Carlos Couri redobra esforços para orientar diabéticos contra a Covid-19

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A primeira inspiração veio do médico que atendia a família, lá em Minas Gerais. Era cardiologista, mas tratava um pouco de tudo. Ia nas casas das pessoas e levava afeto na maleta.

– Todo mundo tinha um respeito muito grande por ele. Nós seguimos exemplos. Somos como uma esponja, né?

No consultório de Carlos Eduardo Barra Couri tudo se inicia com uma conversa. Como é que vai o futebol? E a política? Depois que o paciente consegue relaxar, começam os assuntos de saúde.

– Minha característica é essa: sou um contador de prosas!  O paciente não quer ir ao médico, está fragilizado, precisando de ajuda. A gente conversa, dá risada antes e vai acalmando. Quando vê, a consulta fluiu bem.

Em tempos de pandemia, é preciso redobrar o papo e a calmaria. Carlos Eduardo é especialista em diabetes. Talvez seja preciso mais para defini-lo:

– A minha vida se confunde com o diabetes.

Endocrinologista e pesquisador da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), participou do primeiro transplante de células-tronco como tratamento para o diabetes e continua estudando a técnica, pioneira no mundo.

Depois, escreveu um livro de orientações aos pacientes: “O futuro do diabete”. Trabalha no consultório particular e também no HC. Tem uma coluna na Veja Saúde, onde publica informações sobre a doença.  A rotina diária está relacionada a esse mal, que atinge milhões de brasileiros.

– O principal tratamento não é cirurgia. No dia a dia, a base do tratamento é a educação. Por isso, o paciente precisa ter informação de qualidade.

 

 

As notícias sobre o coronavírus já fizeram o alerta. Diabetes é fator de risco. Em tempos de tanta angústia, além de clinicar e cuidar o médico também precisa acolher e acalmar. Desespero não ajuda, ele ressalta. E há muita gente se deixando contagiar por esse sentimento.

– A única forma de evitar o pânico é com informação de qualidade. Informar e ponderar. Falar do problema, mas também da solução.

Desde que os casos começaram a chegar em Ribeirão Preto, a filha de quatro anos e a esposa foram para Minas Gerais, na casa dos pais dela, para que Carlos Eduardo pudesse continuar na linha de frente com um pouco mais de tranquilidade.

Atende aos pacientes no consultório, mas também vai nas casas.

– Eles precisam de mim. É meu dever.

Redobra os esforços.

Carlos Eduardo Couri diabetes

A família é de imigrantes libaneses e italianos, que vieram para o Brasil construir a vida. Carlos Eduardo nasceu e cresceu em Minas Gerais, Santos Dumont, com toda a liberdade de brincar na rua que o interior proporcionava.

Os pais tinham comércio. As opções eram estudar ou ajudar trabalhando “atrás do balcão”, como ele diz. Escolheu a primeira. Passou em Medicina em Juiz de Fora e começou a faculdade em 1995. Cursando a disciplina de endocrinologia se encantou pelos estudos do diabetes e começou a se especializar.

Passar na residência em Ribeirão Preto, no Hospital das Clínicas, era um desafio – conquistado com sucesso! Veio em 2001 e, após 10 horas de viagem no ônibus, fincou raízes.

Pesquisou a relação entre diabetes e as doenças cardiovasculares. Foi se especializando cada vez mais. Entrou direto no doutorado e continuou a estudar.

– O diabetes é uma doença comum. Meus pais e meus tios têm e todo mundo leva a vida numa boa. Não é o diabetes que define a pessoa.

Em 2003, o médico Júlio Voltarelli, um dos mais importantes pesquisadores em células-tronco no Brasil, criou a Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

Carlos Eduardo tinha 28 anos quando participou do primeiro transplante de células-tronco do mundo para tratamento de diabetes tipo 1, a convite do professor, no início de 2004.

– Isso mudou nossa vida. Foi uma das coisas mais revolucionárias que eu já vi. E eu estava envolvido.

Vieram publicações internacionais de renome, entrevistas, reportagens pelo mundo todo. A diabetes tipo 1 é uma doença autoimune mais comum em crianças e adolescentes.

– É possível fazer pesquisa de alto nível no Brasil, no interior de São Paulo. Isso me fez crescer profissionalmente e pessoalmente.

O professor Júlio foi seu padrinho de casamento, em 2007. Faleceu em 2012, deixando bonita história de amizade e pesquisa científica, como Carlos Eduardo diz.

Depois do primeiro, o médico conta que já foram realizados outros 38 transplantes e a pesquisa segue em andamento. Os estudos revelaram que 84% dos pacientes que passaram pelo procedimento pôde deixar o uso da insulina: mudança profunda na qualidade de vida e grande conquista para a Ciência (leia mais aqui).

– Ver uma família chegar preocupada com um filho que tem diabetes e pode morrer e vê-la voltar sem precisar da insulina é espetacular.

A ideia do livro surgiu após o transplante, com o dia a dia de consultório. Mais um importante capítulo da sua história.

– O transplante mudou minha vida, mas o livro impacta muito os pacientes.  Eu notava que eles precisavam de informação de qualidade.

Informação: a palavra que, para ele, é essencial na rotina do paciente com diabetes e mais ainda nesse momento de pandemia.

Carlos Eduardo tem repetido, sem cansaço, tudo o que sabe sobre o diabetes.

– É o momento de ter a glicose bem controlada, fazer atividades físicas em casa, ter alimentação saudável, medir a glicose várias vezes ao dia, tomar o remédio sagradamente, falar com seu médico.

A diabete é fator de risco para a Covid-19, não há dúvidas. Para o médico, entretanto, o pior prognóstico é a doença mal controlada. E ele alerta:

– O grande problema é que a maioria das pessoas está com a diabetes mal controlada ou nem sabe que têm diabetes.

Os pacientes que mudam de vida após o diagnóstico, na opinião dele, passam a ter a saúde estável e, no caso de uma infecção, podem evoluir melhor.

– Uma pessoa com a saúde controlada pode evoluir até melhor do que outro, que não tem a diabete.

O principal, ele enfatiza, é evitar o pânico.

– Eu não quero que o meu paciente pare no Pronto Socorro pela ansiedade.

Diabetes é doença que se cuida diariamente, com mudanças de hábitos que, nesse momento, precisam ser ainda mais saudáveis.

– A base do tratamento é a educação.

Carlos Eduardo, em tempos de pandemia, tem buscado, além de orientar, acalmar as pessoas.

– Ter diabetes não é uma sentença de morte.

Durante a entrevista, o médico recebeu uma mensagem. Um de seus pacientes teve o positivo para a Covid-19. Na linha de frente, ele se preparava para orientá-lo e atendê-lo.

 – Eu espero que tudo isso termine bem. E que toda essa preocupação com a saúde que estamos vendo agora seja aproveitada depois.

 

Foto: arquivo pessoal

 

*Quer traduzir essa história em libras?
Acesse o site VLibras, que faz esse serviço sem custos:
https://vlibras.gov.br/

 

Comentários
  • Clara Bertagnolli
    Responder

    Parabéns ao Dr Eduardo que tão bem soube aproveitar os ensinamentos do mestre de Júlio Voltarelli!!

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