Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play:
O pai passa cerca de 10 minutos com os filhos menores no quarto, enquanto o mais velho, Nicolas, prepara uma surpresa. Dez minutos! E voltam com três bambolês nas mãos – a mãe estava guardando os artefatos para decorar o aniversário de um deles. O pai vai logo apresentando: “Olha o que ela aprendeu! Vai Victor! Agora sua vez, Laura”.
E a pequena, um aninho, roda em volta do bambolê arrancando risos de todo mundo.
Para Danilo, ser pai é isso: estar ao lado para as mais cotidianas aventuras. Os filhos entregam: a palavra “não” quase inexiste em seu vocabulário. Prefere ser pai-amigão, desse que joga videogame e reúne a molecada do prédio para um churrasquinho em casa.
O primeiro passeio que fez com Nicolas foi viagem com direito a acampamento. Nem pai e nem filho sabiam que esses papeis lhes esperavam. Mas foi bem rápido que tudo isso se definiu. Um dia, Nicolas percebeu que o sobrenome do irmão mais novo era diferente do seu. Quis saber o porquê, e logo pediu. Também queria ter o nome do pai que, naturalmente, havia escolhido para si.
Pai é quem cuida, não? Nicolas, aos sete anos, já sabia disso. Danilo recebeu o pedido com todo o amor que já dava ao filho que escolhera para si. Procurou o pai biológico de Nicolas – que não tinha qualquer relação com ele – lhe explicou a situação e conseguiu formalizar judicialmente o que já era realidade no dia a dia.
Nicolas não gosta muito de falar sobre o assunto. Fica encabulado. Como falar de algo que lhe é tão natural?
– É porque ele é meu pai, ué. Sempre foi.
E não é? Hoje, aos 11 anos, continua simplificando coisas que parecem complexas.
Era um namoro. Danilo de Resende reencontrara Letícia, a mãe de Nicolas, amor da adolescência. Moravam no mesmo bairro, ficaram juntos algumas vezes, mas os caminhos seguiram diferentes. Já adultos, perceberam que o carinho de outrora só crescera com o tempo.
Ela já tinha um filho, de um primeiro relacionamento. Danilo estava se adaptando a uma nova rotina, após um acidente que lhe tirou uma das pernas.
O reencontro ainda estava no começo – “ficando” eles dizem – quando Danilo sugeriu: “Vamos acampar?”. Letícia logo se preocupou: “Preciso ver se minha mãe fica com o Nicolas”. Ao que ele foi logo respondendo: “Vamos nós três!”.
Foi em 2012. Nicolas estava com quatro aninhos. Gostou tanto da viagem que na volta fez o papel de filho: “Você vai namorar a mamãe?”. Pronto! Havia como recusar?
Depois do pedido, foi tudo muito rápido. Em um ano, Letícia e Danilo engravidaram de Victor, ficaram noivos, se casaram e foram morar juntos. Ela e Nicolas viviam, até então, na casa da mãe dela. No começo, o menino estranhou a ideia. Mas logo ficou ansioso pelo quarto do Ben 10, preparado sob medida para suas aventuras.
– Nunca passou pela nossa cabeça deixa-lo com a minha mãe… Sempre pensamos em formar uma família.
Quando Victor nasceu, em 2013, Nicolas percebeu que havia algumas diferenças de nomenclatura. O sobrenome do irmão não era o mesmo que o seu. E Victor iria chamar Danilo de pai. Começou, então, naturalmente a nomear aquele que levava na escola, era companheiro de jogos e passeios, estava sempre ao lado como tal. E fez o pedido.
– Eu falo que foi meio que uma adoção… mas meus amigos não perguntam disso… ele é meu pai!
Explica sua história. E o pai complementa:
– Sempre foi a mesma coisa. Não tem diferença nenhuma. É meu filho. Mas é legal saber que é assim também no papel.
Victor estava com quatro anos quando veio Laura, cerca de um ano atrás, para completar a família. Os pais sonhavam com uma menininha. Agora, o sonho está completo.
Para Victor, o que o pai tem de mais legal é a barba. Quer ter a sua quando crescer. Por isso, Dani decidiu aderir ao visual barbudo.
Nicolas, quando menorzinho, achava o máximo a perna mecânica de Dani. Espalhava na escola que seu pai era o “homem de ferro”. Na hora da saída, todo mundo queria ver a tal perna de super-herói.
Agora, que já está ficando pré-adolescente, reclama que o pai tem menos tempo para os jogos de videogame e air soft. Há alguns dias, todo moço, começou a acompanhar Dani no trabalho. O pai explica que estava precisando de alguém de confiança para estar junto. É claro que Nicolas não trabalha. Leva os brinquedos para o escritório, na serraria, e faz da mesa do pai um acampamento de legos. Mas sua presença é motivo de orgulho.
– Quem mais do que o meu filho é uma pessoa de confiança para estar ao meu lado?
Laura ainda não fala. Anda de um lado para o outro da sala, atenta a cachorrinha Meg, pega os brinquedos do Victor e logo a calmaria vira tempestade. Nicolas entra na bagunça – quase briga – e é pai apartando daqui, mãe apartando de lá.
Semanas atrás, Danilo conta, Letícia tirou uns dias de férias e foi com as crianças visitar o irmão que mora em outra cidade. O pai ficou sozinho.
– No primeiro, segundo dia ficou tranquilo. Depois, sentia uma falta! Fiquei perdido! A casa sem barulho? Foi horrível.
A turma iria voltar no domingo, às 14h. Às 11h20 ele já estava esperando ansioso o ônibus na rodoviária. Coisa de pai, sabe?
Pai que divide com a mãe as rotinas de consulta no médico, leva na escola e no judô, tomou para si a tarefa de ir nas reuniões de escola e não ficou bravo quando Nicolas tirou notas baixas na aula de espanhol. Apesar dos números, a postura do menino foi elogiada. O professor tem uma deficiência que lhe faz ter dificuldades de locomoção. Nicolas é o aluno mais prestativo. Está sempre disposto a ajudar.
– São os princípios que a gente passa para eles. O que nos faz mais felizes é saber que ele é bom de coração.
Nas palavras da mãe, com complemento do pai:
– Eu não quero que ele tire as melhores notas, mas que seja uma boa pessoa.
Para definir o que é ser pai, Danilo tem dificuldades de encontrar palavras. Como definir o que é ilimitado?
– É muita coisa… Além de ensinar as coisas básicas, educar, mostrar o caminho correto, é participar. Isso é muito importante. Eu tenho visto muitos amigos que não são presentes. E eu não sei como pode…
Para este domingo de Dia dos Pais, adivinhe a programação? Jogar air soft! Estavam todos ansiosos para a chegada da data.
Por que sua família é diferente?
– Porque Deus quis assim! Ueh, tô mentindo?
Nicolas encerra com mais uma dose de simplicidade. É tão simples o amor…
*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/
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