisia não era somente momentânea – a sexta vértebra estava quebrada. Por conta da gravidade da lesão, foi transferido para outro hospital na capital do estado, em São Luís.

Lá, foram 40 dias internado e um desafio após o outro. Teve parada respiratória, ficou entubado acordado, sem conseguir falar e precisou de uma traqueostomia. Só conseguia dormir com medicação na veia.

– Quase fui…

O pai praticamente se mudou para o Maranhão para dar apoio e cuidados, até que o filho pudesse ser transferido para a casa dele, em Ribeirão Preto. Por conta da dificuldade na locomoção, veio de UTI aérea e ficou novamente internado, até que a situação fosse estabilizada. Recebeu alta para morar com o pai e enfrentar um novo obstáculo na vida: ser tetraplégico.

Foi preciso adaptar toda a casa para recebê-lo da melhor forma. A cama era dobrável para se ajustar às necessidades dele, um guincho auxiliava no deslocamento e, pouco a pouco, o desafio virou rotina. A namorada optou por não continuar no relacionamento.

Os seis primeiros meses após a lesão foram de reeducação. Fez acompanhamento no Centro de Reabilitação do Hospital das Clínicas, onde são oferecidos todos os cuidados básicos pós-acidente, tanto na parte motora quanto psicológica.

– Ali, comecei a conviver com outras pessoas que também sofreram lesões e ficaram paralisadas. O programa é para que você reaprenda a viver.

Finalizado o tratamento, é dada a opção de continuar a fisioterapia em alguma unidade municipal. A guia de encaminhamento indicava uma faculdade específica, conveniada à prefeitura, porém, não havia vagas disponíveis.

Ele acabou sendo encaminhado para outra unidade. Lá, fazia parte de um grupo chamado “Integração”, que acolhia pacientes com lesões na coluna que ocasionaram tanto a paraplegia quando a tetraplegia.

Foi aí que os caminhos de Paulo e Bruna começaram a se cruzar.

Em 2015, ela foi contratada pela mesma universidade para atender a demanda de fisioterapia vinda do SUS. O número de atendimentos, principalmente na ortopedia, era alto e acabava sobrecarregando os alunos. De início, ficou responsável pelo ambulatório da especialidade e, aos poucos, começou a atender todas as áreas. Dentro da própria universidade, montou ainda um estúdio de Pilates.

Pouco mais de um ano após a contratação, ela ganhou mais uma responsabilidade: a fisioterapeuta responsável pelo grupo “Integração” estava passando por uma gravidez de risco e precisou sair de licença mais cedo.

– Minha chefe chegou em mim e disse que eu teria que assumir o grupo. Na hora, pensei: não vou dar conta de tudo. Fui meio contrariada, não vou negar.

Em abril de 2016, Bruna iniciou o trabalho com o grupo. A ideia era montar um protocolo de atendimento plausível, que auxiliasse todos os participantes de maneira adequada. O primeiro passo foi realizar um levantamento dos pacientes e controle de presença nos encontros.

– O Paulo era o que mais faltava. Cheguei na secretária e falei: liga para ele e pergunta por qual motivo não está vindo. Se não vier mais, eu vou dar alta.

Ninguém o encontrou. Um mês depois, ele retornou às reuniões, após se distanciar das atividades por conta de um campeonato de rugby adaptado. Passados quase três anos desde o acidente, eles finalmente tiveram o primeiro contato.

– Quando olhei para ele, senti que já o conhecia. A história dele me deu um impacto e era muito diferente do que estava acostumada a trabalhar.

História do Dia

Por conta da gravidade do acidente, Paulo era um dos pacientes mais graves do grupo e que necessitava de mais estímulos. Apesar de jogar rugby, o comprometimento motor dele, segundo a fisioterapeuta, era muito grave. Com isso, a atenção da profissional era mais voltada ao desenvolvimento dele.

Outros pacientes do grupo também faziam parte do time de rugby adaptado. Por isso, Bruna passou a aliar a fisioterapia e o Pilates ao esporte. As atividades eram voltadas aos movimentos feitos dentro da quadra, buscando intensificar o rendimento dos atletas.

