Bartira é um pedacinho da Índia em Ribeirão

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 2 de maio de 2017. 

 

Aos 11 anos, Bartira um  livro sobre a Ilha de Páscoa ganhou de sua mãe. Também veio dela, que era bióloga, a frase que tomou como lema da vida: “Quem não evolui, vai à extinção”.

A Bartira menina não sabia, mas a Ilha de Páscoa já fazia parte de si. Começou ali seu encantamento pela cultura étnica e sua busca por ser ilimitada.

Pretinho básico não é com ela. Gosta de cor, estampa, bordado. Nessa linha, tem mais de 20 óculos no guarda-roupa.

– Ueh, eu não sou básica! Tenho que combinar os óculos com a roupa.

Criou sozinha dois filhos, foi sindicalizada como funcionária de banco, participou do movimento de mulheres, não suporta relacionamento com cobrança.

Abriu sua loja de roupas indianas quando tinha 50 anos.

Aos 62, acaba de voltar da sua terceira viagem para a Índia e está cheia de planos. Viajar vem em primeiro lugar, porque é sua forma de conexão com a multicultura que tanto ama.

Conhece 26 países e ainda quer conhecer muitos outros. A Índia, entretanto, tem um gosto diferente.

– Eu sinto como se estivesse voltando para casa.

Bartira é múltipla como as tantas culturas que o mundo guarda. Quer guardar cada pedacinho do mundo em si. E levar a quem, como ela, nutre o encantamento pelo que é diferente.

– Eu sou intensa. Para falar, para viver. Você nunca vai me ver sem entonação. Comigo, é inovação. Senão, não sou eu.

Bartira se formou em Biologia na USP, onde a mãe era professora e pesquisadora. Nunca atuou na área, entretanto.

Em 1974, já no segundo ano do curso, perdeu a mãe em um acidente de carro e o encanto pela Biologia se foi. Diz que a dor foi amadurecimento.

– Eu perdi minha estrutura familiar. Precisei buscar o meu caminho.

Em 1979, passou em concurso e entrou no banco. Só buscou o diploma de Biologia 16 anos depois de formada. E continuou sem usá-lo.

Trabalhou como bancária por 37 anos, 31 deles atuando no sindicato e no movimento de mulheres.

Conta que, paralelo ao trabalho, sempre vendeu coisas: roupas e acessórios que somavam à renda da casa.

Ela se casou duas vezes, teve três filhos e, depois da separação, ficou sozinha para cuidar dos pequenos.

As vendas eram complemento. Bartira não imaginava o que poderia gerar.

– Eu sempre fui assim: customizava as calças, fazia franja nas camisetas, tingia, cortava, bordava. Só usava roupas diferentes. Quem me conhecia sempre dizia: por que você não vende essas roupas que usa?

Começou a vender em casa, passou a dividir loja com uma amiga em 2004, abriu seu próprio espaço em 2005.

Da loja pequena conquistou local que oferece roupa, calçados, acessórios.

– O objetivo é oferecer produtos indianos e étnicos para pessoas de todas as idades e todos os tipos físicos.

Se aposentou no ano passado e, pôde, então, se dedicar totalmente ao comércio, que, ela diz, é mais que trabalho.

 – Tem muito a ver com qualidade de vida. A mulher busca uma roupa diferente porque quer se sentir bem. Vê na roupa uma forma de mudar o astral. A loja é o quintal da minha casa.

No estoque, difícil é encontrar tons pastéis. Assim como Bartira, tudo tem cor. Os vestidos indianos são carro chefe, mas a dona frisa:

– Aqui tem produtos do Vietnã, Tailândia, África. São produtos étnicos. Essa é a ideia.

Bartira sente que, levando o diferencial, leva também autoestima, identidade.

– Eu falo que aqui nós somos uma tribo. E quem faz parte dela? Gente do bem! Que tem um estilo ou procura um estilo próprio. Que usa roupa para se vestir, não para se cobrir. Longe do que é regra, imposto pelo mercado, pela mídia.

A primeira viagem que fez para a Índia foi em 2007.

A cobrança era mais de fora do que de dentro. Com uma loja indiana, “Bartira tinha que conhecer a Índia”, os clientes pressionavam.

Foi e, de perto, redobrou o encantamento que já tinha de longe.

Pegou gosto. Conheceu Egito, China, Peru. Se tem país, tem cultura e tem o interesse de Bartira.

– Eu vou a um país de coração aberto para receber o novo. Não fico julgando.

Para o futuro, quer continuar viajando e fazendo a loja funcionar. Está sempre inovando, na vida e no trabalho. E, então, o estoque e o astral estão sempre de cara nova.

  – A gente não deve se desgastar com o que já passou. Mas a gente só cai na real mais velho, porque as horas passam a ser muito caras.

Os 62 anos se diluem entre a mulher moderna e a forma de ver a vida com as lentes da positividade.

Bartira perdeu a mãe aos 19 anos, perdeu uma filha com um aninho, criou dois filhos sem apoio de ninguém.

Não é sobre nada disso que ela quer falar. Quer falar do que é bom. Passar à frente bons fluídos.

– Para a gente ser feliz, tem que mexer na caixa preta de dentro da gente. O que eu faço para a minha vida? Vivo intensamente!

O nome Bartira vem do tupi guarani, embora ela diga que muita gente acha que é indiano. Também foi presente da mãe, encantada pelo nome de uma prima.

Na história que ela pesquisou, Bartira era uma índia que aceitou ser batizada como Isabel depois do casamento com um homem branco. Dessa parte, Bartira não gosta.

– Imagina como ela era infeliz?

A Bartira ribeirão-pretana não aceita a infelicidade.

Leva a sério a frase da mãe sobre evolução. Não quer ser extinta, mas gigante. Como mundo que tanto lhe encanta.

 

 

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