Com 28 anos de projetos sociais, Deva Mille é o músico das batucadas e da ‘molecada’

Essa história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Aperte o play para ouvi-la: 

 

Dois baldinhos que já não serviam para pôr gelo. Ganharam roupagem nova em arte feita de papeis, foram acoplados juntos, de um jeito todo especial, e passaram a fazer um som de origem africana. Receberam, então, novo nome, além de nova utilidade: talking drum ou tambor falante.

É um dos muitos instrumentos criados pelas mãos de Deva Mille. Tambores feitos de sucata, percussão que seria lixo. Criou até o “Simpaticão”, projetado para sete pessoas tocarem ao mesmo tempo.

Deva tem o dom de encontrar beleza naquilo que, ao olhar comum, só serve para o descarte. Criou, assim, os projetos sociais que mantem há 28 anos.

O Toque na Lata é o principal deles, que originou outros, como o Laboratuque. O objetivo é oferecer a meninos e meninas em vulnerabilidade social um caminho através da música. E ensiná-los a reutilizar o que parece lixo, criando os próprios instrumentos.

Deva fez uma conta aproximada dia desses. Acredita que atendeu mais de 16 mil crianças em quase três décadas de trajetória. Atualmente, o projeto Toque na Lata ocorre no Centro Cultural Palace e o Laboratuque está em quatro instituições.

É sempre surpreendido por um antigo aluno. Na fila do mercado, durante um show: “Ô, tio Deva! Lembra de mim?”. Muitos, inclusive, carregam o que aprenderam como profissão. No cenário musical de Ribeirão Preto é comum ouvir: “Comecei como aluno do Deva”.

E não para por aqui. Ele conta dos alunos que estão espalhados mundo afora construindo instrumentos, tocando, atuando como “multiplicadores” do bem, como diz.

– A música é uma linguagem universal, que transcende fronteiras. É o que tem de mais importante para amenizar o dia a dia. Você carrega a música para qualquer lugar. E faz terapia através dela.

Deva Mille músico Ribeirão Preto

Foi depois dos 40 anos que Deva percebeu que poderia ensinar música para transformar o entorno e deu início aos projetos sociais. Até lá, construiu trajetória fazendo muito som Brasil afora.

Começou de pequeno. Seu pai sonhava em tocar, mas não conseguiu ser músico de profissão. Compartilhou sua vontade com Deva, que dos seis aos 11 anos estudou acordeão.

Quando terminou a formação, na década de 60, não se falava de música sem a guitarra elétrica, porém. O rock embalava o cotidiano. E não havia espaço para acordeonistas nas bandas que queriam reproduzir o som pesado de Rolling Stones, The Beatles.

Sua vontade de tocar pulsava tanto quanto o rock, entretanto. A banda do bairro, no Jardim Regina, era a porta mais aberta. Mas não queriam acordeão. Pensou, então, em seguir para o contrabaixo, mas o dono da banda já tocava esse instrumento.

Em um papo com ele, Deva soube que precisavam de um baterista. “Você não conhece um?”. Se candidatou, sem nunca ter tocado bateria. E teve uma semana para aprender, antes da primeira apresentação.

– Deu tudo certo. E tô nessa até hoje!

Desde os 11 anos, nunca mais deixou a percussão. Aos 16, já trabalhava em banda com contrato grande, que lhe rendeu seu primeiro carro, aos 18.

Fala com nostalgia do tempo em que os músicos de São Paulo se reuniam na Ipiranga com a São João para o que hoje se denonima de “networking”. Sem Whatsapp, Facebook, Instragram o contato era feito ali, tomando um café (ou algo alcoólico) no cruzamento que inspirou “Sampa”, de Caetano. Muita coisa acontecia no coração de Deva. Inclusive, a contratação no Europa Trio, para viajar o Brasil todo e aprender, como conta.

– A experiência dos caras era muito além! Eu cresci só de estar ao lado deles. Fui entender o que era música bem-feita, padrão de qualidade elevado.

Deva Mille Músico Ribeirão Preto

Aos 24 anos, se casou. Se conheceram quando ele tinha 21. Ela era assistente de uma das bandas na qual ele tocou. Tiveram três filhas.

Foi nessa época que ele deu ouvidos para o que diziam por aí. Sabe aquele papo: ‘Você é músico? E trabalha com o quê?’. Decidiu abrir uma recauchutadora de pneus (já reutilizando o que parecia sem uso). Diz que ganhou dinheiro, o negócio ia bem. Mas durou não mais que cinco anos.

