Família Gallucci foi primeira proprietária do Grande Hotel no Edifício Diederichsen  

Bruno Gallucci faleceu no dia 6 de maio de 2020. Esta história, realizada em parceria com a Casa da Memória Italiana, é nossa singela homenagem. 

 

A torre do Grande Hotel Gallucci, no Edifício Diederichsen, foi a casa do italiano Bruno Gallucci por cerca de 14 anos. Ele, seu pai e sua mãe foram os primeiros a ocuparem o empreendimento, em 1937.

Transformaram a torre em um espaçoso apartamento, que tinha como quintal os dois terraços do edifício. As lembranças do sofisticado restaurante, da vista para a praça XV, dos quartos muito bem mobiliados e de um centro da cidade borbulhante são tão nítidas que mascaram os 96 anos de Bruno: é como se fosse ontem em suas memórias.

Seu pai, Giuliano Gallucci, italiano que deixou a Calábria muito jovem em busca de uma vida melhor, foi o primeiro proprietário do Grande Hotel, que levava seu nome e se tornou conhecido em todo estado de São Paulo, hospedando do presidente Getúlio Vargas a grandes artistas da época. O Diederichsen, morada do negócio, foi o primeiro edifício vertical multifuncional no interior do Brasil.

Bruno, com 14 anos e recém-chegado da Itália, acompanhava tudo, atento. Recorda a imagem de Getúlio no elevador, indo para o jantar. E conta, orgulhoso, que os cardápios do restaurante do hotel tinham tradução em seis línguas.

– Para o meu pai foi um triunfo. Estava sempre cheio!

Os anos de Diederichsen deixaram saudade em sua trajetória. Tanto que quis reviver um pouco dessa época, décadas depois. Um resgate no tempo, que já não era o mesmo – nem de longe!

Viveu o Edifício Diederichsen no auge de sua inauguração e, depois, por volta de 2005, voltou a vivenciá-lo, de outro lugar. Alugou um apartamento do grande prédio, já machucado pelos anos, e morou mais de uma década por ali.

Só saiu em 2018, quando a administradora do local pediu os apartamentos para reformá-los e transformá-los em um centro cultural. Relutou bastante antes da partida e ainda fala com pesar do grande edifício, desocupado e sem funcionalidade.

Hoje, Bruno compartilha suas memórias como registro de um marco na trajetória de Ribeirão Preto. Além da história de sua família, dividida entre a Itália e o Brasil, ele é parte das lembranças de uma pulsante cidade na década de 30.

– Tem um provérbio francês que diz: tudo passa, tudo se apaga e tudo se substitui. É assim. Você só pode ter em seu coração a lembrança da juventude, a saudade de alguns momentos.

 

Bruno Gallucci Ribeirão Preto

Aventuras reais

Bruno Gallucci é um leitor apaixonado desde criança. Os livros, ele diz, sempre foram seus companheiros. Pensou até em ser jornalista, encantado pelas palavras. Conta que desistiu porque suas ideias políticas não batiam com a dos editores. A fama de briguento da infância reverberou ali. Não conseguia escrever sem acreditar no que dizia.

Quando menino, logo ao aprender a ler e escrever, começou a esboçar um livro de aventuras que se passava nas selvas indianas, invocava deusas e doses altas de imaginação.

Contando a história de seu pai, Giuliano, ele utiliza os recursos desse romance no enredo, que prende quem escuta.

Giuliano nasceu na Calábria, Sul da Itália, em uma família de 15 filhos. Perdeu o pai bem menino e “cresceu já no meio de gente grande”, nas palavras de Bruno. Aos 12 anos, por volta de 1894, decidiu atravessar continentes com um cunhado, que estava vindo para o Brasil. A viagem foi tão turbulenta quanto aventureira. Bruno conta em detalhes que a memória atrelada à imaginação é capaz de criar.

O navio se chocou com a costa da África. Alguns morreram, Giuliano e outros tripulantes sobreviveram. Nas costas dos Marrocos, os sobreviventes foram sequestrados por beduínos.

– Amarraram eles, tiraram-lhes as roupas e começaram uma caravana no meio do deserto!

Foram salvos por espanhóis e puderam retomar a viagem. No meio do Atlântico, as máquinas do novo navio pararam e foi preciso esperar ainda um terceiro vapor, que chegou ao Rio de Janeiro, por volta de 1895.

Bruno acredita que a jornada pelo Atlântico durou quase um ano. Em terra firme, Giuliano, com quase 13, continuou inseguro. O tal cunhado avisou: ‘Agora, você se vira!’. Foram juntos até São Paulo e o menino, então, seguiu sozinho. Foi parar em Campinas, onde enfrentou uma epidemia de febre amarela.

Partiu, então, para Minas, onde conquistou um amigo italiano e conseguiu emprego na construção da estrada de ferro, na cidade de Santos Dumont, antiga Palmira, cuidando de um armazém em meio à mata.

– Ele se criou lá!