Fora das reuniões, ela também começou a ajudar nos treinos da modalidade. Paulo era capitão do time, então conversavam frequentemente. Dentro dele, um sentimento era cultivado dia após dia, conversa após conversa, cuidado após cuidado.

Ao retornar de outro campeonato com um prêmio de melhor jogador, ele resolveu, então, botar para fora tudo o que sentia e se declarou. Escreveu uma longa mensagem pontuando cada sentimento e enviou. Mas não recebeu resposta. Bruna vivia o processo de término de um longo relacionamento e optou por somente apagar a mensagem recebida. As conversas que tinham sobre o esporte também deram uma pausa.

Somente depois da separação, ela respondeu a mensagem pedindo desculpas e justificando que passava por um momento complicado. Aos poucos, o diálogo foi reestabelecido e ela também se permitiu sentir. Enfrentava, no entanto, um conflito ético dentro de si.

– Eu pensava: como é que vou me envolver com um paciente? Como todos os outros vão se portar em relação a mim? Eu precisei ser muito dura no início para conquistar o respeito deles.

Paulo chegou a fazer um pedido de namoro e Bruna até aceitou, mas optaram por aguardar a conclusão do tratamento dele no grupo, que aconteceu no final de 2016, para tonar pública a relação. Em fevereiro de 2017, oficializaram para o mundo que estavam juntos.

Durante o início do relacionamento, Bruna ainda sofreu com novos questionamentos. O medo era pela aceitação familiar de ambos os lados, sem contar os pacientes que ainda atendia e a rotina dos dois.

– A Bruna fisioterapeuta sabia que tudo era possível, mas a Bruna mulher ficou muito confusa. Descobri o perfil de uma fisioterapeuta em Campo Grande que tinha uma história parecida, chamei ela e começamos a trocar experiências.

As respostas para todas as perguntas que fez foram aparecendo com o passar dos dias. Há mais de um ano, decidiram dividir o mesmo teto. Os planos incluíam um casamento daqui alguns meses, que precisou ser adiado por conta da pandemia de coronavírus.

Juntos, encontraram um método prático de acomodá-lo dentro do carro e sair para passear. Vão a restaurantes, bares e até baladas. Viajar, então, nem se fala. Já estiveram em diversos lugares do Brasil e conheceram a Argentina. Bruna brinca que, às vezes, até esquece que Paulo é cadeirante e até os olhares que recebem ao chegar em cada local já deixaram de ser um incômodo.

– É tão natural!

E ele complementa.

– Quem não conhece, olha e sente certa restrição. Mas é só até começar a conversar comigo e perceber que não tem sofrimento. A cadeira é só um detalhe!

O foco, no momento, é voltado ao desenvolvimento profissional dos dois. Bruna deixou a faculdade e optou por seguir com um consultório particular de Pilates. Pensa em um intercâmbio para aprimorar conhecimentos e não deixa para trás o sonho de se tornar maratonista.

Paulo não conseguiu retomar o trabalho que executava antes do acidente, mas arrumou um novo. No escritório de casa, atua com bolsa de valores. Deu início a uma pós-graduação e pensa em seguir na área de pesquisa acadêmica. E, a cada novo dia, aproveita a oportunidade que diz ter ganhado sete anos atrás.

– Graças a Deus eu voltei e estou aqui para contar a história!

Bruna reforça:

– As pessoas presumem que quem sofre acidente vai viver para sempre mal humorado, mas não. A vida continua. E, às vezes, continua até melhor.

 

Fotos: arquivo pessoal do casal

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Nos ajude a continuar contando histórias!

Mostrando 2 comentários
  • David
    Responder

    Aconteceu comigo, tive acidente trabalho LER , fui fazer hidroterapia ,conheci minha fisioterapeuta e depois de anos começamos a namorar , hoje estamos casados e temos um filho

  • Michele C. Correa
    Responder

    História linda!!! Me faz recordar da minha. Conheci meu esposo após ele sofrer um acidente de moto e por pouco não ter amputado a perna. Eu era enfermeira no hospital onde ele ficou internado. O tratamento dele durou 3anos e meio, e ficamos o tempo todo juntos. Nao foi facil, mas vencemos. Namoramos quase 6 anos, e somos casados a 7 anos/meio e temos 01 filho de 6 anos.

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