Davi: contador – e músico – de corpo e alma

Concentração, estudo e postura.

Tocar trompete, assim como gerenciar a contabilidade de uma grande empresa, é tarefa exigente. Davi Gomes de Souza é conhecido no meio empresarial pela primeira. É preciso um pouquinho mais de conversa para se chegar à segunda.

As duas ocupam a mesma posição no ranking de paixões, porém. A música quebra o rigor dos números. Não que ele não goste dos dígitos, em sua completude.

– Eu tenho o maior orgulho em dizer que sou contador. Se alguém me pergunta, eu respondo com orgulho mesmo.

Garante, aliás, que a contabilidade é uma maneira humana de aplicar os cálculos:

– Você sabia que contabilidade não é exatas? É uma ciência das humanas! É incrível você conseguir construir um relatório que vai ajudar a administração de uma empresa a tomar uma decisão, enxergar a composição de cada número e de onde ele veio. Muitas empresas ainda usam a contabilidade só para pagar impostos. É uma pena!

Davi começou a tocar trompete aos oito anos. Conta que o interesse surgiu antes. Desde muito criança frequenta a mesma igreja, na cidade de Jaboticabal, onde nasceu. Começou a admirar o trompetista quando ainda não tinha tamanho para tocar. O músico explicou que era preciso esperar um pouco para começar.

Aos oito anos foi aprovado para as aulas. Aos 18, iniciou o curso técnico em contabilidade. A vontade também surgiu anteriormente. O tio, contador, foi espelho para o menino que perdeu o pai aos 12 anos. Davi não teve dúvidas para escolher a mesma profissão.

Antes de começar a estagiar na área, já tinha currículo de muito trabalho.

Davi empresa Henfel Jaboticabal

Logo após a morte do pai por um AVC ele procurou a diretora da escola e mentiu que a mãe sabia de sua intenção de mudar para o turno da noite. Depois, foi até a oficina de tornos do vizinho e pediu emprego. Com tudo organizado, convenceu a mãe e começou a trabalhar durante o dia e a estudar à noite. Hoje, essa bagagem é lembrada entre risos e nostalgia:

– Eu sei todas as peças do torno mecânico. Se alguém perguntar, posso explicar.

Após esse trabalho, foi repositor de prateleiras em um supermercado até entrar em uma fábrica de vinagre, onde ficou dos 14 aos 18 anos. Quando começou o curso de contabilidade, conquistou uma vaga em um banco e, depois, em uma fábrica de cerâmicas, onde trabalhou de 1985 até 1990. Não saiu. Foi apenas transferido de empresa.

O genro de um dos sócios da Cerâmica Stéfani havia fundado, nove anos antes, a Henfel, que fornece componentes mecânicos de transmissão de potência para a indústria de base, com sede em Jaboticabal. Pediu na empresa do sogro a indicação de um funcionário para a contabilidade. Davi já fazia a faculdade de Ciências Contábeis nessa época, viajando de Jaboticabal para Ribeirão Preto diariamente.

Seu chefe não só o indicou como passou os primeiros meses orientando o jovem sobre o trabalho de coordenar a contabilidade de uma empresa.

A companhia de cerâmicas, que já arcava com os custos da faculdade de Davi, transferiu a responsabilidade para a próxima.

– A regra da empresa era que eu continuasse a faculdade. Eles pagavam 100% da mensalidade e, inclusive, o ônibus de uma cidade a outra. Eu não poderia fazer a faculdade se não fosse este apoio.

Quando entrou, Davi trabalhava sozinho, com todos os processos manuais:

– São 28 anos de empresa! O tempo passa muito rápido.

Hoje, aos 51 anos, coordena uma equipe de cinco funcionários e vasto recurso tecnológico, que facilita o processo.

– O primeiro computador chegou em 1993 e, ainda assim, o que fazíamos com ele era bem limitado. Hoje, eu paro para pensar e não acredito que passamos por tantos procedimentos diferentes, tantas mudanças.

Davi empresa Henfel Jaboticabal

Davi tem um falar calmo e um tom de voz sereno. Parece impossível imaginá-lo com pressa. Explica que, bem por isso, tem um jeito próprio de liderar, pautado no “por favor”.

Não se casou e nem teve filhos – ressalta o “ainda”. Distribui carinho entre os três sobrinhos, suas paixões. Diz todo orgulhoso que os dois mais novos seguiram seus acordes e tocam trompete. O mais velho, para compensar o gosto pelo clarinete, torce pelo Palmeiras do tio. E mais risadas tomam a conversa.

