Com adoção, Ana Paula se tornou mãe de um “menino marrom” e escreveu livro para alertar sobre racismo

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 9 de janeiro de 2019!

 

Ana Paula abre a mala encantada de histórias, tira um vestido vermelho e, de repente, já não é mais a professora que escreve livros. É uma princesa que veio do reino de Tonga da Mironga do Cabuletê, tão longe que amassou todo o vestido. A voz muda de entonação. Os olhos arregalam e brilham – os dela e os de quem assiste.

– Meu reino não foi reconhecido como nação, mas tem até hino: ‘A tonga da mironga do cabuletê!’. Uma bruxa quis roubar minha coroa e eu tive que fugir! Vim fugindo de avião, barco, helicóptero, tuc-tuc! Eu tive que entrar no programa de princesas refugiadas! Cheguei em Sertãozinho! Onde vamos esconder a princesa? Em um lugar que bruxa não gosta! Na escola!

Como contadora, ela dá vida às histórias que escreve e às que inventa, aguardando serem colocadas também em papel e cores.

Diz que nunca foi uma professora comum. Escolheu fincar no fantástico as raízes do que ensina e aprende. Bem por isso, também não poderia trilhar um caminho de escritora em tons triviais. Seus livros, assim como sua vida, têm muito colorido.

Ana Paula Marini escreveu “O lápis cor da pele do menino marrom” inspirada pela sua história de mãe. O preconceito, ela descobriu depois que adotou seu “menino marrom”, está em cada pedacinho do mundo real. Por que, então, não falar dele em literatura? É assim que se planta a semente da conscientização nos pequenos, ela apostou.

Um menino marrom que sempre usou essa cor de lápis para pintar sua pele e, um dia, foi confrontado pelos colegas de sala: “Você não pode usar esse lápis marrom!”.  É o mote de sua história – a escrita e a vivida.

– Eu sempre combati o racismo e nunca aceitei esse tratamento de diferença. Pensei que era hora de escrever e levar uma mensagem para os alunos.

Tem dado certo. O livro está sendo vendido nas principais livrarias do país e Ana Paula conta que já foram comercializados mais de dois mil exemplares. E, o que considera principal, tem levado essa história para escolas Brasil afora.

“O menino marrom ficou triste. Começou a achar que aquele colorido todo daquela “caixa-de-lápis-de-cor-mundo” já não era tão legal. Começou a pensar que bom mesmo seria se todos fossem da cor da pele da menina meio branca, meio rosa.”, é um dos trechos do livro.

Foi tanta inspiração que depois desse veio “As artes da menina amarela”, que faz um alerta sobre o TDH. A escritora, ao todo, tem quatro obras infantis e um romance publicado. E já prepara outras muitas cores de personagens e histórias.

Coração de mãe, professora e contadora de história é colorido feito arco-íris, ela bem sabe!

“Afinal, se o mundo é tão colorido, por que deve haver apenas uma cor para o lápis cor da pele?”, é a pergunta da história.

Ana Paula Marini O lápis cor da pele do menino marrom

Ana Paula diz que quis ser professora desde a primeira vez que pisou em uma escola, lá aos cinco anos de idade. Tem bem viva na memória as grades do portão nas quais se agarrou, pedindo para não ir embora.

– Eu fiquei encantada! Não queria esperar as férias acabarem para começar a estudar!

A brincadeira preferida, como é de se imaginar, sempre foi escolinha. Ela era a professora, claro. E cabia às bonecas e ao irmão, três anos mais novo, o papel de aluno. Conta que ele entrou na escola já sabendo ler, de tão boas que eram suas aulas.

No ano passado, já com o sucesso do livro do menino marrom, pôde voltar à escola onde foi alfabetizada, em São Caetano do Sul, e partilhar a importância da leitura com as crianças.

– Eu sempre fui uma professora leitora. Para mim, é chocante um professor dizer que ‘detesta’ ler. A leitura é inerente ao papel do professor!

Ana fez magistério e, aos 18 anos, cursando Pedagogia, já estagiava em sala de aula pela prefeitura de Sertãozinho, cidade onde mora desde os 11 anos de idade.

Já formada, passou em concursos, atuou em escolas particulares e se especializou em educação infantil. Desde 2004, trabalha nas escolas municipais de Sertãozinho. A essência artística, porém, trouxe a possibilidade de atuar na biblioteca da escola, onde pode contar histórias e dar às crianças a possibilidade do imaginar.

– Cada aula é especial. Eu me visto dos personagens, faço de tudo para que a criança entre no mundo da leitura.

Foi se especializando, então, na arte de contar histórias. E de criar as suas próprias.

Ana Paula Marini O lápis cor da pele do menino marrom

Uma história tem sempre outras tantas que a constituem. E, junto com a trajetória de professora, Ana Paula foi escrevendo também sua história pessoal.

