Gerson escreve histórias da Turma da Mônica há 18 anos

Em Ribeirão Preto – mais precisamente em um escritório repleto de quadrinhos, com um relógio da Turma da Mônica e um troféu em formato de Bidu – nascem histórias que percorrem o mundo todo.

Gerson faz uma conta rápida e estimada. É impossível, afinal, catalogar tim-tim por tim-tim. Acredita, então, que já escreveu mais de quatro mil histórias. Cria roteiros para os personagens que, pelo menos uma vez, já estiveram nas mãos de toda criança desse brasilzão.

Cascão, Cebolinha, Chico Bento, Magali, integrantes da Turma da Mônica: quem não tem um preferido?

Há 18 anos, ele coloca os personagens em ação, pelas histórias que escreve: campeonato de aviões de papel, uma agente de turismo que veio do espaço, as conversas de Magali. É história que tem fim, mas não acaba, não.

Antes de trabalhar com Maurício de Sousa, entretanto, o roteirista ribeirão-pretano já somava carreira de quase 20 anos na Editora Abril, escrevendo enredos para os personagens da Disney. Zé Carioca, Tio Patinhas, Mickey. Criou, nessa época, a personagem “Borboleta Púrpura”, que assombrava o almanaque do Peninha. E escreveu a história do Mickey no espaço que se tornou sua preferida – e de muitos leitores também.

Eu tenho a impressão de que Gerson Teixeira já esteve na infância de cada brasileiro. E de algumas crianças mundo afora.

Na minha, não há dúvidas. Durante a entrevista para conhecer sua trajetória, fiz uma viagem pelos quadrinhos que ajudaram a me formar como leitora. Quanta nostalgia! E que surpresa boa e cheia de responsabilidade da vida: eu, que tanto li as histórias de Gerson, vou, agora, transformá-lo também em história!

Será que vira quadrinho?

 

Gerson escreve histórias da Turma da Mônica há 18 anos

Gerson nasceu em Santo André (SP) e começa seu relato com uma lembrança dessas que moram láááá no fundo da mente. Na imagem que recria, está em cima de um tratorzinho de sua família, com uma revista do Tio Patinhas nas mãos. Tem certeza de que vem daí um bom tanto da inspiração para ser roteirista e ilustrador.

Ao longo de toda conversa fala sobre o “destino”.

– Tem quem pergunte se eu acredito em destino. Eu tenho que acreditar! O jeito que as coisas aconteceram… É muita coincidência!

A segunda lembrança mora na casa onde sua família viveu. Era criança e acompanhou seu pai no dia de negociar a compra desse imóvel. A filha do antigo dono, menininha loira, brincava no quintal enquanto os adultos conversavam. Gerson faz uma pausa para o aviso:

– Logo você vai entender porque estou falando isso…

Anos depois, coordenando a feira de Ciências da escola onde estudava, conheceu uma jovem. Os dois eram adolescentes. Ele com 16 anos e ela inventando que havia um problema na tomada de seu experimento só para que ele fosse consertar.

Descobriram, depois, que o primeiro olhar já havia se dado anos antes. A “menininha loira” nascera na casa comprada pela família de Gerson.

– É coisa do destino!

Se casaram e somam mais de 40 anos juntos!

– São os quadrinhos e ela… Minha alma gêmea mesmo!

A esposa é inspiração para muitas de suas histórias, assim como o filho que veio depois – e enche o pai de orgulho por ser um publicitário premiado – e os dois netos.

Nas pequenas coisas do dia a dia, está a inspiração para grandes viagens dos quadrinhos!

A agente de turismo que veio do espaço, por exemplo, nasceu quando sua esposa atuava como agente de viagens. Assim como a história do campeonato de aviões de papel foi inspirada nas tardes de brincadeiras com os netos. O avião que sempre retornava do voo antes do destino era chamado pelo avô e a criançada de “Volta”. Nos quadrinhos, ganhou o “r” típico da fala do Chico Bento. É o “Vorta”, envolto em nostalgia pelo seu criador.

