Lúcia encontrou nas árvores força para reverter doença grave

Previsão do tempo: o Pantanal enfrenta a maior queimada da sua história, com devastação da fauna e flora registrada em vídeos e fotos angustiantes. A fumaça de lá já tem efeitos no interior de São Paulo, com dias de céu encoberto pela poeira. Em Ribeirão, a seca se arrastou por meses e os focos de incêndio também se espalham. A umidade do ar chegou, na última semana, a estado de emergência, abaixo de 12%. Respirar fundo tem sido desafiador – em muitos sentidos.  

 

Do quarto do hospital, Lúcia Gavaldão olhava pela janela as árvores lá fora. Observava as folhas, os passarinhos e, então, repetia o pedido:

– Eu pedia forças para sair, ir embora. Queria ver tudo de novo. Estar debaixo delas mais uma vez.

Ela sempre foi ligada à terra. É daquelas que, nos dias em que nada parece bom, se refugia plantando e replantando mudas, mudando os vasos de casa. Quando os filhos cresceram e partiram em busca da faculdade, preencheu o ninho vazio se aproximando ainda mais das plantas.

Pensa que essa conexão pode ter nascido na infância. Nasceu e cresceu na área urbana de Ribeirão Preto, mas encontrava com facilidade espaços de refúgio.

– Naquele tempo, todas as famílias tinham um quintal com pés de fruta. Ao lado da nossa casa havia um pomar e a gente brincava nas árvores.

Foi crescendo e carregando consigo esse carinho pelas frondosas e baixinhas, frutíferas ou não. Não imaginava, entretanto, que viria delas a força – tão essencial – para prosseguir.

Os primeiros sintomas apareceram em 2006. Sentia dores na cabeça, passou por vários médicos, mas não conseguiu descobrir de onde vinha.

Naquele mesmo ano, viajou para a Europa visitar a filha. Formada em engenharia florestal, para a alegria da mãe, ela vivia em Genebra.

– Eu fui para lá fazer minha super aventura da vida! Nós passeamos por tudo, andamos muito a pé, de metrô, visitamos os parentes portugueses.

O voo foi tranquilo, mas a volta para casa trouxe turbulência. Duas semanas após chegar, em 25 de setembro de 2006, as dores aumentaram e vieram com outros sintomas.

Não sentia a mão, teve um adormecimento do lado esquerdo do corpo, a dor de cabeça, atrás do ouvido, se tornou perturbadora.

– Foi como despencar de um penhasco.

Foi internada e os médicos descobriram um abscesso na medula. Passou por cirurgia, exames, análises, mas não havia um diagnóstico preciso. Chegou a ser notícia de um jornal de Ribeirão Preto. Diziam que ela havia trazido uma doença misteriosa da Europa, com origem nos pássaros.

– Foi intrigante e até hoje é.

Árvores de Ribeirão Preto Lúcia Gavaldão

Revertendo as expectativas, porém, depois de alguns meses começou a melhorar. Os reflexos foram voltando, o corpo foi reagindo. Teve alta após três meses de internação, em novembro de 2007.

Em casa, porém, mais uma luta. Foi preciso reaprender todos os movimentos. No começo, precisava de ajuda para as mínimas ações. Foram cinco meses de muita fisioterapia para deixar a cadeira de rodas.

E aí, mais uma vez, entram as árvores. O marido comprou um notebook e Lúcia passou a pesquisar mais sobre o tema. Seguia e se inspirava em um blog que retratava as árvores de São Paulo. Sempre que saía para as terapias, prestava a atenção nas de Ribeirão e, então, começou a fotografá-las.

– Isso me punha para a frente. As árvores estavam se renovando e, então, eu sentia que também iria me renovar. Foi a força que encontrei para me conectar com o redor.

Criou uma página no Facebook, Árvores de Ribeirão, para compartilhar a beleza e força que sentia com outras pessoas. Desde 2011, quando foi ao ar, a página já soma mais de 2,6 mil seguidores. Depois, veio o grupo, “Amigos das árvores de Ribeirão”, que conta com quase mil integrantes, para compartilhar fotos, ideias, trocas ambientais. Agora, Lúcia também levou o projeto para o Instagram.

 – É uma maneira de compartilhar a semente de que é preciso muito mais árvores em Ribeirão. Precisamos cuidar delas, acompanhá-las.

Árvores de Ribeirão Preto Lúcia Gavaldão

Além da iniciativa on-line, Lúcia também passou a integrar a Amaeco (Associação Amigos do Meio Ambiente e da Ecologia) e participa de ações e plantios. Vai semeando conscientização, cada vez mais necessária, essencial para transformar o triste cenário que nos consome.

– A partir da página, as pessoas começam a ver mais as árvores, a prestar a atenção e a cuidar delas. Muitas vezes passam por elas e não as percebem. A pessoa pega isso para a vida dela e passa a se interessar. Isso é o que vale tudo.

Lúcia não tem dúvidas:

– Se houvesse mais áreas verdes não estávamos nessa estiagem, com essa piora tão grande do clima.

Agora, não precisa mais olhar as árvores só da janela. Vai pertinho, abraça.

– Estar na sombra dela é uma conexão muito grande. Ela traz para a gente a terra e o céu. Eleva nossa alma para seus galhos e coloca nossos pés no chão.

Segue sua luta com o corpo, tentando, a cada dia, amenizar as sequelas daquela doença que ainda não compreende. Ultimamente, tem sentido uma piora nos sintomas. Mas segue se espelhando na árvore de tronco mais robusto e galhos mais frondosos.

– Aprendi a ver o outro lado da vida…

Espera que, na próxima história, a previsão do tempo que abre a história seja outra, feita em palavras bem mais alegres.

 

Fotos: arquivo pessoal

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

Mostrando 5 comentários
  • Ulysses
    Responder

    Que história mais linda de superação e de amor…. Parabéns meu amor, fico muito feliz por ter vc ao meu lado…

    • Lucia Helena
      Responder

      Graças a você e a todo amor dedicado ??

  • Adevanilde Batagin Martins Ribeiro
    Responder

    Linda história de coragem e persistência. Siga em frente… Vencendo cada nova etapa.

  • Gabi bonome
    Responder

    Tia, também fico muito feliz em ver o sucesso do seu projeto e sua superação. Um orgulho!

  • Malu
    Responder

    Lúcia com esse seu jeitinho de menina consegue mostrar e dar exemplo de superação, de resiliência e do quanto é forte. Parabéns e que Deus continue te abençoando.

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