Gêmeos do cinema: da Vila Tibério para as telonas do mundo

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As roupas iguais se tornam apenas acessório. Os gêmeos do cinema combinam a vida. Falam as mesmas frases, ao mesmo tempo. Contam os fatos em duo: um complementando as falas do outro. A gente fica pensando o quanto houve de ensaio para tanta sincronia!

A conclusão é de que são, afinal, 39 anos “ensaiando”. Quase quatro décadas de vida, dividindo os dias e alimentando o mesmo encantamento.

Nasceu quando tinham três. Três anos! Viram uma propaganda do Oscar entre os blocos da novela e quiseram saber o que era aquele glamour todo. Março de 1984. A mãe deixou que dormissem mais tarde naquela noite, para assistirem à premiação. Poderia imaginar o que viria?

Os irmãos dormiram encantados pelo homem dourado da estatueta. O cinema se tornou, ali, o sentido da dupla trajetória.

Contam em detalhes com todas as datas e a lista de filmes, idas ao cinema, cenas marcantes. Assistiram a cerca de 13.009 títulos. Pedem que o “cerca” esteja aí, já que Marcos tem dúvidas se André deixou passar alguma coisa no caderninho.

Não anotam os títulos, só os números. Mas, insistindo bem, é provável que consigam rememorar cada uma das películas.

Os meninos que nasceram e cresceram na Vila Tibério, Ribeirão Preto, garantem que não trocam o bairro por lugar algum do mundo. Vão e voltam. E como vão! Em forma de curtas e longas metragens.

O primeiro longa que produziram, “Outro lado”, está rodando os cinemas do mundo e a ideia é que venha logo para as telonas do Brasil. O segundo, que teve a Casa da Memória Italiana como um dos espaços de gravação, já está sendo finalizado e o terceiro começou a sair do papel. Sem contar os curtas!

André e Marcos Castro têm currículo que logo dá filme. Festivais, trabalhos com grandes nomes da indústria cinematográfica, a produtora própria, filmes e premiações. Os meninos da Vila tiveram curta-metragem exibido em Cannes e chamaram a atenção com um look parecido com o de Freddy Krueger. Dois, no caso.

No tempo em que não estão trabalhando, são os meninos da Vila e da dona Helena, a mãe. Vivem os três e a cachorrinha Mila de Castro, que é a dona do pedaço.

– Nós somos tiberenses, como se fala por aí. Nunca saímos daqui. É nossa história.

Nas palavras de Marcos. Ou seriam as de André?

gêmeos do cinema Marcos e André Castro

No dia em que nos conhecemos, Marcos gravou meu número de telefone a partir dos anos de premiação do Oscar. Exemplo: 81, “Carruagem de fogo” levou a estatueta. É o primeiro número.

Na entrevista, soube que os irmãos cativam as rodas de conversas com a brincadeira, que levam fácil como se a memória fosse um filme onde passam datas e títulos.

Depois daquele primeiro Oscar, em 1984, os gêmeos acordaram determinados a assistirem um filme inteiro, como nunca haviam assistido.

– Naquela época não tinha animação, filmes infantis e nem muita censura.

Tiveram que se satisfazer com Chaves, que foi amor à primeira cena.

– Doeu mais quando descobrimos que o Chaves e o Chapolin não eram do Brasil do que a verdade sobre o Papai Noel! Nós achávamos que eles eram daqui.

O primeiro filme completo, da primeira à última cena, deixou traumas.

André e Marcos são os caçulas de cinco irmãos, que deram todo tipo de apoio e linha para a imaginação e vontade dos pequenos. Os mais velhos, então, acharam que, aos cinco anos, André e Marcos já estavam preparados para uns bons sustos. Assistiram “Terror em Amityville”.

O resultado foi castigo para os três e desespero para os pais, que esgotaram as orações para ver se os meninos voltavam a dormir sossegados.

Foram ao cinema pela primeira vez em 1985, Cine São Paulo, na rua São Sebastião, Centro de Ribeirão. Assistiram “Os Goonies” e saíram extasiados.

– Foi amor à primeira vez. No cinema, achamos que tínhamos morrido e ido para o céu.

