Com ‘Salvaguarda’, Vinicius ajuda alunos de escolas públicas a entrarem na faculdade

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Vinicius teve mais oportunidades para deixar os estudos do que para continuar.

Os pais não puderam estudar, as irmãs pararam de ir à escola para trabalhar e ajudar em casa. Crescendo em um bairro da periferia de Ribeirão Preto, o caminho parecia certo.

– Eu não sei bem em que momento decidi continuar. Eu pensava que, se parasse, eu não teria possibilidades…

Hoje, aos 24 anos, aluno de Economia na USP, ele é fundador e coordenador de um projeto que auxilia mais de 7,5 mil estudantes de 21 escolas públicas da cidade a escolherem um futuro profissional. Com o Salvaguarda, quer que adolescentes possam seguir pelo caminho que desejarem, sem tantos obstáculos quanto os que precisou atravessar. Mais de 50 alunos que integram o projeto já foram aprovados no vestibular.

Na adolescência, Vinicius continuou a estudar sem saber aonde iria chegar.

– Eu não sabia por onde seguir, o que fazer. Não tinha ideia de nada.

Uma amiga foi quem explicou sobre Sisu, Enem e as possibilidades que os alunos de escola pública têm para entrar na faculdade. Na primeira prova, Vinicius se deu conta do desafio.

– Eu vi que não sabia nada. Só o básico.

O pai, então, se esforçou para pagar um cursinho, em horários com desconto. O jovem precisou aprender a estudar. Encontrou nas vídeos-aulas do Youtube um caminho que lhe fazia sentido. Em meios aos questionamentos, teve que ser firme com sua ideia.

– Sempre houve uma pressão na família por eu não trabalhar, só estudar. E eu me perguntava: será que estou errado?

Comemorou a aprovação no curso de Economia, na USP Ribeirão Preto, em 2015. Mas a trajetória cheia de desafios que havia trilhado continuou pulsando por dentro.

– Quando eu entrei, fiquei chocado com o contraste. A USP parecia uma cidade dentro da minha cidade. E eu me perguntava: cadê os meus irmãos, cadê o pessoal do meu bairro? Será que só eu sou diferente?

Não poderia ser, na opinião de Vinicius, que logo virou ação.

Projeto Salvaguarda Ribeirão Preto

Em 2016, ele começou o que viria a se tornar o projeto Salvaguarda.

Para a matéria de Demografia Econômica, teve a ideia de percorrer escolas públicas com um questionário que mostrasse qual o conhecimento dos alunos sobre faculdades, bolsas, Enem, caminhos. Nesse primeiro momento, coletou respostas com 193 alunos de quatro instituições.

– Eu nunca havia entrado em uma escola sem ser como aluno. Quando pisei na sala, senti que estava no lugar certo. Não pensei em parar por ali. Senti a carência dos alunos, as necessidades.

Seguiu, mais uma vez. Recrutou amigos como voluntários para irem até as escolas levar bate-papos informacionais e motivacionais aos adolescentes. E foi crescendo. Uma das amigas se tornou braço direito, grande apoiadora na jornada.

Em 2017, fizeram parceria com 11 escolas públicas (10 em Ribeirão e 1 em Jardinópolis) e começaram o trabalho com 1.375 alunos dos Ensinos Médios. Também ampliaram a pesquisa. Vinicius fez contatos com escolas do Brasil todo e conseguiu que 1.645 alunos de 19 estados respondessem ao questionário, que revelou o quanto os adolescentes carecem de informações de qualidade.

– Talvez a maior problemática não seja falar de recursos, mas de informação. Abordar, por exemplo: ‘Você sabe como usar o Enem?’. Recortes em que o aluno, de fato, se sinta representado, não desmotivado ou pressionado.

Em 2018, cresceu mais um pouco: 14 escolas, com 4,2 mil alunos dos segundos e terceiros anos. Hoje, são 7,5 mil alunos dos três anos do ensino médio, em 21 escolas atendidas.

O trabalho se divide em diversas frentes. A ideia é auxiliar tanto os alunos que querem cursar faculdade, quanto outros que buscam carreiras técnicas.

Conversas com profissionais, grupos de whatsapp com monitoria e acolhimento, visitas a universidades, simulados, palestras são algumas das atividades oferecidas. Conseguiram parceria com um grande cursinho on-line e 700 alunos puderam se matricular, de maneira gratuita. As redações são corrigidas por profissionais voluntários do Brasil inteiro.

 

Vinicius, inquieto, vai buscando parcerias, patrocínios, formas de manter e crescer o projeto, que se sustenta pelo trabalho voluntário dos participantes, além da ajuda de patrocinadores.

O jovem se divide em muitas funções: de conselheiro dos alunos a assessor de imprensa, fazendo uma força-tarefa para levar o Salvaguarda para a mídia nacional, com êxito. O projeto ganhou repercussão na imprensa nacional, conquistando o apoio de artistas.

A faculdade de Economia acaba ficando em segundo plano.

– Tudo foi acontecendo junto. Hoje, o Salvaguarda é minha prioridade. Para conseguir uma mudança de fato, é preciso colocar energia nisso. E eu tô disposto a pagar o preço. É uma doação, mas também um investimento.

Tem grandes planos. Quer ver o projeto crescer ainda mais, abraçando outros alunos, em outras cidades.

Tem motivos para seguir. O resultado é imediato: a motivação do adolescente que descobriu o curso que quer fazer, a euforia do estudante de escola pública que passou no vestibular, o encantamento das centenas de alunos que moram em Ribeirão Preto, mas nunca haviam pisado na USP antes do projeto.

– Por mais clichê que pareça, eu quero mudar a educação pública do país. E só posso me preocupar em tentar. Não sei se vou conseguir, mas agora é hora de tentar.

Projeto Salvaguarda Ribeirão Preto

O grande objetivo é transformar o Salvaguarda em um programa para escolas públicas do país, oferecendo aos alunos os instrumentos necessários para a escolha – e conquista – de um caminho professional. Quer também envolver pais e professores.

– Enquanto todo mundo não está em sintonia na causa, o projeto não está em seu máximo potencial.

Garante que, em 2020, o projeto vai abarcar todas as escolas públicas de Ribeirão Preto. Também já está começando a estruturá-lo em outras cidades. Vinicius tem energia de sobra, porque acredita no que faz.

– Eu me movo hoje não só pelo coração, mas com estratégia, metodologia, ideias concretas de causa e consequência. A consciência de que o problema é real e de que o projeto pode realmente dar certo me fazem não desistir.

A família continua sem entender suas escolhas. A mãe tem uma salgadeira no bairro Adelino Simioni. A vida foi de muito trabalho, para garantir o básico em casa. Quando uma conta chega, Vinicius volta a se questionar: ‘Será que estou no caminho certo?’.

Ele ainda não é remunerado no Salvaguarda. Diz que, ao contrário, já investiu do próprio bolso para conseguir realizar tanto.

Uma mãe envia uma mensagem em seu celular. Está agradecendo por “pela primeira vez na vida” ver seu filho tão entusiasmado com alguma coisa. Vinicius, então, retoma as energias para continuar seguindo.

– Vem muita coisa por aí. Eu só vou desistir quando não tiver mais para onde ir. E isso não é um cenário.

 

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*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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