Quando o trabalho acabou, mais de um ano depois, foi acolhido por uma família de italianos, proprietários de um hotel na mesma cidade. A dona do hotel, que tinha filhos na mesma idade, o convidou para ficar. Aceitou, com uma condição: “Eu vim para o Brasil para trabalhar. Se é para trabalhar, eu fico”.

Começou, assim, a trabalhar no ramo. E nunca mais parou.

– Ele teve uma história linda. Como um menino que nasceu bem longe do mar, aos 12 anos teve a ideia de imigrar? Chegou numa terra nova sujeito a todas as maldades, ninguém protegia ele, só a mão de Deus. Como ele resistiu a tanta coisa?

Após um tempo, Giuliano se mudou para Barbacena, depois Belo Horizonte e, já adulto, foi para São Paulo. Trabalhou no Hotel D´Oeste, tradicional na capital, e foi ascendendo no ramo. Em Santos, teve um hotel em sociedade com um amigo e, depois, comprou todo o empreendimento, que ficava na praça XV, e recebia gente o dia todo, dos navios que nunca paravam de chegar.

 

Bruno Gallucci Ribeirão Preto

Idas e vindas

Por volta de 1913, Giuliano voltou para a Itália visitar a família e desembarcou em Nápoles. Se hospedou em um hotel na rua principal da cidade. Da sacada, avistou do outro lado da rua uma “bella donna”, Germana Brocchi. O pai dela tinha uma clínica ortopédica ali e a família vivia no mesmo imóvel.

Giuliano não titubeou. Atravessou a rua, pediu para falar com o pai da moça e se “apresentou para o namoro”, como conta Bruno.

Se casaram em 1913, ele aos 31 anos e ela aos 21. Voltaram juntos para o Brasil, fugindo da Primeira Guerra Mundial, que se estendeu de 1914 até 1918. Montaram um Hotel em São Paulo, que venderam em 1923, quando a família pediu que retornassem para Nápoles. Giuliano continuou com negócios em terras brasileiras, entretanto.

Bruno nasceu na cidade italiana neste mesmo ano e lá viveu até 1935, convivendo com os avós, os tios e tias. O pai viajava para o Brasil quase todos os anos, para administrar os negócios que ficaram por aqui.

– A situação da Europa na guerra começou a se complicar. E meu pai quis trazer a família para o Brasil. Meu pai nos salvou.

Diferente de Giuliano, anos antes, puderam vir em um bom navio, 12 dias de viagem na primeira classe.

Em São Paulo, o aviso do pai: ‘Aprenda e faça sua vida aqui’. Foi o que Bruno fez. Depois de dois anos na capital, foram morar em Ribeirão Preto, na torre do Diederichsen.

Para o hotel, Bruno conta que seu pai comprou móveis e utensílios em São Paulo, em um armazém de italianos, porque queria peças importadas na mobília.

Ocuparam os dois últimos andares do grande edifício multifuncional, que tinha salas comerciais, apartamentos domiciliares e o hotel.

A numeração dos quartos, ele relembra, ia até o número 34, com hospedagens mais simples e outras muito rebuscadas.

O primeiro cozinheiro do restaurante sofisticado era espanhol. Entre fotos e documentos guardados, os primeiros cardápios bilíngues escritos à mão por sua mãe, Germana. E os próximos, já feitos com a máquina de escrever.

Para eventos especiais, confeccionavam pequenos menus, adornados com as cores da bandeira do país do visitante ilustre. Na recepção do imperador da etiópia, por exemplo, fios em amarelo, verde, vermelho e branco.

– Nós recebíamos vários estrangeiros!

Bruno se lembra do Centro suntuoso de Ribeirão Preto, feito pelos palácios do Dr. Camilo de Matos, pela grande casa da Sinhá Junqueira, pelo palacete de Innechi, Pinguim, cafeteria Única e, em frente, o Diário da Manhã. Alguns desses estabelecimentos seguem ainda hoje, como marco na história. Outros, se foram com o tempo.

 

 

Carreira e casamento

Bruno fez grandes amigos, brasileiros e italianos. Conheceu Edgardo Colombini, italiano que ajudou a construir as sete capelas, do Mosteiro de São Bento, e também adornos da igreja de Santo Antônio, nos Campos Elíseos. Com o médico Nicola Giarduli, que dá nome à rua de Ribeirão, tem história de gratidão.

– Minha mãe teve uma hemorragia e ele a salvou.

Bruno também teve muitos contatos com a comunidade católica da cidade. Frequentava a igreja de Santo Antônio, onde fez grande amizade com os abades.

– Devo a minha mãe e minha tia, esposa de meu tio, na Itália. Ela acordava rezando e me ensinou o respeito à religião. Aprendi muitas orações.

Conta que chegou a cogitar seguir pelo caminho do sacerdócio. Relembra, entre risos, a expulsão da Sociedade Mariana, acusado de namorar as meninas na porta da escola. Acabou seguindo outros rumos.

Depois que seu pai vendeu o hotel, em meados da década de 50, a família passou dois anos vivendo no Rio de Janeiro e depois foram viver na Itália, onde estiveram por mais dois anos. Bruno conta que o pai quis a venda porque estava cansado. Além disso, os entreveros vividos em Ribeirão no período da guerra fizeram com a que a família sentisse vontade de partir.