Uma fala do irmão mais velho na saída complicou o clima: “Teria sido muito melhor se fosse legendado”. Os gêmeos quiseram, a todo custo, aprender a ler e escrever.

Deram à irmã mais velha, que era professora, a missão de ensiná-los e aprenderam tão bem que entraram na escola direto para o primeiro ano. Ainda assim, contam que as primeiras semanas foram de tédio, revisando o que já sabiam.

Dia 10 de outubro de 1988, às 14h32: a chegada do primeiro vídeo cassete é lembrada – e celebrada – em detalhes. Os pais – ela trabalhava com administração e ele bancário aposentado – apertaram as contas para que os meninos pudessem assistir aos filmes em casa. Mal sabiam das contas imensas que teriam que arcar nas locadoras!

– Foi melhor do que ganhar na loteria, querida!

gêmeos do cinema Marcos e André Castro

Eram frequentadores assíduos das principais locadoras da cidade. A primeira foi a Café Home Vídeo, na Avenida do Café, Vila Tibério, perto de casa. Na Genius, Centro da cidade, passavam tardes inteiras.

– Entravamos às 13h e saíamos às 17h, só para ficar lá dentro.

O segundo filme de terror, Sexta Feira 13, veio aos nove anos. O medo foi pior do que aquele, aos cinco. Mas se encantaram pelo gênero. Viram todos os filmes da série, já que começaram pelo oitavo. E quando chegaram no primeiro, o de 1980, tomaram a decisão:

– Acendeu a vontade de fazer um filme algum dia, de alguma forma.

Diz André.

– Quando nós percebemos que não era o Jason quem matava, nós quisemos fazer isso. Eu queria ter o poder de manipular uma ideia e entregar outra coisa no final.

Foi o fim dos filmes “de criança” no cinema. Decidiram que já tinham maturidade para assistir aos filmes de adultos nas telonas. “Uma secretária do futuro”, no Cine Bristol, foi o primeiro. Mostram a capa da fita em VHS que têm em casa.

Começaram já aí as leituras sobre cinema. Queriam devorar jornais, revistas, tudo o que tivessem para entender sobre o tema.

– A gente já se achava especialista em cinema aos nove anos!

gêmeos do cinema Marcos e André Castro

Depois de lerem a Bíblia inteira, o medo dos filmes de terror acabou em 1995. Apenas dois filmes continuaram causando arrepios: “O exorcista” e “O cemitério maldito”. Viram uma vez e nunca conseguiram repetir.

Uma atriz conseguiu “desbitolar” os dois do terror. Os irmãos mais velhos é que traziam as sugestões, sempre pensando em tirar os gêmeos de suas ideias fixas. Quando percebiam, porém, haviam criado outra fixação.

Foi assim com a Jamie Lee Curtis. A irmã foi quem disse: “Vocês precisam ter uma musa!”. Os meninos passaram a assistir outros gêneros além do terror, ampliaram o conhecimento. De 1991 até hoje cantam parabéns para a atriz todo  22 de novembro, aniversário dela, com bolo e vídeos.

– Ela foi um divisor de águas na nossa vida!

Nem um autorama gigante e nem o videogame fizeram os dois mudarem de ideia. Queriam ganhar filmes, idas ao cinema, fitas para gravarem a programação da TV.

Quando veio a televisão por assinatura, em 1994, eles não queriam sair de casa. Apenas para ir ao cinema, claro. Chegavam a frequentar os cines duas vezes por semana. Com cada irmão assistiam a um gênero: o preferido pelo mais velho, que estava levando.

Na escola, o jeito “geek” de ser incomodava. Os gêmeos sofreram tanto bullying que decidiram interromper um ano de estudos, em 1996, aos 15 anos. A mãe não entendeu a decisão. O cinema foi a desculpa. Só foram contar a verdade um tempinho depois.

Já na faculdade de Jornalismo, que ingressaram em 2006, as coisas mudaram. Contam que eram conhecidos e queridos de um lado a outro, principalmente pelas ideias contraventoras: uma rádio pornô, palestra com strip-tease são exemplos.

Entraram aos 26 anos.

