Dona Yvette costura máscaras e doa para quem precisa com varal solidário

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Dança de salão, tai chi chuan, cantoria em dois corais, idas ao mercado e à feira, família reunida no almoço de domingo. Antes da pandemia, dona Yvette Fontes, 83 anos, tinha a rotina preenchida por atividades. Cada dia da semana trazia um encontro diferente.

Os casos do coronavírus começaram a aumentar em Ribeirão Preto. Foi preciso reformular assim, de um dia para o outro. A tristeza até tentou fazer morada. Mas não conseguiu. Há três meses, ela, tão saideira, não coloca os pés além do quintal.

Trocou os lamentos por solidariedade, no entanto. Em via de mão dupla, faz o bem e também o recebe.

– Eu pensei: preciso fazer alguma coisa para ajudar. É uma forma de ocupar meu tempo e não ficar nervosa por estar presa.

Já confeccionou 602 máscaras de pano para quem precisa. Doa para ONGs, moradores em situação de rua e, aos sábados, monta um varal solidário no portão da casa onde mora, na Vila Seixas, Ribeirão Preto. Quem passa, pode levar quantas precisar! Em média, distribui 60 máscaras a cada varal montado.

Ainda deixa garrafinhas com água e sabão no portão com um aviso: “Lave suas mãos aqui”. Afeto em altas doses!

– Embora haja dificuldades, eu levanto de manhã e olho para tudo o que Deus nos deu, tudo o que ele faz por nós, o que nos dá de bom. E, então, eu agradeço. A gente tem que agradecer.

História do Dia Ribeirão Preto

A costura foi seu trabalho por décadas. Sua mãe era lavadeira, seu pai garçom e foi preciso muito trabalho para criarem os filhos. Oito, no total. Mas cinco faleceram ainda pequenos, como Yvette conta.

Aos sete anos, ela “carregava trouxa de roupas na cabeça” para ajudar a mãe, em suas palavras. Pôde estudar com muito esforço da família. Aprendeu corte e costura na escola industrial. Mas, quando fez o curso, já tinha trajetória de prática.

Aos 11 anos, começou a trabalhar em um ateliê de costuras em frente à Catedral de Ribeirão.

– Nunca mais parei!

Por volta dos 18 anos, trabalhou na fábrica da Antártica, para ter também um ganho fixo, além das costuras. Se casou por volta dos 20, 21 anos. Tiveram cinco filhos, também criados com muito trabalho. Yvette na costura, o marido como Policial Militar. Para que ele pudesse realizar o sonho de estudar, ela redobrava os trabalhos.

– Eu incentivava ele a estudar! Só parei depois que ele se formou. Ele fez Letras e Direito.

Quando a filha caçula nasceu, Sandra, 46 anos atrás, ela pôde deixar a máquina de costura.

– Eu costurei até às 12h e ela nasceu a noite. Foi uma vida muito difícil.

Não parou completamente. Por gosto, continuava a costurar para a família.

– Agora, foi onde me deu vontade voltar! Retornei ao meu tempo de costureira!

História do Dia Ribeirão Preto

A pandemia colocou a máquina para funcionar! Entre tantas décadas de costura, nunca havia feito uma máscara. Novidade que os dias de hoje exigem. Conectada que é, aprendeu a fazer na internet. Tem Facebook, Whatsapp. Não perde uma chamada de vídeo!

– Eu fujo do “alemão” 24 horas por dia. Temos que manter a atividade! Se eu não tenho nada para fazer, vou para o caça-palavras, faço cruzadas!

Os dias de Yvette, agora, são preenchidos com tecido e linha, no quintal de casa. Fica lá, vendo o movimento e ajudando quem precisa.

– Ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar! Deus dá em dobro tudo o que eu faço!

Para quem se dispõe a pagar, cobra R$ 5 pela máscara, valor que é revertido para a compra de mais material. A maioria, entretanto, busca sua máscara gratuita aos sábados.

Uma amiga, que cuida de cachorros abandonados, levou seis dezenas. A ideia é que ela revenda e consiga fundos para continuar seu trabalho.

A filha de Yvette anda sempre com máscaras no carro. Entrega para as pessoas que estão sem.

– Eu estou colaborando para que não haja tanta disseminação desse vírus que está acabando com a humanidade.

Tanta disposição de onde vem? Ela responde!

– Eu amo a vida! Tenho muita fé em Deus e no amor que sinto pela vida. Você precisa amar a vida!

Outro dia, recebeu uma serenata na porta de casa. Estava meio para baixo – quem não fica? E os amigos do coral fizeram uma surpresa. Ouviu chamarem e, quando chegou no portão, foi recebida com violão e voz.

O coração cheio de bem conquistou outros iguais.

– Tenho muitas amizades!

Quando tudo isso acabar? Ela já tem planos!

– Vou na igreja agradecer à Nossa Senhora, quero abraçar todos os meus amigos e fazer uma reunião com os familiares! É muita gente querida!

As máscaras de Yvette são feitas com fios de muito amor!

 

Fotos: arquivo pessoal

 

*Quer traduzir essa história em libras?
Acesse o site VLibras, que faz esse serviço sem custos:
https://vlibras.gov.br/

 

 

 

 

 

Mostrando 3 comentários
  • Virginia
    Responder

    É POSSÍVEL SABER O ENDEREÇO TENHO INTERESSE NAS MÁSCARA

  • Ilda
    Responder

    Eu também faço máscaras desde 19/03 para doar. Já doei 440.

    • Daniela Penha
      Responder

      Que bacana, Ilda! Vamos contar sua história?

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