Voltaram da Itália no final de 1955 e foram viver em São Paulo. Bruno estava com 32 anos.

– Aí eu comecei minha vida. Meu pai disse: ‘Eu trabalhei até agora; é hora de você trabalhar’.

Começou a trabalhar como bancário, profissão que desempenhou por 23 anos, até se aposentar. Depois da aposentadoria, foi empresário no ramo de sons com o filho, realizando comícios políticos.

– Naquela época as eleições se resolviam com as campanhas.

Quando voltou da Itália, ele estava noivo de uma italiana. Com alguns meses de distância, porém, percebeu que o namoro entre continentes poderia não ter sucesso e desfez o noivado.

Foi morar na rua Frei Caneca e conheceu sua esposa, Noemi Hilda, morando no mesmo prédio. Trocaram sorrisos e ele tomou coragem para pedi-la em namoro “com boas intenções”, como relembra. Namoraram por dois anos e em 1958 se casaram, ele aos 35 anos e ela aos 37. Tiveram dois filhos e passaram a vida toda juntos, até o falecimento dela, em 1988, aos 66 anos, por um câncer.

Bruno viveu um tempo em São Paulo, depois se mudou para o Guarujá e decidiu voltar a Ribeirão para estar mais perto da filha, Adele, que morava na cidade.

 

Bruno Gallucci Ribeirão Preto

Marcas da guerra

As guerras marcaram a trajetória de Bruno.

– Uma guerra sangrenta e inútil. Matou milhares de pessoas e o mundo está em paz? Não está.

Sua “primeira inspiração”, como diz, foi ser almirante, lá na infância, vivendo na Itália. Uma vizinha tinha um irmão que trabalhava na Marinha Italiana e o menino se entusiasmou.

– Eu queria ser militar e servir à pátria. As forças da vida, do futuro, foram completamente diferentes. Meu ideal de menino era esse.

Em Ribeirão, no auge da Segunda Guerra, precisou se isolar. Brasil e Itália foram rivais e sua família sentiu o peso de estar num país estrangeiro.

– Os países estavam em guerra. Eles brigavam e nós pagávamos.

Não gosta de falar no assunto. Diz que prefere focar nas coisas boas da história.

A filha, Adele, resgata alguns registros, entretanto.

– É para mostrar o quanto foi difícil para eles. O quanto sofreram.

O pai de Bruno foi desligado da Recreativa, em 1942, com uma carta em que a sociedade avisa sobre a “decisão do conselho regional de desportos”, apesar de “sempre considerá-lo distinto e digno de toda consideração”.

Ele foi obrigado a registrar tudo o que tivesse de aparelho fotográfico junto ao Estado, conforme os documentos guardados pela família.

Giuliano também foi acusado de ter desrespeitado o Brasil, jogando no lixo uma foto de Getúlio Vargas, presidente na época. Foi processado pelo fato, em 1941. Para sua defesa, notáveis da sociedade, como o próprio Antônio Diederichsen, prestaram depoimentos. Foi absolvido, mas a história ainda é marca na memória da família, como conta Adele:

– Foi muito difícil o que eles tiveram que enfrentar.

Bruno, porém, garante que não guarda marcas.

– Sou brasileiro e italiano. Não há diferença entre os sentimentos que tenho. Na Itália eu nasci, mas meu pai se fez no Brasil.

Nos cardápios do Grande Hotel, o pai exaltava a pátria que o recebeu. Sempre colocava fotos de lugares importantes do Brasil e também de Ribeirão Preto.

Nem mesmo na literatura Bruno escolheu entre um lugar ou outro. Estudou um período no Dante Alighieri, onde conheceu e se encantou pela literatura italiana, mas tem seu encantamento pelos autores brasileiros. Coração dividido também nas letras.

– Não tem como falar. Gosto de autores daqui e da Itália também.

Ao longo da trajetória de leitor foram tantos exemplares lidos – e adquiridos – que constituiu uma biblioteca. Doou livros à Casa da Memória Italiana meses atrás, compartilhando conhecimento.     A leitura continua sua atividade preferida, esbanjando boa memória aos 96 anos:

– Para a raiva de quem me quer mal.

E um tanto de humor também.

– Enquanto estamos vivos, somos feitos para nos movimentarmos.

Hoje, vive em uma casa de repouso para idosos, lendo e relendo livros, relembrando a história.

– Não lembrar é uma injustiça, porque Deus nos dá uma vida.

Os sonhos da juventude ficaram para trás. Mas consegue olhar para a trajetória com saudade.

– Não consegui realizar meus ideais, mas meu trabalho fui bem-sucedido, na família melhor ainda. E agora as lembranças são todas boas…

É memória que pulsa. História rememorada em palavras.

 

Legendas: 

1: Primeiros cardápios do hotel eram escritos à mão

2: Foto de família: Giuliano, Germana, Bruno, Noemi e seus filhos

3: Retrato 3×4 de Bruno Gallucci

4: Fotos dos aposentos e restaurante do Grande Hotel

5: Bruno Gallucci na atualidade

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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