Em 22 anos de HC, coronavírus é o maior desafio da enfermeira Adriana

– Na semana passada, vivi um dos piores momentos de toda minha profissão.

Desde que os casos do novo coronavírus se intensificaram no Brasil, Adriana Cristina Moreno aumentou as horas de trabalho, reforçou os plantões e deixou algumas folgas de lado.

Quando chega em casa, ela não tem mais a companhia do filho de 11 anos, como era de costume. Há mais de uma semana, está isolada de seu menino. Ele está passando a quarentena na casa dos avós, para evitar as possibilidades de contágio.

Enfermeira e coordenadora da sala de Urgência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, ela é uma das profissionais da saúde que enfrenta a pandemia na linha de frente. Há 22 anos trabalhando na instituição, vive agora seu maior desafio profissional e pessoal.

– É uma situação nova para a gente. Nunca vivi algo desse jeito. É uma experiência que vou levar para o resto da vida.

Por enquanto, os trabalhos são preventivos. Preparar a estrutura do hospital para o aumento de casos que, apesar de muito torcer, ela supõe que irá ocorrer.

– A gente acredita que vai chegar. Está assim no mundo inteiro. Só não sabemos quando. O medo é esse: como vamos estar na hora que chegar?

Na semana passada, o choro correu solto. Em casa e, em alguns momentos, até no trabalho. Ansiedade, estresse, pressão. Para os profissionais de saúde, o enfrentamento correto da pandemia é questão de vida.

– Os números estão subnotificados. O real é muito maior. O que a mídia está mostrando é a realidade. O crescimento é de uma hora para outra.

Vai controlando a ansiedade por dentro e focando no trabalho por fora. Como coordenadora, as funções são muitas. Vão desde a organização e controle equipamentos de proteção individual (máscaras, luvas, etc), que estão em falta, o treinamento dos profissionais até o acalmar da equipe.

– As pessoas ficaram desesperadas. Muitos têm medo de trabalhar. A gente precisa tentar tranquilizar.

Reformularam os setores do hospital, transferiram aqui, mudaram ali para abrir uma ala específica para o atendimento de pacientes com suspeita da doença. A ideia é que, ali, seja feita uma triagem para o encaminhamento adequado de cada paciente.

Naquele espaço, os profissionais de saúde precisam trabalhar com equipamentos de proteção que protegem o corpo todo. Já começaram os atendimentos na semana passada.

– Não dá para ir ao banheiro, tomar água, a roupa é quente. Há todo um cuidado para que os profissionais não se contaminem.

Dividiram a equipe em turnos de seis horas. Ela, que é coordenadora, vai para prática. Sábado, estará de plantão nesse setor.

– Eu preciso sentir como é, para entender o que os profissionais irão me trazer.

Por enquanto, explica, o número de atendidos está pequeno. Mas é preciso preparo, caso haja aumento repentino.

– Nós estamos com o plano A em ação, mas temos plano B e C.

Entre o turbilhão de afazeres e sentimentos, procura reforçar os motivos que a levaram até ali.

Adriana, 46 anos, conta que decidiu ser enfermeira depois de fazer um curso de instrumentação cirúrgica. Chegou a prestar o vestibular para Fisioterapia, mas parou no meio do processo e foi para o curso. Durante as aulas, sentiu falta do contato com os pacientes.

– Eu sentia vontade de cuidar das pessoas. Terminei e prestei enfermagem. Nunca tinha pensado nisso.

Se formou em 1996, aos 22 anos. Trabalhou em um hospital de Bragança Paulista, depois em Sertãozinho e, em 1998, entrou no concurso do Hospital das Clínicas, de onde não mais saiu.

Somou trabalhos. Atuou por cinco anos em resgate de estradas. Hoje, na coordenação, também faz outros plantões. Gosta do inesperado que é parte da urgência.

– Eu não gosto de rotina. Você nunca sabe o que vai encontrar. É cansativo, claro. Mas é uma coisa nova todos os dias.

Os casos mais marcantes tiveram desfecho triste. Uma criança de dois anos que foi atropelada junto com a mãe e um irmão por um caminhão desgovernado.

– Eu já tinha meu filho. Ficou gravado na memória. Ele veio à óbito conosco.

É preciso equilíbrio e força. Encontrar sentido no que faz.

– Poder ajudar o próximo é inexplicável.

Entre tantas histórias, tantos desfechos bons e ruins, ela diz que a pandemia é o momento mais desafiador que já viveu.

– Como líder, você precisa pensar em cada atitude, ser imparcial, justa. Saber da dificuldade de cada profissional. Agir pela razão, não pela emoção.

Durante a entrevista, menos de uma hora de conversa, foi interrompida três vezes, para resolver questões, dar uma resposta a alguém.

– Minha equipe vai estar estruturada quando chegar? Vou ter profissionais suficientes? É isso que estamos tentando organizar agora.

Ela acredita que as pessoas ainda não se conscientizaram sobre a gravidade do que está ocorrendo.

– Não caiu a ficha de muita gente.

Como profissional de saúde, afastada do filho, isolada de seus pais, que são idosos, faz um apelo:

– As pessoas precisam ficar em casa. Teremos problemas com a economia com certeza. Mas a saúde vem em primeiro lugar. Se não piorar, será pelo isolamento. Eu não estaria afastada do meu filho se não fosse necessário.

O filho, desde sempre, fica com a avó para a mãe trabalhar. Sem a escola, o período com os avós seria ainda maior. A solução encontrada foi que ele ficasse isolado na casa dos dois, para que não haja risco de ser infectado pela mãe e repassar a infecção à frente.

Adriana passa para vê-lo e fica no portão. Fazem chamadas de vídeo. À distância, ela ajuda com os estudos. O desafio é pessoal também.

– Não posso colocar meus pais em risco.

Segue, fazendo a sua parte. Empatia é instrumento que não falta.

– Só quem está na saúde sabe o que é. A gente tem que se colocar no lugar do outro.

 

Foto: arquivo pessoal

 

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Mostrando 2 comentários
  • sheila
    Responder

    Nossa que orgulho de vc amiga, sei como está sendo difícil pra vc, mas estaremos sempre te apoiando e Deus sempre no comando, parabéns….

  • rrroselaine@hotmail.com
    Responder

    Profissional maravilhosa, competente que faz muita diferença neste mundo egoístico atual.atravessamos essa guerra com esse inimigo invisível nós atacando e nossos soldados de linha de frente são vocês que estão dando a própria vida pelo bem da maioria. O Brasil precisa apoiar respeitar e Ficar em Casa para sairmos vencedores mesmo com tantas perdas irrepararaveis. quarentena já

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