Gilberto Abreu: trajetória feita de educação, literatura e política

O dinheiro veio da venda de verduras. Um vizinho convidou o menino Gilberto para o trabalho, prontamente aceito. Ele se lembra que tinha por volta dos 13 anos. Estava voltando para casa com o pagamento quando passou em frente à livraria.

Só teve coragem de entrar e gastar porque sabia da anuência do pai.

– Meu pai lia muito. Lia na rua, caminhando.

Naquele tempo, o mais velho de 12 filhos, as broncas eram diárias – e os safanões também. As peraltices eram resolvidas no tapa. Não nesse dia, porém.

Quando o pai chegou, viu um livro novo sobre a mesa e soube que o filho quem comprara, tomou uma decisão. “Ele não precisa mais apanhar”, foi o veredito que ainda pulsa na cabeça de Gilberto Andrade de Abreu, aos 69 anos.

 

Eu que não ia, fundo indo

tomado por uma torrente.

Senti-me levado, sumindo…

Riscando o atrás, em frente!”

 

Desde menino, a literatura é sua companheira de jornada, dentro e fora da sala de aula.

Como professor de geografia há mais de 40 anos, diz que busca ensinar a refletir, além do tecnicismo das coordenadas.

– A geografia é um amontoado de outros conhecimentos. Como professor, eu leio poemas, canções, indico livros. A ideia sempre foi oferecer aos alunos uma visão amplificada, humanista, universalista. O professor deve levar o aluno a pensar por sua própria conta.

Como leitor, tem uma lista extensa de referências e inspirações que lhe motivaram na escrita de 11 livros publicados, algumas tantas premiações e uma porção de recortes que ainda aguardam publicação. Escreveu também letras de música, e recebeu mais de uma dezena de prêmios por elas em festivais de MPB.

Como tema de seus escritos, a vida. A vida cotidiana e aquela que habita a vastidão do nosso mundo interior.

Ficou 10 dias preso na ditadura militar. E escreveu sobre o horror que é a liberdade ceifada. Homenageou Federico Garcia Lorca e escreveu: “Lorca balada louca/ a vida é bela/ mas é tão pouca”.

Retratou a Argentina no premiado “Mande beijos a Gardel”. Publicou também obras acadêmicas, discorrendo sobre neoliberalismo e pós-modernidade na última delas.

– Quanto mais concreto, mais poético. A adjetivação acaba dando às coisas uma natureza falsificada. Escrever simples é o mais difícil.

Trajetória de múltiplas rotas, se engendrou também na política. Conta que, aos 23 anos, foi secretário de Educação em Passos, sua cidade natal. Depois, atuou como vereador em Ribeirão Preto por dois mandatos e ocupou cargos de secretário municipal nas áreas de Cultura e Meio Ambiente.

– Realizado? Não! Ainda tenho muita coisa para escrever, e defender. Quem se sente realizado é porque já comprou um plano funerário. Eu até tenho um plano, mas por outros motivos. Já fez tudo? Então, pode morrer. Eu não fiz tudo.

É o autor local homenageado na 19ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, que teve início esta semana, com programação até o dia 16 de junho.

Gilberto Abreu Ribeirão Preto

Gilberto passou a infância entre Passos e Franca. A família acompanhava as transferências de trabalho do pai, que era bancário e alfaiate.

Nas lembranças de infância, o futebol é vivo.

– Nós acompanhávamos as copas do mundo pelo rádio.

Em 1962, com os jogos televisados, Gilberto, aos 12 anos, já trabalhava em uma loja e inventou uma mentira inofensiva. Era dia de jogo e ele tinha que trabalhar. Durante a entrega de alguns sapatos, simulou um acidente com uma Kombi.

O patrão decretou a folga, então. E o levou para casa. Mas a avó não demorou a perceber a farsa. Quando o Brasil conseguiu empatar com a Espanha – e depois virar o jogo – o menino deu um baita pulo do sofá. “Sem-vergonha!”, a avó foi ralhando.

Gilberto quis ser jornalista. Conta que chegou a prestar o curso e a iniciar as aulas, em 1969, em Belo Horizonte. Quando um amigo repórter foi morto, em plena ditadura militar, decidiu voltar para Passos e procurar algo “menos comprometedor”, em suas palavras.

Não cumpriu tão bem a meta. Por volta de 1970, aos 20 anos, acabou voltando para Belo Horizonte, para um curso de magistério. Em 1971, escreveu uma música para um festival e teve sua letra censurada. Uma semana depois, em 23 de julho, dia do seu aniversário, relata que seu apartamento foi invadido pelos militares, que o levaram preso.

Foi interrogado e passou 10 dias na cela. Não voltou para Passos para comemorar e não pôde dar notícias para a família, inundada de preocupações.

