Faxineira da Altino Arantes, Edna não é mulher de estereótipos

Ney Matogrosso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Jorge Amado, Fernando Moraes: na lista de Edna não faltam grandes nomes. A simplicidade de Maria transborda grandeza.

Entre sete irmãs Marias, ela é a única que não quis seguir carreira de professora. Edna Maria Nicolino fez magistério, mas não quis trabalhar em sala de aula.

Trabalhou no comércio até quase 50 anos e quando decidiu que seria faxineira, há 14, os primeiros dedos apontados vieram de dentro da família.

“Imagine! Vai para Ribeirão Preto trabalhar de faxineira?”. Não nega que o insulto vem acompanhado da mágoa. Mas garante que nunca se importou.

Como faxineira da Biblioteca Municipal Altino Arantes, Edna e o marido compraram casa e carro próprio. E bem mais: ela se tornou parte da cultura que tanto é parte de si.

– A gente está aqui para curtir a vida, não é? A vida é muito boa! A gente que tem saber levar!

Doze filhos criados no sítio, região de Ituverava. O pai morreu do coração, batendo o feijão que colhera do pé. O bicho de Chagas, tão comum por ali, se hospedou no peito do homem.  O menino mais velho tinha 18 anos, Edna 6 e o mais novo oito meses.

A mãe tomou para si o arrimo da casa. E não teve outro jeito: todo mundo trabalhava para ajudar.

Dona Antônia não sabia escrever. Tinha tanta vergonha de usar a digital do dedo como assinatura que teve como missão não ver um filho repetir o feito.

Os doze estudaram. Quando a escola do sítio não acolhia mais – era só do 1º ao 4º ano – a mulher pegou tudo que tinha e foi embora com os meninos para Miguelópolis.

Quando eles já sabiam o be-a-bá, retribuíram tamanho empenho. Letra por letra, pegando na mão sem pressa, ensinaram Antônia do Rosário Nicolino a escrever o próprio nome. Era “devagarinho” que ela escrevia, Edna lembra bem. Mas tinha um orgulho que só.

Antônia morreu aos 55 anos, também pela Chagas que destruiu o coração do marido.

– Eu admiro muito minha mãe, sabe? Ela foi guerreira demais! Que é isso?

Edna Maria terminou os estudos, fez o magistério e precisava cursar Pedagogia para dar aula. As seis irmãs fizeram. Ela não. Decidiu que não tinha paciência para ensinar.

Sonhava em ser psicóloga. Mas a vida foi atropelando o sonho e ela passou parte da vida trabalhando no comércio. Não tem queixas, entretanto.

– Esse sonho foi ficando para trás. Mas vieram outros.

Conheceu o marido numa mesa de bar, já morando em Ribeirão Preto com uma das irmãs. Ele, poeta, escreveu um verso no guardanapo e ela se apaixonou. Diz que, a partir daí, a vida se abriu de uma nova forma.

Até então, nunca tinha ido a um teatro. Com o marido foi incontáveis vezes.

O primeiro show a que assistiu foi do Milton Nascimento, no teatro Pedro II. E depois vieram tantos outros que ela tem dificuldades em lembrar: Ney Matogrosso, Rita Lee, Adriana Calcanhoto, Simone, Kid Abelha, Paralamas e ah, Roberto Carlos, que ela já avisa:

– Sou fã do Roberto, viu?

Edna também foi a única Maria entre as irmãs que escolheu não ter filhos. O marido concordou e, já aí, ela soube o que era dedo apontado.

– Ontem mesmo uma mulher ficou inconformada. Repetia que ‘filho é uma benção’. É mesmo. Mas eu optei por não ter. Respeito ela e também quero ser respeitada.

Continua seguindo em frente.

O trabalho na biblioteca surgiu por uma amiga de infância que já estava por lá. Edna comemorou quando a vaga saiu e comemora até hoje.

– Eu amo meu trabalho. Limpar as coisas, deixar arrumadinho. Parece que é de dentro de mim, sabe?

Trabalhando entre livros todas as manhãs tomou ainda mais gosto pela leitura. Lê, pelo menos, um livro por mês. Escolhe um na estante, lê o prefácio e, se gostar, continua. É exigente. A obra preferida é “Capitães de Areia”.

– Fala da nossa realidade. Tem muitos capitãezinhos por aí.

Também tem carinho por obras espíritas e biografias, que chama de “histórias reais”. Olga, de Fernando Moraes, está entre as preferidas.

Para ler precisa estar quietinha. Aproveita o horário de almoço – 15 minutos – e também leva alguns livros para casa.

– Olha, dependendo da história você viaja, viu? Vai para longe…


 

Por tanto tempo nos corredores da biblioteca, fez amigos e sabe quem está sempre por ali.

– Jovem só vem quando é trabalho de escola. A maioria tem mais de 30 anos. E cada um gosta de uma história diferente.

Para o futuro, os planos são como ela: simples e grandiosos. Quer trabalhar até quando der e, quando não der mais, viajar por aí. O sonho é ir para o Sul.

Neste junho vai estrear nas nuvens, pela primeira vez em um avião para conhecer a cidade natal do marido, em Roraima.

Não está com medo, não. E não havia como ser diferente.

– O plano é esse. Mas, de repente, pode aparecer uma coisa que a gente interessa, né? Quem sabe estudar… agradecer. Sempre agradecer!

Mostrando 2 comentários
  • Edna Nicolino
    Responder

    Bom dia Daniela,

    Gostei da reportagem. Ficou muito boa. Parabéns pelo seu trabalho que continue com essas entrevistas com as pessoas de nossa cidade.

    Obrigada Ótimo fim de semana.

  • Rodrigo Nicolino de Freitas
    Responder

    Uma guerreira, uma tia fantástica, que amamos. Sua luta está descrito nestas linhas e são a pura verdade de sua vida.

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