A vontade de ser mãe era pungente. Ela e o marido passaram cinco anos tentando engravidar, fazendo exames “malucos e até humilhantes”, como ela diz.

Sem resultados positivos, decidiram entrar na fila para adoção. Enquanto esperavam, ela engravidou, mas perdeu o bebê aos seis meses de gestação. Em outubro, houve a perda. Em janeiro de 2009 o filho do coração, Diego, foi para sua casa.

– Era para o bebê que eu estava esperando nascer em fevereiro. Então, as pessoas pensavam que o Diego era o bebê, porque fomos buscá-lo com três dias de vida. Deus trouxe o meu menino marrom.

A convivência dolorosa com o racismo começou aí. Ana Paula e o marido têm a pele branca. Diego tem a pele negra.

– As pessoas apontavam para a cor dele e diziam que era diferente.

Quando Diego estava com um ano, Ana Paula engravidou.

– Eu conto para as crianças que minha barriga não funcionava, e depois funcionou. Então, eu já tinha um bombom de chocolate e passei a ter também um bombom de leite ninho.

Ela se angustiava ao ver a diferença gritante de tratamento que Diego e Miguel recebiam nos diversos lugares. Seu “menino marrom” chegou a ouvir de um colega na escola que “tudo que é preto é podre” e que ele havia nascido “queimado”.

– Aí eu fui entender realmente o que é o racismo.

Coração de mãe aperta com o sofrimento dos filhos. Todo o colorido vai embora. E Ana sentiu, então, que precisava colocar tudo isso para fora. Encontrar um jeito de levar empatia e respeito para os pequenos.

Ana Paula Marini O lápis cor da pele do menino marrom

O primeiro livro que a autora escreveu foi “O incrível superdicionário”, publicado em 2016, que incentiva as crianças a conviverem com a Língua Portuguesa – e a gostar dela.

Seu encantamento pela literatura, assim como pela sala de aula, se deu de pequena. Uma de suas amigas era filha da diretora de uma escola. Em uma das visitas que fizeram a ela, foram colocadas na biblioteca para esperar.

– Foi a primeira vez que eu pisei em uma biblioteca. Fiquei encantada!

O primeiro livro que lhe roubou o coração foi “Quando eu comecei a crescer”, da Ruth Rocha. Depois, no ensino fundamental, teve uma professora também encantadora, que lhe fez se apaixonar pelos clássicos.

Quando começou a escrever, Ana Paula diz que tinha toda essa história na bagagem. O livro do superdicionário logo ganhou a atenção das escolas.

E a escritora decidiu continuar. Lançou “O lápis cor da pele do menino marrom” em julho de 2017, com ilustrações de Ronald Martins e uma editora própria.

– Nas primeiras duas horas que eu postei nas redes sociais já tinha 13 mil curtidas e 90 compartilhamentos!

Levou sua história para crianças e escolas de todo Brasil!

– As crianças se identificam com a história em algum momento. E isso é importante para que a gente traga essas questões para a nossa vida e esses traumas não aconteçam mais.

Ana publicou “As artes da menina amarela”, onde fala sobre o TDH, e já planeja o menino azul, para tratar da obesidade, e a menina verde, para abordar os gostos pessoais das crianças, contando a história de uma menina que é fanática por futebol.

– Sempre que eu conto a história do menino marrom para as crianças, eu digo que é para ela entrar no coração delas, para que espalhem a mensagem de que a gente deve ser respeitado. É isso que quero levar: uma mensagem de igualdade, respeito e de que ninguém é melhor do que ninguém.

Por meio da literatura, Ana Paula entrelaçou vida pessoal e profissional em uma história só! Hoje, então, a realização contagia.

– Quando eu conto a história e vejo que, no final, está todo mundo em silêncio, com os olhos marejados, eu me sinto gratificada. Percebo que minha história está tocando o coração daquelas crianças, adolescentes, adultos: do público!

Ela entende que o papel do professor vai além da sala de aula.

– A gente marca a vida do aluno para o bem ou para o mal. A educação sempre foi um meio transformador. E eu tenho que cumprir meu papel enquanto formadora.

Assim como o papel de mãe vai além do cuidar.

– Eu quero que meus filhos se tornem adultos cidadãos, conscientes, gente do bem.

Carrega na mala de histórias um porta-retrato, com a foto de Miguel e Diego: sua família colorida. E tem esperanças de que, um dia, não seja mais preciso contar histórias de meninos marrons, rosas, azuis, verdes, amarelos. Porque o respeito, que hoje é literatura, será realidade.

 “Filho – disse a mamãe rosa – você não acha que o mundo só é belo exatamente porque é todo cheio de cores? Nossa família colorida só é feliz porque somos todos diferentes! E é justamente por isso que nos amamos e nos respeitamos”, é uma das falas da história – e do dia a dia de Ana Paula.

 

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