– Foi traumático. Eu não fui torturado, mas ouvi a tortura. Quando o carcereiro chegou e falou meu nome, no último dia, eu estava com algodão no ouvido para não ouvir a tortura. Levantei em slow motion. Achei que seria torturado.

Foi solto, mas continuou sendo vigiado.

– A fama de comunista continuou. Eu comecei a lecionar e eles chegaram a dizer que meus alunos copiavam as aulas de caneta vermelha. A diretora gravava as minhas aulas.

Chegou em Ribeirão Preto por volta de 1977. Em 1978, começou a dar aulas de Geografia no COC, que hoje é grupo SEB. Em um primeiro impacto, não gostou muito da experiência. Chegou a cogitar ficar um mês e logo sair.

– Estou lá até hoje. Devo ter dado aulas para umas 80 mil pessoas.

Mudou de ideia. Primeiros impactos podem ser transitórios e, nesse caso, equivocados.

Além do COC, ministrou aulas em outras escolas também. Mas sem deixar essa sua primeira “casa letiva”.

 

Um amor em torvelinho

outro qualquer, lassidão

Um vem e arde quietinho

outro é fenda no meu coração”

 

Hoje, Gilberto Abreu já não ministra tantas aulas como antes. Se dedica a apresentar um programa na TV Thati, “Lugares de Memória”, onde resgata as histórias de espaços importantes na trajetória de Ribeirão Preto.

– Eu sempre compreendo o passado como uma forma de preparar o futuro. A história nos explica e nos orienta.

No dia da entrevista, 15 de maio, contou, todo animado, que havia participado do protesto em defesa da educação pública, na Praça XV, e muitos alunos vieram lhe cumprimentar.

– Quando o aluno passa a pensar com autonomia, o professor dispensa-se de ser importante. O professor não deve passar emoções para conquistar os alunos, e sim inteligência, lucidez. Eu já chorei umas mil vezes dando aula. O professor não deve converter. Deve ensinar e abrir caminhos. É um pastor de projetos. Mas não os seus projetos. Os dos alunos.

Apesar da frequência menor, não deixa a sala de aula.

– Enquanto eu viver e minhas pernas puderem aguentar… sinto a maior satisfação.

Coração feito de letras, tem espaço para duas paixões.

– São coisas diferentes, mas que dão a mesma satisfação.

Está escrevendo um livro sobre Baruch Espinoza, mas não consegue finalizar a obra.

– Não gosto de escrever sobre um lugar que não tenha visitado. Para descrever a cidade, eu preciso sentir a cidade. Terei que ir à Amsterdã.

Passamos, então, uns bons minutos falando sobre a complexidade de pensamento do filósofo, as ideias de Espinoza sobre Deus e o Universo. Sua concepção, tão criticada pela igreja católica, de que Deus é a natureza. O livro já tem nome, mesmo sem previsão de fim: “O polidor de lentes”. Gilberto explica o porquê:

– Ele tinha um ofício, desde criança. Era um polidor de lentes. A metáfora é essa: ‘Se a filosofia não pode aumentar o entendimento das pessoas, que elas pelo menos mudem as lentes’. Ele falou algo assemelhado. O que eu entendi foi isso: ele fez da vida dele uma maneira de aumentar o entendimento das pessoas.

Dos cinco filhos de Gilberto, quatro tiveram seus nomes inspirados em autores russos. Conta, com orgulho, que nesta quinta-feira, 13 de junho, irá receber o título de cidadão ribeirão-pretano, enquanto participa da Feira do Livro.

Diz que deixou a Câmara de Vereadores decepcionado.

– Eles priorizavam interesses que não eram públicos. No último dia, eu disse que tinha vergonha de ter participado.

Não recusa, porém, a possibilidade de volta.

– O filósofo José Ortega diz que o homem é o homem e sua circunstância. Vai depender da circunstância…

Preocupado com o cenário político atual, vê no trabalho intelectual a melhor forma de combate.

– Nosso papel? É o de reagir. É lamentável que tenhamos que retornar a um tipo de luta dessas, contra o obscurantismo. O problema é que a democracia é sempre frágil e está em crise no mundo por um problema de representação. As pessoas não se sentem representadas.

Segue acreditando. Sempre. Cita os pensamentos de Voltaire, Gramsci e formula o seu próprio:

– O pessimismo é uma arma crítica para a gente buscar uma circunstância otimizada. Nós não vivemos no melhor dos mundos.

Segue, então, reagindo e acreditando.

Já escreveu, afinal, que o aprendizado vem da luta:

Da laranja, o sumo sabe o sangue

Da cana, verde é o suor seu suco

Caranguejo, visto a lama no mangue

Quebrando pedras onde me educo.”

 

*Em destaque estão trechos de poesias escritas por Gilberto

 

Assine História do Dia por R$ 13 ao mês ou faça uma doação de qualquer valor AQUI!

Nos ajude a continuar contando histórias!

 

Deixe um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar

Camilo Xavier Ribeirão Preto