Frei Anísio foi ‘guardião’ da terra santa por cinco anos

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 7 de agosto de 2017!

 

A ideia surgiu sem sobreavisos. Frei Anísio diz que nunca antes passara pela cabeça partir para tão longe.

Como franciscano, ele bem sabe: a vida é feita de andanças. Israel: longa andança para quem morava em Marília, interior de São Paulo.

Ordenado há 11 anos, ele tinha acabado de se formar jornalista, dando voz à paixão que sempre teve pela comunicação.

– Eu queria sair um pouco do Brasil. Me veio Israel na cabeça. Nunca tinha sonhado… Me aceitaram e eu fui.

Passou cinco anos na comunidade franciscana de Israel, tomando conta dos lugares mais santos do mundo para as religiões cristãs, em um país de conflitos.

Mostra a cruz vermelha bordada no traje marrom:

– Essa cruz vermelha está na roupa dos freis que têm a custódia da terra santa.

Não há lugar mais especial para frei Anísio.

Frei Anísio guardião de Israel

Frei Anísio fala com todas as letras e ainda avisa:

– Pode escrever na sua matéria: eu me sinto mais inseguro em Ribeirão Preto do que em Israel.

Há dois meses, ele atua na paróquia Santo Antônio Maria Claret e Frei Galvão, no Ipiranga.

Por lá, viu policial ser morto baleado, conflitos com a polícia, um número assustador de dependentes químicos vivendo nas ruas. Os fiéis já avisaram: não é seguro andar de bicicleta pelas ruas, como era costume do frei.

– É um campo de guerra essa cidade? É câmera de segurança, cerca elétrica… Me dá uma angústia ver tudo isso.

Israel é palco constante de conflitos armados, entre palestinos e israelenses.

Frei Anísio diz, porém, que nos cinco anos em que esteve lá – de 2012 a 2017 – não presenciou um bombardeio.

Na Copa do Mundo de 2014, quando a Faixa de Gaza foi palco de guerra, ele estava visitando o Brasil.

– A região é tensa, porque convivem dois povos que não se amam: muçulmanos e judeus. Mas eu não presenciei conflitos… Não é da forma que a gente vê na televisão.

Para Frei Anísio, os conflitos vinham em forma de olhares tortos e desrespeito.

A população de Israel ultrapassa 8,5 milhões de pessoas. Ele diz que menos de 2% do total é cristã.

– Eu cheguei em Jerusalém e sai para conhecer a cidade com as vestes de frei. Um jovem cuspiu no meu pé. Eles sabem que você é cristão e isso é uma afronta para eles.

As cidades, assim, são divididas em áreas dos judeus, muçulmanos e cristãos. Depois desse dia, o frei não mais usou o hábito para sair à rua.

Frei Anísio guardião de Israel

Na crença religiosa, São Francisco passou a vida andando pelos lugares onde os fiéis precisavam de amparo. Em uma dessas andanças, passou por Israel e viu que os lugares santos estavam descuidados, convocando alguns fiéis para tomar conta.

Dessa forma, o frei explica, surgiu a comunidade franciscana de Israel que, ainda hoje, sobrevive ao fogo cruzado de muçulmanos e judeus.

Ele conta que os lugares santos, entretanto, recebem visitantes de todas as religiões e lugares do mundo.

– Nós explicávamos que ali era um lugar santo e que era preciso respeitar.

Nos cinco anos que passou em Israel viveu em Nazaré, visitou Belém e, na maior parte da estadia, morou em Jerusalém, na Basílica do Santo Sepulcro.

As funções por lá eram, de fato, cuidar do lugar, orientando os milhares de fiéis que visitavam o local onde, na crença cristã, Jesus ressuscitou três dias após ser crucificado.

– Eu consagrei minha vida à Deus. Estar nos lugares onde Jesus esteve deixa impressões muito fortes.

Frei Anísio fala com todas as letras: não é o mesmo que partiu.

– Voltei outro. Se minha fé era vacilante, eu acredito que hoje ela é mais sólida. Eu amo o que eu faço. Hoje, não consigo me ver sem Jesus.

Frei Anísio guardião de Israel

Três meses atrás, frei Anísio sentiu que era hora de voltar, buscar novos rumos.

– Eu amo minha pátria, minha terra.

Sentiu que era tempo de estar em casa, não só pela saudade do arroz e feijão que dava nó no estômago, mas pela necessidade de espalhar sua fé a outros lugares.

Passou um mês na Argentina e há dois meses está em Ribeirão Preto.

Não sabe qual será seu o próximo destino.

O menino de Borborema, desde muito pequeno, mostrava que seguiria a carreira religiosa. Com quatro, cinco anos saía de casa e ia às missas sozinho, por influência da família católica.

Aos 18 anos, decidiu confirmar sua vocação para padre e, entre idas e vindas, encontrou sua fé na comunidade franciscana.

Passou quatro anos estudando na Itália e, em 2002, quando foi ordenado, viveu nove meses com uma tribo indígena do Pará.

No local, só se chega de avião.

– As pessoas sempre me perguntam: ou que você levou para os índios. Eu digo que aprendi mais que ensinei. Vendo a forma como eles vivem na natureza, vida simples. Eu renasci para a vida.

De volta ao Brasil três meses atrás, visitou essa tão querida aldeia. E não nega a vontade de, um dia, voltar para lá.

Mas, como franciscano, sabe bem: a vida é feita de andanças.

Na bagagem de Israel, trouxe o presente principal.

– Tolerância. Aprender a conviver com o diferente.

Lamenta um Brasil tão dividido.

– O que se vê por aqui é intolerância política, religiosa, sexual. O povo brasileiro foi dividido pela intolerância. Em Israel eu aprendi a amar e respeitar o diferente. Hoje minha missão é aqui em Ribeirão. Amanhã, Deus é quem sabe.

Com bagagem tão extensa, está preparado para o que vier.

 

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