– Nossa adolescência durou até os 23 anos. E agradecemos aos nossos pais por isso. Mas depois do falecimento do nosso pai, tivemos que nascer de novo.

A família, muito unida, sentiu o vazio da perda de um dos principais integrantes, em 2004. Os irmãos passaram a trabalhar em vídeo locadoras, mudaram a  rotina.

Depois, decidiram entrar na faculdade, com apoio e incentivo da mãe. Se formaram por volta de 2009, já com convite para trabalho. Baita convite, no caso!

Rubens Ewald Filho, considerado um dos maiores críticos de cinema do Brasil, veio à Ribeirão participar de uma Feira do Livro. Os gêmeos interviram em sua palestra pedindo três minutos de entrevista para o documentário que estavam realizando como conclusão do curso. Ganharam uma hora de conversa e o telefone pessoal de Rubens, com quem iniciaram a carreira em São Paulo logo depois.

André e Marcos sempre estiveram aqui e lá. Atuando em São Paulo, viajando para festivais, trabalhando em Ribeirão. Estiveram à frente dos Estúdios Kaiser de Cinema, um dos grandes espaços culturais da cidade, na antiga fábrica da Antártica.

Em meio à tristeza do prédio vendido em 2014 retomaram a decisão antiga, tomada lá na infância vendo Sexta-Feira 13. Abriram uma produtora e passaram a produzir. Trabalham também com Leis de Incentivo, escrevendo projetos culturais de todo tipo.

A participação em Cannes foi em 2015. E de lá para cá vieram os longas e muito filme! Tiveram financiamento de Steven Wolfe, produtor norte-americano, além de Antônio Calmon e um tanto de permutas, feitas com trabalho.

O terceiro longa já está sendo filmado e, com vontade em dose dupla, ninguém duvida que vem bem mais por aí.

 – Somos muito pé no chão. A gente sabe que o caminho é muito árduo.

Diz André.

O plano para o futuro é continuar: produzir, dirigir, “cinemar”, transformando em verbo o fazer.

– Nós queremos, agora, continuar no cinema.

Complementa Marcos.

O plano para abril é comemorar o aniversário de 15 anos da Mila de Castro, a cachorrinha.

– A gente apelidou ela de ‘ar que respiramos’ também.

Nas palavras de Marcos.

-Ou rim que eu vou doar.

E nas de André.

Os dois garantem que a vida por trás dos holofotes é cotidiana. A combinação de roupas, dizem, é marketing.

– Deu muito certo. E não podemos mexer no que está dando certo.

Diz André.

Contam que algumas pessoas se incomodam com o grude dos dois. André, Marcos e Mila dormem na mesma cama de casal.

– Mas nós somos os melhores cunhados uns dos outros!

Comemoram a anormalidade que dizem ser intrínseca à família. E Marcos ainda alerta:

– Desconfie das pessoas normais, linda. O fato de nós não termos parafusos nos deixa muito felizes!

O cinema? Para Marcos, é “parte da alma”. Para André é “terapia”. Entre outras tantas coisas que não se pode rotular.

Entre as cenas preferidas, a última de “O vento levou”, em que a personagem diz “Afinal, amanhã é outro dia”. Sempre é: os irmãos carregam como lema.

Tem uma coisa com a qual não concordam – e não há negociação ou ensaio. Para André, “Paris, Texas” merece nota 5. Marcos, que deu 10, já fez o irmão rever o filme três vezes, mas não teve alteração. Do mais, seguem compartilhando as roupas e a vida encantada pelo cinema.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Mostrando 3 comentários
  • Elaine
    Responder

    Oi meninos era comigo que passavam um período todo na locadora….kkkk….meu nome é Elaine e era atendente da locadora….adora conversar com vcs….beijos e até um dia ?

  • Rachel
    Responder

    Pegava o ônibus Castelo Branco com eles e e eles falavam o tempo todo, principalmente nessa época onde os melhores filmes são reconhecidos pel9 Óscar.

  • Raphaela Dourado
    Responder

    Olá meninos, estudamos Jornalismo na Barão, fiz 3 anos com vocês kkk saudades, desejo muito sucesso que vocês continuem voando alto. Bjos.

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