Há 28 anos, Tyto vende seu incenso na noite ribeirão-pretana

– Quer levar uma lembrança de Ribeirão?

Com o convite, ele vai passando de mesa em mesa.

“Aqui tem incenso Nitya Kala”, avisa o cartaz pregado na bolsa onde Tyto coloca os produtos que oferece.

– Temos também a linha bomboniere!

Responde à moça que pede um amendoim.

A quem dá um dedo de prosa, Airton Cardoso da Silva revela o diferencial do incenso e da cerveja que vende.

– Sou eu quem faço!

No rótulo, o marketing pessoal tão bom quanto a simpatia do vendedor: “Qualidade Tyto”. Fica difícil de resistir.

Há 28 anos, a rotina de Tyto é a mesma. Todas as noites, percorre os bares da cidade com sua motinha. Estaciona e sai vendendo de mesa em mesa.

Rotina que, na prática, não tem repetição.

– Cada noite é diferente da outra. Eu converso com as pessoas, fico à vontade, faço muita amizade, revejo amigos de infância e parentes sumidos. É muito legal!

Quando começou a produzir o incenso, em 1982, com pesquisa e vontade, o objetivo era ter uma grande empresa, com estoque “colossal”, como diz.

No meio do caminho, foi mudando a rota. Diz que a burocracia para um negócio tão grande é igualmente enorme. E garante:

– Hoje eu me sinto felicíssimo mesmo. Porque minha produção é sem dor de cabeça nenhuma, sem preocupação. É simbólico!

Conta do casal que se formou com a compra do incenso e acabou virando casamento. Do homem que rasgou, sem qualquer explicação, as caixinhas que oferecia em um bar da avenida 13 de maio. Das gargalhadas que as vendas rendem.

– Eu acredito que sou um dos vendedores mais antigos da noite de Ribeirão Preto!

Aos 59 anos, quase 30 de mesa em mesa, ele é parte da tradição mais forte da cidade.

Cerveja gelada, um petisco regado à boa música e, logo menos, chega o Tyto: eis a noite ribeirão-pretana.

Tyto incenso Nitya Kala Ribeirão Preto

“Nascido e criado” em Ribeirão, como diz, teve pai pintor e mãe feirante. Começou a trabalhar bem cedo.

Antes de vender incensos,  passou 10 anos como garçom. Fala que, bem por isso, gosta tanto da noite.

– Eu tenho minha tribo, sabe? A tribo da noite!

Conta que voltou a estudar depois de 30 anos longe da escola. Parou na adolescência, para trabalhar.

O objetivo era terminar o Ensino Médio e seguir pela carreira de químico que, na prática, ele começara a conhecer.

– Para produzir os incensos, eu fui anotando as fórmulas, reduzindo um produto, colocando outro até acertar. Quando envolvia cálculos, eu pedia ajuda para os universitários. Tive muita ajuda da USP.

Terminou o colegial, mas conta que deixou a faculdade de lado pela burocracia que envolvia uma produção em larga escala. Decidiu, assim, continuar um pesquisador autodidata.

A ideia de produzir incenso surgiu no começo da década de 80, trabalhando na loja de produtos naturais de um amigo. Tyto diz que, na época, o produto era raro no mercado brasileiro.

Sem internet, norteava suas pesquisas em livros, vasculhando bibliotecas de Ribeirão e região.

 – É uma obra de alquimia em nível artesanal.

O nome vem do sânscrito.

– Quer dizer tempo eterno. O sânscrito varia de acordo com o tempo, a circunstância e outras coisas.

Tyto garante que seu incenso é feito com “óleos essenciais naturais”, que busca em Barra Bonita, com a ajuda de amigos. Conta também que tem 25 aromas diferentes, feitos com matéria prima que só encontra em São Paulo.

– Eu sou o único no mundo que produz incenso católico, com a goma de olíbano.

A boa publicidade vem da paixão que coloca no fazer.

– Eu digo que o incenso exige esforços exotéricos e esotéricos. Assim mesmo: com x e s. Exotérico para as coisas que vêm de fora, externas. E esotérico para o esoterismo, o que está dentro. Eu busco fazer o incenso com um grau de pureza maior.

Consegue produzir três mil varetas do incenso Nitya Kala por vez, em três dias de trabalho. Faz o estoque com essa quantidade e só volta a produzir quando consegue vender tudo. Não sabe dizer, porém, quanto tempo leva.

– Eu coloco na bolsa e saio vendendo. Não fico somando. Com o que ganho, dá para tocar o barco da vida.

Tyto incenso Nitya Kala Ribeirão Preto

Tyto é do tipo “fuçado”.

Diz que tempos atrás participou de uma semana de Direito na USP porque sentiu que seu conhecimento em legislação estava pouco.

Com a internet, as pesquisas que antes fazia em bibliotecas ficaram ao alcance do clique.

– Muito melhor agora! Descobri até que existe a Nossa Senhora do Incenso! Coisa que passei a vida sem saber!

Estudando sobre marketing e negócios no Sebrae e em jornais, descobriu que algumas balas e chicletes estavam entre as marcas que mais habitam a cabeça das pessoas.

– Daí, surgiu a ideia de vender a linha bomboniere também!

Há quatro anos, ainda nos estudos, entendeu que é preciso reciclar sempre.

E, então, decidiu fabricar e vender a própria cerveja.

O nome, Níger, é inspirado em uma das principais cervejas fabricadas pela Companhia Cervejaria Paulista em Ribeirão Preto, na década de 70.

– Para mim, é um nome fantasia. Quer dizer “não contém sementes pretas do níger para pássaros”.

Tem suas teorias e convicções.

Quer continuar vendendo e fazendo amigos de mesa em mesa.

Agradece aos donos de bares e restaurantes, que estão sempre de portas abertas à sua venda. E elegeu o ‘Bar do Chorinho’, no Jardim Macedo, como um dos pontos preferidos.

Por ali, passa todos os dias.

– É um pedacinho do Rio de Janeiro!

Em  casa, não deixa de acender um dos seus incensos. O aroma preferido soma rosas e vinhos. Com a boa propaganda na ponta da língua, diz que é mais um na categoria “exclusividade Tyto”.

– Eu adoro incenso! É eficaz contra o estresse de qualquer tipo. Inclusive esse moderno nosso.

Vai embora com a mesma simpatia que chegou, agradecendo, exalando – assim como os incensos que vende – bons fluídos.

– Incensos Nitya Kala: uma lembrança de Ribeirão!

Tyto imposta a voz e sai de mesa em mesa fazendo a sua locução.

Na noite ribeirão-pretana, ele não pode faltar.

 

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Comentários
  • Rodrigo Viudes
    Responder

    Que camarada adorável. Vou conhecê-lo qualquer hora dessas quando estiver na querida terra do chope… ou melhor, da Níger, por que não?

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