Há 56 anos, Maria Ignez é assistente social da Prefeitura de Ribeirão Preto

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play: 

 

Nesta semana, passeando pelo shopping, Maria Ignez encontrou uma moça, com seus 48 anos, que foi sua aluna em um projeto social quatro décadas atrás.

“Você não mudou nada”. Foi reconhecida, mesmo depois de tanto tempo. E diz que não é a primeira vez. A cada quando, cruza com um dos tantos meninos e meninas que procurou acolher – agora, já crescidos.

– Ser assistente social é trabalhar a pessoa com seus direitos e obrigações, na perspectiva de que ela viva da melhor forma possível.

Quando se formou, a profissão ainda era novidade. Conta que entrou na Prefeitura de Ribeirão Preto em, como técnica, no Serviço de Assistência à Saúde dos Municipiários (Sassom). Afirma que foi a primeira assistente social do município.

Hoje, aos 81 anos, continua trabalhando, sem vontade de parar.

Mantem corpo e mente em atividade. Pilates, hidroginástica, personal trainer e um curso focado na memória, que já pratica há um ano, exercitando o cérebro. Quer continuar lembrando em detalhes – e compartilhando – a história que escreveu.

– Eu me sinto privilegiada pela minha lucidez de vida. Fui pobre, muito pobre e não foi motivo para parar. Tive paralisia facial de criança e não foi motivo para parar. Sempre estive na linha de frente.

Como funcionária da prefeitura, Maria Ignez Farinha conta que ajudou na realização do primeiro concurso para contratações de assistentes sociais de Ribeirão Preto e, em 1982, participou da implementação da Secretaria do Bem-Estar Social, que passou a se chamar Secretaria Municipal de Assistência Social nos anos 2000.

Foi também coordenadora na unidade ribeirão-pretana da Legião Brasileira de Assistência, órgão de atuação nacional, que fomentou as políticas de assistência social no Brasil.

Os projetos e ações que implantou em mais de 50 anos de trabalho, somando forças com a atuação nos dois órgãos, rendem lista extensa.

Cita alguns, que tiveram maior destaque na memória. A criação das associações de moradores; a implementação do pré-natal nos bairros, com grupos de gestantes, quando o SUS ainda era só um projeto; a formação de profissionais para atuação em creches filantrópicas de toda região; a qualificação profissional de jovens e adultos com a educação integrada. Este último a levou para o Acre, em 1973, onde passou um mês trabalhando para a implementação de projetos de educação.

Os casos que mais marcaram são assim: no plural. Não consegue citar uma só entre tantas histórias que viu serem transformadas com assistência.

– É você trabalhar a favor de políticas públicas de atendimento à família, ao ser humano, com a concretização de seus direitos e suas obrigações, com olhar para a formação e transformação da vida.

Maria Ignez Farinha Assistente social Ribeirão Preto História do Dia

A família se constituiu driblando os problemas e as contas apertadas com trabalho. Eram em 14 irmãos. Quando Maria Ignez tinha 11 anos, seu pai morreu e a mãe precisou dar conta da casa, com quatro filhos ainda crianças.

A oportunidade de trabalho surgiu na feira livre. A família vendia vasos e plantas. Todos acordavam às quatro da madrugada, com as funções dividias. A de Maria Ignez era pintar os vasos de barro, que, pelo diferencial do colorido, faziam sucesso com a clientela.

Apesar da dureza dos dias, a mãe sempre manteve a delicadeza do afeto. Acordava os filhos com fala mansa e um café já quentinho esperando. Fez questão de que todos estudassem, apesar do trabalho. O pai também era assim.

Maria Ignez relembra que, no primeiro ano da escola, ele a acompanhava para carregar a bolsa pesada de livros. Depois, quando já havia concluído o magistério e começou a dar aulas, era a mãe quem ia junto, para que a filha não voltasse sozinha a noite.

De tanto assistir as aulas da filha, foi alfabetizada por ela. Maria Ignez realizou a grande vontade que a mãe tinha de aprender a ler e escrever.

– Ela falava para todo mundo: ‘Minha filha que me ensinou! Aprendi com ela’”.

Foi a irmã quem despertou seu interesse para a profissão focada em fazer o bem. Ela era freira e Maria Ignez diz que só conseguiu recursos para estudar em Campinas porque morava no pensionato e trabalhava para as freiras, além de ter conquistado uma bolsa na faculdade.

Além da influência da irmã, ela conheceu um pouco sobre a assistência frequentando o projeto social da Escola Madre Mazzarello, que oferecia atividades diversas no contraturno escolar.

– Como a gente não tinha lazer, era o que eu mais gostava por lá. Eu tinha colegas, jogava queimadas, fazia orações. Foi muito importante na formação de crianças e adolescentes.

