Demétrius criou primeiro time de futsal Down em Ribeirão Preto

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Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha.              

 

 

Quando Demétrius escolheu a escola Egydio Pedreschi para ministrar aulas de educação física, não sabia que a instituição é voltada para pessoas com deficiência. “O que eu vou fazer?” Era a única que ainda tinha um grande número de vagas disponíveis: foi seu critério. Quando chegou na escola pela primeira vez, entendeu o porquê.

– É um desafio e dá trabalho. As pessoas não querem pegar aulas lá.

Nunca havia trabalhado com esse público. Foi conversar com a diretora, pensando em desistir, e ela orientou: “Fica um tempo observando, conversando com eles”.

Nos dois primeiros meses de aulas, ficou só na conversa, entendendo qual seria a melhor metodologia de trabalho. Logo, a encontrou.

– Para cativar, é o amor mesmo. Se você não tem amor por eles, eles sentem. Eu tenho esse jeito de abraçar, beijar. É o meu jeito. Não é forçado.

Depois de um ano de aulas, a diretora lhe fez compreender o que já pulsava no coração.

– Ela me disse: ‘Demétrius, aqui você achou seu lugar. Eu deixaria meu filho com você, porque confio’. Eu até chorei naquele dia.

A essa altura, ele já havia implantado projetos diversos com os alunos. O futsal era o principal deles, mas havia outros também, sempre buscando a potencialidade de cada pessoa.   – Cada um é de um jeito. Especial é a verdade que eles têm. O que eles sentem, eles falam. Dificilmente mentem. São verdadeiros.

Ele passou dois anos na escola, como professor substituto. No final de 2018, o contrato venceu e Demétrius precisou deixar o cargo. Os pais se mobilizaram. Foram na prefeitura, tentaram, mas não há meios para descumprir o que é lei. O projeto, porém, não poderia parar.

– Teve menino que ficou doente…

Nasceu assim, entre desencontros, o projeto que faz tantos jovens se encontrarem pelo esporte. Em janeiro de 2019, Demétrius criou a associação Sem Fronteiras, onde ministra aulas de Futsal para adolescentes e adultos com deficiências: síndrome de Down, deficiências intelectuais e surdez, a partir dos 14 anos.

Em dez meses, já são 70 alunos que se reúnem três vezes por semana para jogar, participam de campeonatos fora de Ribeirão Preto, sem a companhia dos pais, ampliam potencialidades.

– A gente tenta trabalhar para que eles tenham autonomia. O objetivo não é só o campeonato, o jogo. Isso abriu a visão de muita gente. Os pais irão morrer: é a ordem natural da vida. Os filhos precisam ter independência.

Todo o trabalho é mantido por patrocínio e muita garra.

–  O mais difícil é convencer as empresas a atentarem o olhar para esse segmento.

Associação Sem fronteiras futsal down ribeirão preto

Hoje, a associação tem parceiros e apoiadores de todo tipo, inclusive o Comercial. As quadras onde são realizados os treinos, por exemplo, são cedidas. Ganham os pães para os lanches que oferecem aos atletas nos sábados. Quando tem campeonato, procuram empresas para arcar com o transporte. Vão somando forças. Torcida do bem!

– Eu pensei em parar no começo, quando vi que não teríamos verba. Mas decidi continuar. E vamos dando um jeito!

Em junho deste ano, a Sem Fronteiras ajudou a organizar o 2º Campeonato Mundial de Futsal Down na Cava do Bosque, com a participação de 120 atletas, envolvimento de 3,5 mil pessoas e participação de outros países. Demétrius também passou a integrar a comissão técnica da seleção brasileira.

Conquistas compartilhadas:

 – Eu continuei com o trabalho e deu certo. Hoje, são os meninos que colhem os frutos. Tudo é para eles.

Associação Sem fronteiras futsal down ribeirão preto

Demétrius Nogueira de Souza, 38 anos, cresceu em Minas e se mudou para Brodowski em 2010 para ajudar a irmã, que recém se separara com cinco filhos pequenos.

Na cidadezinha, região de Ribeirão Preto, conheceu a esposa com quem divide a trajetória. No mesmo ano, foram morar no interior da Bahia. Ele conseguiu um emprego de educador físico, ministrando aulas, palestras e atividades em postos de saúde, praças públicas.

Dois anos depois, voltaram para Minas, onde abriram uma lanchonete. Ficaram sete meses e decidiram retornar para a pequena cidade que já foi morada de Portinari.

Demétrius atuou na prefeitura de Brodowski e entrou como substituto na prefeitura de Ribeirão Preto, onde começou a atuar com a educação inclusiva. Entende, entretanto, que é preciso muitas revisões sobre essa tão falada inclusão.

– A gente pensa que tem que incluir eles no nosso mundo e não é bem assim. Eu aprendi a ver o mundo deles. Para mim, inclusão é olhar para o mundo deles também e aprender a enxergar o mundo como eles enxergam.

Ele não pode ter filhos por uma cirurgia feita na adolescência. Entraram na fila de adoção e, recentemente, adotaram uma menininha. Para Demétrius, entretanto, a paternidade chegou antes, e de forma multiplicada. Sempre no coração.

– Muitos dos meninos não convivem com o pai, porque o pai abandonou, porque não quis saber. Eles me chamam de pai.

Se sente um paizão. E bem por isso não mede o tempo que passa com seus atletas, as viagens que demandam dias fora de casa. Abraça quando pedem e também dá broncas quando é necessário.

– Quem disse que o amor é sentimento. É uma decisão. É decidir amar esses meninos e meninas e fazer o melhor por eles. Se repreendo de alguma forma, é para dar o melhor.

A disciplina é cobrada. Durante as competições, os atletas têm hora para acordar, fazer as refeições, dormir. Arrumam as próprias camas, roupas, malas. E, o mais difícil, não podem conversar com os pais.

– Se amolecer, perde o controle.

Associação Sem fronteiras futsal down ribeirão preto

Alguns alunos não entendem como se corre. Outros, sabem correr, mas não entendem a dinâmica dos gols. Demétrius explica que, mais do que paciência, é preciso ensinar com carinho.

– Primeiro, você precisa conquistar a confiança deles. E isso é com amor.

Os planos para o futuro são grandes. Sonha em criar uma associação sócio educacional para acolher adultos que perdem seus pais. Tem o projeto de montar uma escolinha de futsal para crianças com síndrome de Down. Parar não está nos planos.

– A gente ama esses meninos, né?

Quando decidiu ficar, lá no Egydio Pedreschi, escolheu amar. E segue no mesmo caminho.  As medalhas e titulações que conquistou com seus meninos e meninas – e que são muitas – ficam em segundo plano na conversa. Há questões bem mais importantes.

– Eu me encontrei mesmo com eles. Descobri que aqui é o meu lugar.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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