Gerson escreve histórias da Turma da Mônica há 18 anos

Gerson conta que desenha desde criança. Não sabe estimar quando começou. Sente que “sempre” desenhou, desde que consegue se lembrar da infância, alimentando o sonho de ser ilustrador.

Por volta dos 16 anos, seu pai faleceu. A adolescência, então, precisou dar lugar às responsabilidades. Era preciso trabalhar. Pegou uma porção dos desenhos que tinha feito, buscou o endereço da Editora Abril e, depois de três ônibus, chegou até lá com a cara e muita coragem.

Foi recebido por um homem chamado César que o aconselhou: “Os desenhos são bons! Treine mais um pouco e volte aqui”.

– A maioria não dá ouvidos para esse tipo de resposta. Eu dei. Continuei treinando.

Acolheu e guardou o conselho. Antes de voltar à Abril, porém, trabalhou em uma empresa de Publicidade e como desenhista de uma grande concessionária.

Em 1978, com 19 anos, soube que havia uma concorrida vaga para trainee de assistente de arte na editora. Enviou um desenho e foi aprovado. As funções, entretanto, se limitavam a assessorar a equipe.

– Eu era o assistente do assistente!

Cheio de vontade de desenhar, deixava suas obras espalhadas pela mesa na esperança de que, algum dia, alguém as notasse. Enviou uma história para o editor, que sequer deu resposta. Mas outro chefe viu: “Do desenho não gostei, mas a piada é boa”.

Gerson foi convidado, então, para escrever roteiros. Um pouco a contragosto, já que sonhava em ser ilustrador, decidiu tentar. Sua primeira história, “O outro lado do meio dia”, foi inspirada em uma obra de Sidney Sheldon.

Pouco depois, aos 20 anos e seis histórias publicadas, ganhou o Prêmio Abril de Jornalismo. Mostra o troféu na estante do escritório onde nascem as histórias que percorrem o mundo.

– Eu recebi o prêmio das mãos do governador do Estado. Foi um grande incentivo!

Gerson escreve histórias da Turma da Mônica há 18 anos

Trabalhou por quase 20 anos na Abril. Nesse período, se casou e teve um filho. Por volta 1997, a editora deixou de publicar almanaques produzidos no Brasil e Gerson perdeu o emprego. Mais ou menos na mesma época, ele e a família vieram morar em Ribeirão Preto, contrariando os conselhos.

– Viver de cultura no interior é muito difícil! Muita gente achava que não iria dar certo!

Fez alguns trabalhados autônomos, criou o macaquinho “Nikito”, da bolacha de mesmo nome, e tentou, por algumas vezes, contato com Maurício de Sousa.

Conseguiu depois de três anos, quando já pensava que não iria dar certo, com a ajuda de um amigo. Todas as histórias que havia enviado e que antes foram recusadas por outros integrantes da equipe, agradaram Maurício.

Gerson passou a integrar a equipe da Turma da Mônica em 2000. Permanece ainda hoje, levando humor e inspiração para miúdos e grandinhos.

Gerson escreve histórias da Turma da Mônica há 18 anos

O roteirista diz que gosta de contar sua história em escolas, faculdades, para jovens que precisam acreditar no sonho.

– Eu corri atrás. Se você tem um sonho, precisa correr atrás.

Diz que poucos amigos artistas conseguem viver da arte de quadrinhos, como ele faz. No interior, então, o número é ainda mais limitado.

– Em outros países, há uma valorização maior da cultura, mais oportunidades.

Mas não se imagina em outra profissão que não seja a de criar histórias fantásticas.

No começo, sua esposa se assustava. Acordava na madrugada e cadê Gerson que não estava na cama? A inspiração nunca teve hora para surgir!

Conta o dia em que precisou encontrar uma solução para um quadrinho alterando minimamente o desenho. O roteiro era sobre o He-man. Gerson foi informado, erroneamente, de que um dos grandes vilões da história era amigo do herói. Terminou a história com os dois, lado a lado, comemorando.

Quando o quadrinho já estava na gráfica veio a ligação pedindo que ele encontrasse uma solução, sem precisar alterar toda a história. A ideia veio em plena madrugada!

– Eu coloquei uma corda, que fez parecer que o He-man havia prendido o vilão e estava levando o inimigo preso!

