Com 35 anos de volante, Ferreira é um dos motoristas de ônibus com mais tempo de trabalho em Ribeirão Preto

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Se somar em valores aproximados tudo o que Ferreira já rodou nos bairros Geraldo de Carvalho e Ribeirão Verde, onde passou a maior parte de sua trajetória como motorista, daria para ir e voltar à lua e já percorrer metade do caminho da próxima expedição até o satélite.

Trazendo a conversa para mais perto, só com o que dirige em um ano no Ribeirão Verde seria possível ir e voltar do Oiapoque ao Chuí, pontos extremos do Brasil. E veja bem: hoje ele reduziu em um quinto sua escala. Se fosse na época do Geraldo de Carvalho, em que percorria 119,35 quilômetros ao dia, daria para fazer quase três viagens dessas ao ano.

Os números ilustram o quanto ele andou por Ribeirão Preto, mas só.  José Maria Ferreira, 65 anos, não trocaria seu dia a dia no ônibus por viagens a lua ou turnês pelo Brasil.

Um dos motoristas de transporte urbano com mais tempo de trabalho em Ribeirão Preto – e o mais antigo da empresa Turb – gosta mesmo é de estar de frente para aquele enorme volante redondo, conversando com os passageiros, acalmando os ânimos de quem chega estressado.

 – Ah, eu me sinto um rei! É muito gostoso!

São 35 anos de trabalho. Garante que nunca perdeu a calma – nem com buraco grande, nem com passageiro mal-educado:

– Se o outro vem com duas pedras e você vai com duas pedras, não dá. Você deixa a pessoa falar. A ofensa não presta. Não vale a pena.

Como motorista de ônibus, transformou a história triste da infância em alegria. A fome, o trabalho na roça, os desaforos dos antigos patrões se reverteram na casa própria, filha formada, motos e carros na garagem e, mais recentemente, viagens de avião. Que o busão não lhe ouça, mas o transporte aéreo conquistou seu coração:

– Que delícia, menina! Se eu pudesse ia para casa de avião todo dia!

Sensação de rei, porém, só mesmo no seu volante redondo. Foi um percurso para chegar até ali. Há oito anos  se aposentou no papel, mas não sabe como convencer-se a parar. A esposa também se aposentou, conta. Fizeram alguns planos. Quem sabe viver sem saber se é domingo ou segunda por um tempo. Por enquanto, ficou só na conversa.

– Eu gosto de trabalhar! Aqui vejo gente. Todo mundo tem uma história diferente. Vou ficar em casa com o barrigão no sofá?

Ferreira é o motorista de ônibus urbano com mais tempo de trabalho em Ribeirão Preto

Ferreira gosta de um papo. Conta histórias com facilidade, emendando uma prosa na outra, trazendo cada capítulo em detalhes. Antes de cada pergunta, coloca um “Então, menina” gostoso de ouvir, para sinalizar que vem coisa por aí.

Até quando fala de tristeza, tem um sorriso de canto insistente no rosto. Só quem conhece a trajetória, sabe o quão insistente é. Quem entra em seu ônibus pela primeira vez, pode até pensar que a vida foi sempre música boa.

– Não posso me queixar de nada. Tudo tem um porquê e nada é por acaso. Alguma coisa, a gente tira de lição, de exemplo.

Nasceu em Arcos, Minas Gerais, onde o pai de 88 anos ainda vive e parou de trabalhar faz pouco tempo: vai explicando suas raízes.

Quando tinha três anos, sua mãe morreu. Dormiu e não acordou mais. Doença de Chagas, foi a explicação. Seu irmão mais novo tinha três meses e o mais velho quatro anos e meio.

– Então, minha filha, foi assim: um dia na casa de um, outro na de outro. Um dia almoçava, no outro só bebia água. Não tinha fartura, não.

Em 1963, quando ele tinha oito anos, a família decidiu se mudar para o estado de São Paulo. Vieram o pai, a avó, os tios e se alojaram na região de Fronteira.

– Melhorou um pouco. Não tinha dinheiro, mas tinha arroz e feijão. Vestuário também não tinha. A calça era branca com remendo vermelho. Vermelha com remendo branco. Hoje é até moda!

Encontra sempre um motivo para o riso.

Quando seu pai decidiu voltar para Minas, pouco tempo depois, Ferreira continuou com a avó. Passou a trabalhar na roça aos oito anos e só parou aos 23, quando se mudou para Ribeirão Preto com a esposa.

As lembranças da infância, então, são feitas de mãos calejadas, marmita pronta na madrugada, pau de arara, chinelos de pneus, colchão de palha de milho com pulgas e percevejos, banho na bica, lamparina à querosene, bebedeiras do tio que sempre terminavam em agressão, pés descalços na roça congelando de frio.

– Nossos filhos hoje é o filho do patrão lá atrás.

Conseguiu estudar até o “quarto ano do grupo”, como conta. Dividia o turno entre a escola e o trabalho. Depois, passou a ficar 24 horas na roça.

