Há 57 anos, Antônio, conhecido como Zarur, corta cabelos no Santa Cruz

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Quando Antônio chegou ao bairro Santa Cruz do José Jacques, zona Sul de Ribeirão, as ruas eram de terra e poucas casas ocupavam a área, que hoje é tomada por edifícios de todo tipo.

Escolheu se arriscar na região ainda vazia porque sentia “uma formiga mordendo” dentro de si, como diz. Depois que abriu seu primeiro salão na avenida Portugal, em frente à paróquia São João Batista, a tal formiga sossegou.

Está há 57 anos no bairro, cortando cabelos de quatro gerações de uma mesma família.

Depois de 13 anos na avenida, construiu um novo espaço: salão colado à sua casa, na rua Humaitá, mesmo bairro. Está no mesmo ponto desde 1974, sem cogitar qualquer mudança.

– Eu falo que aqui é a sala da minha casa. A gente fica conversando. Para ficar lá dentro parado, melhor ficar aqui.

Justifica assim as 13 horas diárias de trabalho. Abre às 7h e fecha às 20h. Domingo e feriado? Lá está ele esperando a clientela, que não para. Funciona até às 12h ou 13h nessas datas, dependendo do movimento.

Diz que, vez em quando, sente os pés queimarem. Os 81 anos tinham que dar um sinal, afinal. Nada que lhe faça querer parar, entretanto.

– Às vezes, quando aperta o serviço, o pé embaixo arde. Mas faz parte da vida!

Teve que começar a trabalhar muito pequeno, na roça. E, então, não conhece outra maneira de levar os dias.

– Teve muita gente que ficou careca aqui comigo! Começou com cabeleira vasta e hoje não tem mais nada!

Entre um fio e outro, que vai cortando com a tesoura e o pente – técnica antiga –, solta uma frase bem-humorada para descontrair os clientes que esperam. Em duas horas de uma tarde de segunda-feira passaram cinco por ali.

Antônio Zarur barbeiro Ribeirão Preto Santa Cruz

O salão é pequeno. Duas cadeiras para cortar, algumas na lateral para a espera, “ferramentas”, como ele diz, penduradas e em cima do balcão e uma seleção de mensagens espalhadas pelas paredes.

Para onde se olha há uma citação sobre a evolução, o caminho, a caridade.

Antônio Quarto conheceu a Legião da Boa Vontade (LBV) na adolescência, quando morava na fazenda e o rádio era a grande distração. Começou a ouvir os programas do radialista Alziro Zarur e se encantou. Passou a ser legionário e a seguir os preceitos da associação filantrópica que prega a paz entre as religiões e auxilia famílias de baixa renda.

Por sua grande devoção ao radialista, é conhecido no bairro Santo Cruz como Zarur.

– Se falar Antônio, ninguém sabe quem é.  

Quando tinha salão em frente à Portugal, conta que colocava falantes virados para a praça com os programas do radialista em bom som. Essa trilha sonora continua, ainda hoje, tocando no radinho do salão.

– Aqui, como é um salão espiritualizado, a gente puxa um assunto mais elevado.

Foi pela Legião da Boa Vontade que Antônio escolheu Ribeirão Preto para viver, em 1962. Mas, antes disso, há um tanto de história a ser contada!

Antônio nasceu em Santa Adélia, na fazenda onde os pais eram colonos.

Cresceu mudando de uma fazenda para outra, na região de Catanduva, acompanhando seus pais, que trabalhavam na lavoura. Fez o primeiro e segundo ano do grupo, como conta, na escola rural. Eram em sete filhos.

– Todas as fazendas com uma quantidade de crianças tinham que fazer escola. Foi onde eu conseguir estudar.

Começou a ajudar em casa bem pequenino.

– Acredito que tinha uns quatro anos. Porque nessa idade a gente já tinha atividade. A mãe colocava o arroz para secar e a gente tocava as galinhas para não comer. Dava comida para os porcos… era atividade.

Começou a cortar os cabelos entre as jornadas na lavoura.

– Foi vocação mesmo. Com 14 anos comecei com tesoura de cortar pano. Mais estragava do que arrumava.

Quando pôde, comprou as “ferramentas” e começou a trabalhar. De maneira voluntária, no início. Passou três meses cortando cabelos de graça em um salão, aos sábados e domingos, dias de folga na colheita. O dono do salão não lhe pagava nada, porém. Antônio decidiu, então, que, para trabalhar de graça, cortaria os cabelos do pessoal da fazenda.

– O Zarur falava da caridade. Então, eu comecei a cortar os cabelos de graça. Naquele tempo não tinha esse negócio do cabelo comprido. Veio depois. Então, era humilhante para um homem ficar com o cabelo comprido.