Como só poderia ser, Davi é do tipo que registra cada gasto e guarda os comprovantes do cartão de crédito. Planilha? Que nada! A modernidade é presente na vida do contador. Indica um aplicativo “ótimo”, em suas palavras, para organizar as economias. E salienta:

– Falta educação financeira ao brasileiro. Se você começar aos 18 anos a guardar R$ 50 por mês irá envelhecer com uma ótima reserva. Depois de um tempo, você consegue aplicar esse montante. Mas e se quiser trocar de carro? Tem que usar outra reserva, não esta. Infelizmente, a maioria das pessoas gasta mais do que recebe e adquire muitas dívidas.

Em 2015, a Henfel foi vendida. Passou de uma empresa de administração familiar para uma multinacional. Para que os funcionários consigam se comunicar, a regra é aprenderem inglês. Davi não sabia o idioma. Motivo nenhum para preocupação. Se debruçou sobre esse novo desafio.

Todos os dias, estuda, ao menos, 40 minutos de trompete. E outros tantos de inglês. E vê os resultados. Passou um mês na Suécia em aperfeiçoamento profissional oferecido pela empresa – e conseguiu se comunicar.

Quando a pergunta é: “Você se considera um homem bem-sucedido?”, responde com outro questionamento:

– O que as pessoas entendem como bem-sucedido?

Através do trabalho adquiriu bens materiais que não teve quando menino. Mas acredita que esse não é o termômetro.

– Para mim, vale muito mais você gostar do seu trabalho do que a recompensa que ele te traz. É muito ruim trabalhar em algo que você não gosta.

Teve dúvidas em relação à entrevista, com o argumento de que sua história não tem nada de especial. No fim, concluiu:

– Minha vida é muito simples, porém é verdadeira. Não adianta eu contar uma história mirabolante, que não é verdadeira, sabe? É com a alma.

E confessou o segredo do trompete bem tocado e da contabilidade bem-feita:

– É colocar a alma no que você faz. Eu tenho isso comigo: a gente precisa colocar a alma em tudo o que vá fazer. Se você fizer com a alma, bem-feito, alguém vai gostar do que você está fazendo.

 

BLB Brasil

Essa história foi escrita por Daniela Penha e publicada originalmente na revista “Perspectivas”, que comemora os 15 anos do Grupo BLB Brasil.

Davi e a empresa Henfel foram os primeiros clientes da BLB Brasil.  Foi Davi quem abriu as portas para que o primeiro contato ocorresse.

Com trajetória na profissão, o contador se atentou para a necessidade de ter uma equipe responsável pela auditoria e consultoria tributária da empresa.

– A nossa legislação muda constantemente e nós temos que acompanhar as mudanças. Mas é muito difícil fazer esse acompanhamento sem uma empresa especializada, que auxilia, orienta sobre um imposto que estamos deixando de pagar ou pagando a mais.

Relata, aliás, que estava para fechar contrato com outro prestador de serviços, sediado em São Paulo, quando Rodrigo Barbeti, sócio-diretor da BLB, surgiu, oferecendo seus serviços.

O contato dos dois perpassa os números e chega até a música.

– O Rodrigo é um amigo. Você acredita que ele sai da cidade dele para ir às apresentações musicais que nós fazemos no final de ano lá na igreja?

Comenta com carinho.

 

Fotos: Weber Sian

 

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Mostrando 6 comentários
  • Clovis
    Responder

    História linda e verdadeira! Davi é um grande amigo e pessoa generosa. Parabéns pela excelente matéria. Abraços, Davi. Que Deus te abençoe sempre!

  • Edivaldo Ramiro
    Responder

    Um dos maiores homens que eu conheço, grande pelos seus princípios, honestidade, generosidade, inteligência, profissionalismo e um amigo eterno.

  • Renata Soares Alves
    Responder

    Uau que história Davi!! lindo, parabéns querido, como diz a palavra de Deus ; dai honra quem merece honra, Deus abençoe sempre como tem feito até agora…?????????

  • Robson César Ramiro
    Responder

    Parabéns Davi pelo seu empenho e dedicação a essas duas áreas totalmente difíceis.

  • Adiel messias
    Responder

    Vivemos grandes momentos juntos,um grande amigo que Deus me deu.

  • Maria Carolina
    Responder

    Além de meu primeiro professor de trompete, meu melhor amigo. Tenho orgulho de ter a oportunidade de sentir a sua sinceridade, bem como de sentir a sua dedicação a Deus, ao trabalho e a música.

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