Com pequenas ações e sustentabilidade, Mariah ajuda a transformar o mundo

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play:

 

Mariah já tem programação para essa manhã de sábado. Vai construir uma barreira de proteção para as árvores que plantou e vem cuidando diariamente.

Nesses dias, uma delas foi atropelada por uma máquina de obras. Já estava com quatro meses, litros e mais litros de água, horas de cuidados. Em segundos, foi para o chão. Teve choro, claro. Pelo trabalho perdido, pela árvore a menos. Mas também teve planejamento. Para não acontecer de novo, Mariah pensou em barreiras de proteção.

Tem sido assim desde menina. Pensa e repensa formas de tornar o mundo melhor, transformando as ideias de acordo com o que a vida vai ensinando. Nem havia se atentado de que hoje, 21 de setembro, é o Dia da Árvore, mas já se programara para passar a manhã cuidando delas. É rotina, não celebração.

Aos sete anos, não sabia o quanto os fogos de artifício eram prejudiciais para o meio ambiente. Mas chorou na festa junina do trabalho do pai. A fumaça era um sinal de alerta para a menina feita de muito sentimento e preocupações.

–  Eu me lembro de sentir a plena noção de que o mundo iria acabar se eu não mudasse os meus hábitos. Era irracional, um sentir. Eu tinha a plena sensação de que o mundo estava nas minhas mãos. Se eu conseguisse mudar aquilo, ele não iria mais acabar.

Desenhou um sistema de captação de água das chuvas e dizia, aos 10 anos, que iria implantá-lo nas casas.

– A professora de biologia deu super bola, levou a sério. Isso foi bom. Ninguém me desestimulou. Eu só sentia demais…

Espalhava bilhetinhos pela casa alertando os pais de que pensar na vida durante o banho era desperdício de água e pedindo que as torneiras fossem desligadas ao escovar os dentes ou lavar louças. As louças causavam problemas, aliás.

Tinha uma tia que sempre as lavava com a torneira aberta. Mariah, muito tímida, não conseguia expressar em palavras seu desgosto, e chorava.

– Eu achava que o mundo ia mesmo acabar se ela não parasse com aquilo!

O mundo não acabou. Com o tempo, a menina foi percebendo que ele não iria acabar. Mas se tornaria, cada vez mais, um lugar machucado pela ação humana.

– Quando a gente vai crescendo, vai vendo que não é tão fácil salvar o mundo.

E as pequenas atitudes, afinal, não tinham utilidade?

História do Dia Ribeirão Preto

Depois de alguns desencontros e matrículas em Arquitetura, Mariah Silva Leandro Campos, 23 anos, descobriu o curso de Gestão Ambiental. Era isso que queria fazer. Passou na USP, em Piracicaba, em 2013, e viu as ideias serem mudadas. O sentir de menina se transformou em teoria, notas, seriedade.

– Eu entrei nesse curso ainda com essa ingenuidade de que lá eu iria aprender a salvar o mundo.

Os muitos aprendizados, feitos de uma realidade nada utópica, foram desmotivando.

A paixão, por um tempo, foi trocada pela seriedade. E ela foi vendo que não era esse o caminho.

– Eu não queria perder a leveza, o sentir.

Escolheu como tema de conclusão de curso pesquisar as dimensões humanas dos alunos dos primeiros anos de Gestão Ambiental. Colheu respostas entre mais de 400 deles para perguntas do tipo: “O que você sente em relação ao meio ambiente?”, “Quais práticas você faz?”. Nas falas deles, foi se reencontrando com aquela menina tão cheia de acreditar.

– Eu fui me revivendo. Vi que estava todo mundo tentando e lembrei o quanto as coisas podem acontecer na prática.

Faltava colocar todo o sentimento da infância com o aprendizado da faculdade na prática? Ela entendeu que sim!

Já formada, de volta Ribeirão Preto, uniu forças com duas amigas e criaram o “Eco na Prática”. Em um perfil no Instagram, publicam informações, dados, orientações sobre o Meio Ambiente e sua preservação. Mas não ficam só no digital! É preciso colocar a mão da terra – literalmente. Já organizaram duas oficinas em menos de um ano de projeto e plantaram 22 árvores – aquelas que na manhã de hoje Mariah estará a cuidar.