– Aí acabou, minha filha. Minha avó falava: ‘Vai estudar para quê? É pra rico! Vai trabalhar’.            Ferreira é o motorista de ônibus urbano com mais tempo de trabalho em Ribeirão Preto

Se casou aos 18 anos, com a mulher com quem divide a vida até hoje, “sem nunca brigar, Graças a Deus”, garante. Vieram para Ribeirão Preto em agosto de 1977.

Trabalhavam sem registro em um sítio da cidadezinha Colômbia e o patrão foi denunciado. Expulsou Ferreira e sua família das terras no mesmo dia. Lembraram dos parentes que moravam por aqui e, sem tempo para planejamentos, decidiram arriscar.

– Estamos aqui até hoje!

Antes de entrar na empresa de ônibus municipal, que hoje é a Turb, ele trabalhou como motorista em empresas de terraplanagem, carregou calcário, areia por seis anos.

Conta que durante uma tarde de trabalho teve a ideia de atuar como motorista de ônibus. A esposa até advertiu: “Será que vai dar certo? Você gosta de jogar bola de domingo”. Decidiu tentar. Bateu no portão da empresa e foi avisado de que naquela mesma tarde haveria uma seleção para o cargo.

Foi contratado em 1984.

Desde então, passou apenas 10 meses fora. Conta que em 1987 pediu para sair pelo barulho das campainhas que anuncia uma parada.

– Hoje, se alguém puxa a cordinha, a campainha trava e só volta a tocar depois que a porta abre. Naquela época, não. A cabeça ficava desse tamanho!

No mesmo ano, entretanto, a empresa lhe chamou de volta, apresentou mudanças e benefícios. Era o que Ferreira queria para voltar.

– Olha, tudo aqui é bom. Favorece a adaptação. Eu me dou bem com todo mundo e com qualquer um!

Ferreira é o motorista de ônibus urbano com mais tempo de trabalho em Ribeirão Preto

Ferreira foi motorista de alguns bairros no começo e depois ficou por quase 20 anos na linha do Geraldo de Carvalho. Sabe, com exatidão, que faltavam quatro meses para completar as duas décadas quando foi transferido para o Ribeirão Verde, cerca de 12 anos atrás.

Nessa época, passou a trabalhar na madrugada, o que considera uma conquista. Faz o trajeto, mas também transporta os funcionários da empresa que entram e saem na madrugada.

 – Adaptei tão bem! O que deixa com sono é acordar com o despertador. Eu chego umas 8h45, junto tudo o que sobrou da janta e deito. Aí, acordo naturalmente.

Garante que nunca levou um atestado desnecessário. “Só por falecimento”, em suas palavras. E aí, ele conta o capítulo da história que doeu mais do que a barriga vazia da infância.

Em julho de 2003 perdeu o filho. Tinha um casal. O menino, 21 anos, pegou a paixão do pai pelo futebol. Jogava no Botafogo. Passou mal durante um treino e o médico disse que já chegou ao hospital sem vida.

– Eu fiquei à deriva. Sabe um barco que fica à deriva? O que vier será bem-vindo?

Ele explica, com esse fato, porque não faz qualquer questão de escolher se terá folga no Natal ou no Ano Novo quando chega o final de ano e a empresa divide os plantões.

– Perdeu a graça… na data comemorativa tá sempre faltando um…

Não demora a retomar a força lá do começo, porém. Houve revolta? Conta do amigo que também perdeu uma filha recentemente. Não se conformava. Ferreira procurou consolar com a sabedoria tão grande, que não precisou de livros e faculdades para aprender.

– Quando perdi meu filho, eu chorei muito, descarreguei. Mas, analisando pelo outro lado, tudo tem um porquê. Nada é por acaso.

Dirigindo ônibus pela cidade, a cabeça distrai, fica solta entre as histórias dos passageiros, o carinho que sempre vem.

– Final de ano eu sempre ganho um panetone, champanhe. Se é meu horário e eu não vou, todo mundo pergunta. Já acostumaram. É tudo de bom!

Diz que se sente feliz e realizado.

– Cheguei nessa idade, 65 anos, sem doença, com saúde, não tenho preguiça. Nossa senhora! Hoje eu tenho tudo o que eu quero, o que eu não tinha lá atrás.

A vida?

– Eu acredito muito em Deus. O que viemos fazer aqui? É uma boa pergunta. Todo mundo fala que estamos aqui de passagem…. mas o homem só tá destruindo tudo… é complicado…

Termina sorrindo para as fotos, no seu trono feito de volante, câmbio e assento. Aqui, Ferreira é rei.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

 

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Mostrando 2 comentários
  • paulo henrique kaszas
    Responder

    Parabéns, ótimo exemplo.

  • Silvanete mota Guedes
    Responder

    Uma história de vida linda, apesar das tristezas pelo meio, ele continua firme e forte, com a graça de Deus.Sr Ferreirinha como é chamado na nossa linha Ribeirão verde, excelente motorista.

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