Dia das Mães: Denise e Gislaine saíram de casa para proteger família do coronavírus

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No meio da entrevista, o celular de Gislaine toca. É o filho, Miguel, do outro lado da tela, em chamada de vídeo. Quer logo ir falando com a mãe. Tem sido assim nos últimos dois meses. O grude diário, feito de abraços e beijos, precisou se transformar em dezenas de conversas virtuais ao longo do dia.

– Eu ligo até quando estou no trabalho, para que ele saiba que estou trabalhando mesmo e que não estou o abandonando. Ele não entende muito… é muito pequeno…

Coração de mãe aperta. Coração de filho e filha também.

No dia 23 de março, Gislaine Bianchi e Denise Alvim, que até então eram colegas de trabalho, passaram a dividir o mesmo teto. Colocaram algumas roupas na mochila e deixaram a casa onde viviam com suas famílias: pais, mães, irmãos e, no caso da Gi, o filho de seis anos.

– Ele faz aniversário na semana que vem, dia 18. Sete anos. Vai ser a primeira vez que estaremos longe…

Duas datas de coração apertado na mesma semana.

 

 

A família de uma amiga emprestou um apartamento – até então desocupado – para que Gi e De possam dormir um pouco mais tranquilas enquanto enfrentam a pandemia do coronavírus na linha de frente.

– É uma segurança para eles e para nossa consciência. A gente não iria conseguir se perdoar se algo acontecesse.

Denise, 25 anos, quem diz, é técnica de enfermagem. Gislaine, 34, é enfermeira. As duas trabalham na sala de urgência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, atendendo, entre outros, pacientes diagnosticados com a Covid-19, entre altas festejadas e perdas doídas.

Assim como em cada dia dos últimos dois meses, este domingo das mães será diferente do que as duas estavam acostumadas. O almoção com a família reunida está cancelado. Abraços, beijos e afagos também vão ficar para depois.

Amor, entretanto, não falta. É ele, aliás, que mantem o afastamento.

– É muito difícil sair de casa, estar longe. Mas é para proteção.

Coração de mãe aperta. Coração de filho e filha também.

Aparecida Alvim, 53 anos, sabe que vai faltar uma filha à mesa nesse domingo. São duas. Denise é a mais velha. A mãe conta que foi esperada por nove anos, em tentativas de engravidar.

– Ela é a promessa de Deus na minha vida.

Mãe e filha dividiram trajetória de garra.

– Mas não tem vitória sem luta, né?

Aparecida diz. Conta que teve muito choro quando Denise, pela primeira vez, saiu de casa. Será o primeiro Dia das Mães longe da filha. Coloca o orgulho cima da saudade.

– Minha filha está dando a vida dela para salvar os outros.

Denise é técnica de enfermagem há dois anos. Decidiu sua profissão ainda pequena e garante:

– Eu não saberia fazer outra coisa. Quando você vê o paciente de alta, é muito gratificante. Poder devolvê-lo para a família…

Ela morava com a mãe Aparecida, o pai e uma irmã. Faz uma ressalva.

– Eu moro ainda. Vou voltar para casa!

Na casa de Gislaine, Teresinha Bianchi, 62 anos, tem precisado de muita criatividade para amenizar a falta que Miguel sente da mãe. Amor de avó é o da mãe dobrado, já se diz por aí. O pequeno pergunta todo dia quando a mãe vem para casa. É a mesma pergunta que Terezinha se faz.

 – É muito difícil. Dói muito. A gente espera que passe logo.

Gislaine morava com os pais, o irmão e o filho. Seu pai faz hemodiálise, o irmão tem diabetes, a mãe é idosa: riscos dobrados.

Trabalha na saúde há 10 anos. Também se lembra de decidir a profissão ainda criança.

– A enfermagem foi o jeito que eu encontrei de fazer algo pelo próximo, o que ele não pode fazer, e me sustentar com isso.

Tanto para Gislaine, uma década de carreira, quanto para Denise, dois anos, o coronavírus é o maior desafio, jamais imaginado. Gi diz:

– É muito tenso pela falta de previsão. Não sabemos quando vai acabar e ficamos nessa expectativa pelo pico, nessa angústia de não ter prazo. A gente não sabe quando vai voltar para casa.

Denise complementa:

– A gente sente muito medo porque é algo que não conhecemos. Passam muitas coisas na cabeça… Como vai ser se a gente pegar? É uma caixinha de surpresa.

As duas, que até então eram colegas de trabalho, viram surgir uma amizade bonita. Dividem não só o teto, mas as angústias e os medos.

Juntas, fazem a solidão e a saudade ter mais aconchego.

– Eu acho que se eu estivesse sozinha, já teria ido para casa!

Diz Denise.

– Isso faz a gente ver a importância de uma amizade, de um abraço.

Gi complementa.

 

Neste domingo, vão dividir a saudade de casa, não há dúvidas.

Denise pensa em ir até a porta da mãe levar um presente. Sabe que não pode passar da rua, como tem sido em todos esses dias. Aparecida leva comidas para as duas, sempre da calçada, em poucos segundos de presença.

– É tudo muito rápido.

Gi ainda não sabia o que iria fazer. Para as mães, o maior presente é o que recebem todos os dias, com a força de suas meninas, como diz Teresinha.

– Temos muito orgulho porque ela é uma profissional excelente, ama o que faz e batalhou muito para chegar onde está.

Elas fazem, então, um apelo emocionado e cheio de afeto, nas palavras de Denise:

– O pessoal precisa levar a sério, ficar em casa, tomar todos os cuidados possíveis. Não é só uma gripezinha. Se todo mundo fizer a sua parte, logo tudo volta ao normal. Juntos vamos vencer isso!

 

 

 

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