Só depois de 1960, quando a vida pediu mudanças, é que ele passou a viver do ofício. Viveu e trabalhou na lavoura até 1961, aos 23 anos. Depois que sua mãe faleceu, resolveu “sair para a cidade”:

– Foi onde comecei meu destino.

Antônio Zarur barbeiro Ribeirão Preto Santa Cruz

Passou por Rio Preto, Catanduva e depois foi para a Grande São Paulo.

– Meu irmão morava em Santo André e falava: vamos para lá, que é lugar de ganhar dinheiro.

Não se adaptou ao ritmo da capital, porém. E não queria voltar para Catanduva. Decidiu, então, que iria para Marília. Mas, quando chegou na rodoviária para comprar passagem, viu um mapa de São Paulo em um painel luminoso, bateu o olho e encontrou Ribeirão Preto.

Se lembrou, de imediato, que na cidade havia uma filial da Legião da Boa Vontade e definiu sua escolha.

– Parece que meu anjo da guarda me mostrou o caminho.

Chegou à cidade e não ficou um único dia sem emprego.

Depois de muito andar atrás de vaga para barbeiro, acabou em uma sorveteria, contratado para vender picolés com um carrinho. No dia seguinte, porém, no horário de almoço das vendas, passou por um salão e percebeu que havia mais cadeiras do que barbeiros. Foi contratado, para a sorte de quem não servia para sorveteiro.

– Na minha cidade, picolé é aquele sorvete com cobertura de chocolate. Não esse comum. Então, o pessoal passava por mim e perguntava: ‘Tem picolé?’. E eu, com o carrinho cheio, respondia que não!

Começou cortando cabelos nos Campos Elíseos, bairro onde havia se hospedado em uma pensão, na mesma semana mudou para um salão no Centro da cidade e em vinte dias já estava com seu próprio espaço, no bairro Santa Cruz.

– Uma coisa mexia comigo. Parecia que tinha uma formiga mordendo e falando: ‘Seu lugar não é aqui. É lá’.

Antônio Zarur barbeiro Ribeirão Preto Santa Cruz

Nesse começo, na avenida Portugal, conta que dormia em uma cama de campana, dentro do salão. Foi conquistando a clientela pelo horário estendido de trabalho.

– Como eu trabalhava na roça, cortar cabelo era como chupar sorvete. Então, eu cortava até meia noite, onze horas. Eu cativei o povo daqui.

Procurava também investir em “modernização”, como diz. Para a época, as lâmpadas fluorescentes que colocou na fachada já eram um grande diferencial.

– Não tinha muito dessas lâmpadas. O povo via o clarão e queria saber o que era!

Foi conquistando, ganhando movimento, e divulgando os preceitos da legião que escolheu seguir. Se casou em 1966, com a esposa que ainda hoje é companheira de jornada. Conta que procuravam sempre auxiliar os moradores do bairro.

Conseguiram comprar um carro e, então, estavam sempre dispostos a levar ao hospital quem precisasse de ajuda na madrugada. Além de outros trabalhos filantrópicos, que deixa sem enumerar. Foi se tornando, mais do que o cabelereiro oficial do bairro, querido pela vizinhança.

O cliente que aguarda conta: “Ô Zarur, o senhor cortou o cabelo até do meu avô!”. O outro compartilha: “Eu saio lá de longe, do outro lado da cidade, só para vir cortar com o senhor”. E seu Antônio fica só alegria.

Entre uma tesourada e outra, vai falando sobre o que acredita.

– A lei de Deus é a da evolução. Se a gente não conhece, acaba blasfemando. Acha injustiça que uma pessoa tenha uma dificuldade e a outra não. Na lei divina está tudo certo.

Na parede, um mapa unindo todas as religiões.

– O Zarur veio pregar a verdade e unificar as crenças. Deixar de brigas. Quando Deus fala: ‘Amais uns aos outros’ ele não está falando para católicos amarem católicos, espíritas amarem espíritas. Ele falou em geral: amar a todos!

Diz que se sente feliz com o caminho que percorreu.

– Tenho vontade de fazer ainda mais, mas se desencarnar amanhã, me sinto realizado.

A vida?

– Eu acho que é para a gente evoluir, aperfeiçoar, resgatar erros de outra existência. E prestar um serviço social. Ajudar quem passa pela provação.

Segue, então, procurando fazer o que acredita.

Entre um corte e outro, vai propagando suas ideias, compartilhando palavras de alento, sem previsão de parar.

– Até quando eu vou? Até a perna aguentar!

De um lado para o outro do salão, elas sinalizam que estão prontas para continuar.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Comentários
  • Renatto Santtos
    Responder

    Bela história. Parabéns!

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