– Larguei tudo. Saquei que não seria bem-sucedido como comerciante.

Mesmo cuidando de seu próprio negócio, não deixou de tocar.

A música o levou mar afora. Fez turnês em cruzeiros, passando por dezenas de países. Enfatiza, porém:

– Para conhecer, precisa viver o país. Ficar um tempo. Não é só passar.

Conheceu, de fato, Itália, África do Sul, Índia, onde ficou quase dois meses, países da América do Sul.

– A música é isso: você bate esse tambor em qualquer lugar do mundo e as pessoas vão se sensibilizar.

Em 1985, a esposa e as filhas vieram para Ribeirão Preto. Deva ainda ficou cinco anos tentando viver à distância, mas a tristeza tomou conta. Em 1990, se mudou também.

Nessa época, já estudava outros instrumentos de percussão, além da bateria.

– A bateria é uma parte da percussão. É um erro. Rotularam o baterista e o percursionista. Tudo percute.

Deva Mille músico Ribeirão Preto

Até chegar a Ribeirão, Deva diz que nem cogitava dar aulas. Aqui, foi o caminho para ir se encontrando no mercado.

– Comecei a dar aulas em todas as escolas da cidade!

Em 1991, implantou o primeiro projeto social, em parceria com a Prefeitura de Ribeirão Preto. E não parou mais. Até se formalizar como Toque na Lata, em 1996, o projeto teve uma porção de nomes. A proposta nunca mudou.

– É um despertar. O que falta para essa molecada é referência. Eu pinço os mais rebeldes como cidadãos. É muito gratificante ver como eles vão se descobrindo…

Fez cursos técnicos e licenciatura em Música para conseguir ensinar a prática.

Atualmente, o Toque na Lata oferece aulas no Centro Cultural Palace. Com o Laboratuque, Deva e suas filhas – também conectadas com a música – levam aulas para quatro instituições: três ONGs e uma escola.

Os recursos financeiros para manter o projeto são escassos.

– Se eu fosse contrabalancear o que eu ganho e o que gasto, já tinha parado. Mas não consigo enxergar isso…

A falta de recursos não deixa o projeto crescer. O que mais entristece.

– Tem muita coisa boa para ser feita. É ampliar tudo o que já está acontecendo: esse é o plano. É bem concreto.

 Segue fazendo o que acredita. Diz que chega a dar aulas como voluntário, quando a instituição não tem o recurso.

Em paralelo, mantem seus projetos musicais. Bandas, duos, CDs, shows.

– Acho que eu não sou hiperativo… porque eu sou tranquilo.

Tranquilidade para falar as frases, com tempo e respiração. Agito para pensar e realizar as tantas ideias que saltitam na mente.

O trabalho social mudou sua forma de ser, por completo.

– Eu era fechadão. Quando comecei a andar na periferia, ver menino de 11 anos levando tiro, mudei. Você tem um menino que tá muito rebelde e quando você vai conversar com a família dele, percebe que ele é muito saudável em relação ao que é dado para ele. Ele vira seu herói.

A música – feita em tambores recuperados – é seu maior instrumento.

 – Você ensina música para o garoto e tá sensibilizando ele para tudo. É a maior alavanca para abrir a cabeça dele para a vida em geral. Você fala para o menino: Vamos batucar? E ele vem. Tá no DNA do brasileiro. Se ele virar músico, beleza. Se não, você tá sensibilizando.

Deva acredita na música. E na capacidade de transformação que ela tem. Principalmente, acredita na “sua molecada”.

 Mostra mais um tanto de instrumentos feitos com sucata. “Olha esse som!”, bate em um tambor, que ecoa bonito. Tem o dom de encontrar beleza naquilo que, ao olhar comum, só serve para o descarte.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Mostrando 3 comentários
  • Carina
    Responder

    Muito merecida essa homenagem. Excelente profissional , parceiro… temos muito orgulho de ter o Deva em nossa equipe, Casa das Mangueiras

  • Juliano
    Responder

    Sou pouco mais velho que o tempo de projeto social do Deva, sempre adorei velo tocar com a percuteria nos bares da cidade, mas melhor que ver o Deva tocando tambores é ver ele tocando a vida da molecada com Musica, às apresentações e recitais sao incríveis e muito emocionante, vale a pena conhecer, acompanhar e ajudar a manter esses trabalhos.

  • Rodrigo
    Responder

    Parabéns Deva, fantástica história, e lindos aprendizados lendo este texto.

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