Entrou na faculdade por volta de 1958, aos 20 anos. Quando saiu, em 1963, diz que tinha três possibilidades diferentes de trabalho. Escolheu voltar para Ribeirão Preto para estar perto da família. Em setembro do mesmo ano, iniciou os trabalhos na prefeitura e em 1967 passou a somar turnos, com o trabalho na LBA.

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Maria Ignez viu a assistência social ser transformada. De filantropia se tornou política pública, regulamentada por lei e fortalecida em secretarias. Também viu Ribeirão crescer – junto com a desigualdade. Fala que quando começou a cidade tinha quatro favelas. Em 2017, de acordo com levantamento da prefeitura, eram 96, abrigando mais de 40 mil pessoas.

– A assistência começa como paternalismo e evolui para a parte técnica. Hoje, já estamos em um ponto bem mais avançado de assistência.

Participou das diferentes fases. Entrou no Sassom, viu surgir a diretoria de assistência, que foi transformada em coordenadoria até ser, enfim, secretaria.

– O mais importante é estar presente em diferentes épocas da vida profissional na assistência social. Do início do serviço em Ribeirão à confiança que tiveram em que eu continuasse.

Na ditadura militar, precisou driblar a censura e a politicagem.

– A gente sobreviveu a esse tempo procurando trabalhar a questão social. Havia muita repressão. Várias pessoas das nossas relações foram presas. Eu foquei em aumentar o atendimento, com educação. Consegui recursos para a compra de material para os filhos dos funcionários. O meu foco era que eles tivessem o melhor para estudar.

Viu a redemocratização do País e quando o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) foi criado, em 1990, fez parte do primeiro Conselho Municipal da Criança e do Adolescente. Em 1993, deixou a LBA, que foi extinta em 1995.

Conta o caso de uma jovem, adolescente, que estava se prostituindo. A decisão da assistência foi levá-la para uma instituição de acolhimento em São Paulo. Maria Ignez a acompanhou na viagem de ônibus. Décadas depois, a jovem a procurou na prefeitura para lhe dizer que estava bem, casada, feliz. Ela não havia ficado na instituição, porém. Fugiu para Goiás, onde conheceu o marido e conseguiu estruturar a vida.

– A gente erra. Erra mesmo. Faz coisas erradas, mas também faz muitas coisas boas. Meu olhar sempre foi na formação. A reflexão é muito importante. Refletir sobre os erros, acertos e respeitar o momento do outro.

Se aposentou em 1993. Teve um companheiro e não tiveram filhos. Deixou a prefeitura e tentou se lançar em um novo mercado, vendendo roupas. Durou alguns poucos quatro meses. Soube que a prefeitura estava precisando de equipe para o Plano Diretor e mandou currículo.

Há 26 anos, então, trabalha na Secretaria de Planejamento, como comissionada. Atualmente, atua na questão da moradia, participando de projetos como “Moradia Legal”, que visa a implantação de políticas públicas, além de realocação de famílias que vivem em favelas.

Diz que só irá parar quando tiver estruturado o projeto voluntário que pretende desenvolver. Pensa em trabalhar a memória com idosos. A memória que sua mãe viu se esvair, com o Alzheimer. E que ela faz tanto para preservar.

A memória que garante que sua história – feita de tanta assistência e entrega – seja contada.

– Desde menina eu trabalho para estar ligada a todas as coisas. Eu sou muito presente, essa é questão.

 

Nota

História do Dia questionou a Prefeitura de Ribeirão Preto, por meio da assessoria de imprensa, sobre o fato de Maria Ignez ser a assistente social mais antiga do município, além da data em que foi realizado o primeiro concurso para assistente social do município, porém não houve respostas.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Mostrando 2 comentários
  • Mestry Badahra
    Responder

    Registro minhas emoções , somando a de todos que acompanham, esta Feliz narrativa, realizada sobre a Trajetória exemplar desta Guerreira em seus objetivos abençoados em relação ao Próximo .
    Dando um Destaque, de uma Das Abençoadas sugestões , do Mestre dos Mestres, que sugeri-o A Fraternidade Cristã , Aplicada nestas ações relatadas A :
    Assistente Social M A R I A I G N Ê Z Que presta serviços na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP )

    Nossas Palmas , e sinceros parabéns
    Mestry Badahra

  • Marco Antônio Badaró Athayde
    Responder

    Registro minhas emoções , somando a de todos que acompanham, esta Feliz narrativa, realizada sobre a Trajetória exemplar desta Guerreira em seus objetivos abençoados em relação ao Próximo .
    Dando um Destaque, de uma Das Abençoadas sugestões , do Mestre dos Mestres, que sugeri-o A Fraternidade Cristã , Aplicada nestas ações relatadas A :
    Assistente Social M A R I A I G N Ê Z Que presta serviços na Prefeitura de Ribeirão Preto (SP )

    Nossas Palmas , e sinceros parabéns
    Mestry Badahra

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