Barbearia Garcia: 48 anos de história na Vila Seixas

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 17 de abril de 2017!

 

A fachada conserva tijolinhos à vista, portas de ferro daquelas de enrolar e nenhuma propaganda. É preciso virar o rosto à cima para enxergar a placa discreta, quase coberta pelas folhas da árvore: Barbearia Garcia, telefone, tesoura e pente para ilustrar.

Depois de 48 anos cortando cabelos, Antônio Garcia não precisa se preocupar com publicidade. É história, parte de Ribeirão e da Vila Seixas, com salão que nunca deixou a rua Prudente de Moraes.

Na porta, o convite em letrinhas de plástico já perdendo a cor: “Entre. Ar condicionado”. É modernidade quase única. Dentro do salão, a impressão é de voltar no tempo.

Os pisos são originais da década de 70: quadriculados de branco e preto/cinza/o tempo não deixa definir.

A cadeira onde já se sentaram políticos, jogadores de futebol, gente de todo tipo é da década de 80, no mais fino retrô. Estofado vermelho, metalizada em prata, giro de 360 graus.

O sofá onde tanta gente esperou horário, na época em que Garcia chegava a cortar 30 cabelos por dia, ainda é o mesmo. Estrutura de concreto, com tijolinhos à vista e almofadas cinza.

Nas paredes, quadros de ontem e hoje. Os de ontem estampam Airton Senna, o símbolo do Comercial, imagens religiosas. Os de hoje são de tinta a óleo, que a netinha de Garcia pinta e faz questão de presentear.

Uma televisão antiga em cima de uma mesinha baixa é passatempo entre um corte e outro. Bibelôs e fotos confirmam o carinho da clientela com o barbeiro de quase meio século.

Garcia conta, imerso em nostalgia, que reformou cada pedacinho do salão, com dinheiro financiado, lá em 1976.

Comprou o ponto de outro barbeiro por 12 mil cruzeiros emprestados pelo sogro e quitados em suaves prestações de 500.

Garcia trabalhava das 7h30 às 22h, de segunda a sábado para dar conta da freguesia. Era tanta gente que mal dava tempo de almoçar.

Hoje, aos 75 anos, reduziu a carga das 7h30 às 19h, faz uma hora e meia de almoço e tem horários livres entre um corte e outro, mas não vai para casa.

Passa os dias dentro do salão que, ele diz, é mais que lar.

Quando pode, relembra o passado, com vontade de voltar.

– Se eu pudesse, eu voltaria. Era bem melhor, minha filha. Não tinha tanta violência, tinha mais movimento. Hoje, a gente trabalha de porta trancada.

Na barbearia do Garcia, a impressão é de que o tempo não passou. Reduto que o barbeiro construiu para estar no ontem, de onde nunca quis sair.

Antônio Garcia aprendeu o ofício de barbeiro com 23, 24 anos. Até então, a única memória que tinha da profissão vinha do avô, que cortava cabelos na fazenda.

– Tive uma instrução.

Deixou a fazenda aos quatro anos e veio com os pais e os oito irmãos para Ribeirão Preto. Como era de costume na época, a molecada começava a trabalhar cedo para ajudar em casa. Antônio começou no Mercadão, em uma banca de cereais.

O convite para aprender a barbearia veio do primeiro sogro, que tinha um salão na quadra 16 da rua Prudente de Moraes.

– Ele perguntou: ‘Você topa?’. E eu topei! Gostei tanto que tô aqui até hoje!

Diz que levou dois anos para pegar o jeito. Em 1976, seis anos depois de segurar a tesoura pela primeira vez, já era dono do próprio salão.

Com suaves prestações, dinheiro financiado, instalou a plaquinha com seu nome na mesma Prudente de Moraes, quadra 14.

Garcia perdeu as contas de quanto cabelo já cortou em tantos anos de ofício. Alguns nomes, porém, continuam frescos na memória. Raí e toda a família de Sócrates – menos o craque, que nunca deu as caras.

O prefeito Welson Gasparini e a família Nogueira. Grande parte dos jogadores do Botafogo e, apesar de comercialino, Garcia jura que nenhum botafoguense saiu de lá insatisfeito!

Diz que hoje já corta o cabelo da terceira geração de um tantão de famílias e exibe a foto que ganhou de presente: um menino de não mais que três anos, sentado em um pedaço de madeira apoiado entre os braços da cadeira retrô, cortando os cabelos com o barbeiro oficial da família.

– Em primeiro lugar é o ambiente que você faz. Freguês já não é freguês. É amigo.

Garcia teve quatro filhos e conseguiu passar o ofício à frente para o mais velho. Montou barbearia para ele e tudo. Mas conta, baixando os olhos, que o filho foi assassinado.

– Briga de moleque… ele não levava desaforo… achou o que não devia achar.

O barbeiro também é história de perda. Antes de perder o filho, perdeu a primeira esposa no parto.

Casou de novo, reconstruiu família com quatro filhos, 13 netos e duas bisnetas.

Não é de ficar falando da parte triste do passado. Prefere outras. Prefere a profissão que escolheu amar.

Mostra o alvará de funcionamento feito em máquina de escrever e emoldurado na parede.

– É de 1976, minha filha!

Quer continuar cortando cabelos “até quando der”.

– Deus me dá força e eu vou indo!

E conta o segredo de quase meio século de profissão.

– Em primeiro lugar é amor. Gostar de trabalhar. E criar amizades.

Transforma em palavras o que a história, por si só, já diz.

Na Barbearia Garcia o tempo parou na euforia do primeiro corte, no amor do barbeiro.

 

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