 

Tem um jeito de criar todo próprio. Faz o primeiro quadrinho e, a partir dele, pensa os próximos, sem amarras na criatividade.

Revela que o chefe, Maurício de Sousa, tem uma série de regrinhas para as histórias. É proibido escrever a palavra “azar”, colocar bandidos, sonhos e girafas nos roteiros.

O grande objetivo é transportar as crianças para um mundo bonito.

– Uma vez ele me explicou que a maioria das crianças leitoras têm uma realidade tão difícil que precisam encontrar nos quadrinhos um mundo bom, com bons conselhos.

Gerson é fã de Maurício.

– Conhecê-lo é muito legal! Ele é carismático, simpático, sempre me deu muito apoio. É humano!

Não são raras as vezes em que Gerson é descoberto como o criador de histórias que marcaram uma infância, uma adolescência.

Aconteceu outro dia mesmo, com um jornalista aqui de Ribeirão. A história que marcara sua infância tinha o Mickey em um planeta extraterrestre, com nome de “Patrulha Estrelar”. É a preferida de Gerson, aliás.

Quando o jornalista soube que ali estava o criador da obra, foi impossível conter a empolgação – e a emoção.

– Ele tinha um exemplar do quadrinho guardado em casa. Caiu uma lágrima do olho dele!

Esse é o tipo de retorno que faz cada história valer a pena.

 – É muito bom fazer parte da vida das crianças e saber que as histórias que eu escrevo podem mudar as coisas. É uma forma de as pessoas verem o mundo de outra perspectiva.

Gerson escreve histórias da Turma da Mônica há 18 anos

A crise das livrarias e a predileção pelo digital fazem Gerson questionar o futuro dos quadrinhos.

– É preocupante. Muitas pessoas começam a ler com quadrinhos. Se não houver mais essa leitura, como faz?

Ele continua fazendo sua parte. Criando e dando asas às múltiplas imaginações.

Recentemente, lançou, pelo projeto HQ Ribeirão, o quadrinho do “Chico Lorota”, um caipira do interior de Ribeirão Preto com muita “prosa”. Também abriu uma empresa para a criação de quadrinhos corporativos. E tem uma lista de boas ideias que quer transformar em realidade.

A mesma certeza impulsiona o lápis de Gerson sobre o papel há mais de 40 anos. Descubro, então, que compartilho com ele mais do que os quadrinhos da infância.

– O mundo é cheio de histórias!

A de Gerson é uma das fantásticas!

 

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Nos ajude a continuar contando histórias!

Mostrando 3 comentários
  • ANA PAULA MARINI DE LIMA
    Responder

    História incrível! Eu era fã do Gerson e agora conhecendo sua história, vou montar o fã clube!
    A melhor das lições: não se deve deixar de ir atrás dos sonhos!
    Daniela, Parabéns! Texto maravilhoso!

  • Luís Menechino
    Responder

    Belíssima reportagem! Com ela podemos conhecer um dos maiores e melhores roteiristas do Brasil.

  • André Chaves
    Responder

    Ler essa história é mesmo uma inspiração. Sempre adorei desenhar, uma prática que tenho até hoje. Ser ilustrador de quadrinhos é um sonho antigo que nunca consegui realizar e os trabalhos que fiz foram freelance, mas sempre quis saber como todo o processo funciona e o que precisaria fazer para chegar a ser um Gerson na vida.

    Sobre o futuro dos quadrinhos na era digital, e da leitura como um todo, é difícil prever. Pessoas que viveram a época pré-boom da internet nunca vão abandonar totalmente o hábito de sentir as páginas de um livro ou revista nas mãos e folhear numa cadeira. Para quem “conheceu” o prazer a leitura a partir de 2010 em diante, as plataformas digitais (tablet, celular…), é difícil dizer, mas ler quadrinhos se tornou uma prática bem mais acessível. Tanto que filtrar histórias de gostos e com direcionamentos diferentes é um problema muito maior.

    Minha preocupação não é com o futuro dos quadrinhos, eu creio que, no papel ou no computador, eles sempre terão lugar. Me preocupo é com o tipo de leitor que está se formando no país.

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