– A gente não queria desacreditar. A gente queria acreditar novamente. O ser humano está desconectado do meio ambiente. Para mim, essa é a palavra.

Nas oficinas trabalharam, então, temas como sustentabilidade integral.

– É o ser junto com o planeta, nos seus pensamentos, ações, relações. Começa dentro da gente. Uma pessoa que está desconectada dela mesma não vai ligar de jogar o papel no chão.

Falaram também sobre consumo e lixo.

Pesquisando aqui e ali, se engajando, Mariah está conseguindo trazer o movimento ‘Lixo Zero” para Ribeirão, como coordenadora da Semana do Lixo Zero, que será realizada em outubro. A ideia é que cada pessoa possa separar seu lixo e analisá-lo, após um período, para compreender o que consome e o que produz.

– Você faz uma autorreflexão, que volta para o próprio ser, porque promove o autoconhecimento: o que eu mais produzo? O que eu tenho que mudar? Em casa foi assustador quando eu vi o que três pessoas podem gerar!

História do Dia Ribeirão Preto

As reflexões habitam Mariah e povoam suas ideias. Está sempre repleta delas e, então, questiona seu próprio fazer. Conta que, recentemente, se atentou de que era preciso mudar a forma de consumo.

– A gente não pode fazer o que não acredita.

O plantio de árvores não começou na infância, para sua própria surpresa. Quando percebeu que nunca havia fincado uma raiz na terra, um ano atrás, correu para recuperar o tempo passado.

– Plantar árvores é a forma mais poderosa de ativismo que tenho conhecido.

Foi se envolvendo em outros projetos de plantio até criar seu próprio espaço, no Jardim Olhos d´Água, zona Sul de Ribeirão. Explica que para plantar uma árvore em área pública é preciso procurar a prefeitura, fazer um requerimento, escolher a espécie adequada para o local. Foi a prefeitura quem sugeriu a área plantada, aliás.

Mariah pôde retirar as mudas no Horto Florestal. Cada munícipe tem direito a algumas mudas, desde que reverta o plantio para benefício da cidade. Os candidatos que aparecem, ela diz, são poucos, porém.

As primeiras mudas de árvores foram plantadas em maio. Além das duas amigas que participam do Eco na Prática, Mariah reuniu amigos, familiares. Plantou também a ideia da preservação. E continua.

Todos os dias, vai à área regar as árvores. Esse cuidado é necessário durante o primeiro ano da muda. Depois, ela se fortalece e segue sozinha.

Conta que, nos momentos em que está por ali, na rotatória, faz amigos, conversa com pessoas que passam querendo saber o que a leva a tantos cuidados, ganha parceiros. O posto de combustíveis próximo empresta a água para que ela não precise carregar 35 litros de casa todos os dias.

– Não tem sido obrigação e não me sinto melhor do que os outros por estar fazendo isso. Você começa achando que vai devolver algo para a cidade, mas é aquela árvore que vai devolver muitas coisas para você.

Cursando o mestrado, pretende seguir pela área acadêmica, se tornar professora. Sem deixar a prática de lado. Quer somar teoria e coração para, quem sabe, realizar aquele sonho de menina.

– Quando eu era criança, achava que teria uma grande ideia e iria salvar o mundo inteiro de uma vez. O processo de amadurecimento mostra a complexidade de tudo. E a gente precisa encarar que somos formiguinhas.

Mas, afinal, dá para salvar o mundo?

– É a ação individual para se reconectar com o que você acredita e praticar. Se eu reclamo da corrupção, não posso furar a fila. Se torna uma prática. Depois que eu sei, não posso (des)saber.

Segue, então, acreditando e levando o mundo consigo. Na tatuagem do tornozelo direito estampou um globo terrestre. Reflexo do que carrega do lado de dentro do corpo todinho.

– Eu ainda quero salvar o mundo. E vejo que pode acontecer de diferentes maneiras. Dentro do bairro, da cidade, do país. Sou muito sonhadora. Se a gente parar de acreditar, não vai dar certo.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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