Há 60 anos, Nair tira sobrancelha na Vila Tibério e região

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Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. 

 

 

“Nair Madona, que fazia sombrancelha na Vila Tibério e região”. Dona Nair mandou imprimir uma folha com esses dizeres e deixou na funerária onde, há anos, paga um plano. Não quer correr o risco de não ser lembrada por falta de informação.

– Isso aí qualquer um que me conhece vai saber!

Também já avisou os quatro filhos – várias vezes. Quando seu dia chegar, quer que eles peguem a agenda de telefones que é sua companheira há 40 anos e liguem nome a nome, um por um. Não quer correr o risco de uma das clientes fiéis achar que ela esqueceu o dia do encontro e sumiu sem dar satisfação.

– É para eles falarem: “Você é cliente da Nair? Ela faleceu e o velório é na sala tal”.

É bem específica. Quer ser lembrada pela profissão que, há 60 anos, é dia a dia, ganha-pão e – por que não? – alegria.

– Eu gosto do meu serviço. Amo o que faço e faço com carinho. Tenho uma boa amizade.

Nair Madona sobrancelha Ribeirão Preto

Nair Tomazine Madona começou a tirar sobrancelhas por acaso. Trabalhava na casa de uma família desde os onze anos. Via a patroa e suas filhas tirarem os fios com uma pinça ou irem ao salão e se virava com o que tinha: os dedos e as unhas.

Imitava uma pinça e ia arrancando seus próprios pelos, modelando a sobrancelha com a mão. Um dia, com seus 15 anos, pediu que a patroa lhe emprestasse o instrumento. “Deixa eu tirar a sobrancelha de vocês!” Pedido aceito, profissão iniciada.

Nair nunca mais parou.

No começo, atendia as mulheres da casa, as vizinhas, algumas parentes. Depois, foi aumentando. Passou um ano trabalhando em um salão na Vila Tibério. Foi seu único “curso”, como diz. Ali, aprendeu um pouco do que a prática terminou de ensinar.

Ela estima que tem entre 60 e 70 clientes fixas, além das que surgem como novidade. Aos 75 anos – 76 no mês que vem – briga com os problemas no joelho, que vieram após enfrentar um câncer de mama dois anos atrás, porque não quer deixar uma só cliente sem atendimento.

– Meus filhos pedem para eu parar e eu falo que se eles quiserem me pôr no buraco eles me colocam em casa sem fazer nada. Eu brigo com os médicos porque quero um remédio que me cure.

Nunca aprendeu a dirigir. Diz que tem problemas para memorizar coisas. Foi o veredito de uma professora, quando tinha 11 anos. Decidiu, então, parar de estudar e foi trabalhar como doméstica.

A vida foi feita de trabalho e força.

Sem carteira de motorista, vai até a casa das clientes de ônibus. Trabalha de segunda à sábado e chega a fazer 10 sobrancelhas em um só dia. Só na sexta-feira o número de ônibus por dia diminui para dois. Nos outros cinco dias, pega pelo menos quatro conduções para visitar a clientela na Vila Tibério, Monte Alegre e Sumarezinho.

Nunca teve um salão. Sempre atendeu assim, em sua casa ou na casa das clientes. E acha isso bem bom. Sai já sabendo em qual casa vai tomar um café, em qual será o almoço. É esperada pelas clientes.

Depois de tantos anos, é mais do que limpar os fios da sobrancelha e só. Atende quatro gerações de uma mesma família. A mais antiga é a filha de sua patroa, aquela que foi uma das primeiras clientes, quando Nair tinha 15 anos.

– Tornou-se uma amizade. Muitas amizades!

Os instrumentos nunca mudaram: pinça e gilete. Explica que tira primeiro o excesso com a pinça e depois vem acertando com a gilete, para o acabamento.

– Esse é o meio jeito e eu não vou mudar. Faço isso há 60 anos!

O preço é R$ 10. Também se mantêm o mesmo há bastante tempo. Anota as finanças em um caderninho tão antigo como a agenda, que já nem tem espaços em branco.

Nair Madona sobrancelha Ribeirão Preto

Não dá vontade de ir embora. Conversar com Nair é risada na certa. Ela passa receita de macarrão italiano que aprendeu com a sogra, conta algumas peripécias amorosas, narra sua trajetória de tanto trabalho com leveza e, então, transforma as dores em sorrisos.

Cresceu na roça, em Serrana. A família – pais e três filhos – veio para Ribeirão quando ela tinha 10 anos. Aos onze parou de estudar e foi trabalhar como diarista em uma casa, de onde só saiu para casar, de 19 para 20 anos.

O casamento foi bom por três meses. Depois, virou martírio. O marido saía sozinho, não participava das finanças da casa e não aceitava que ela trabalhasse em salão. Por isso, começou a tirar as sobrancelhas nas casas das clientes. Também fazia e vendia salgadinhos, para complementar as rendas.

– Eu criei meus filhos sem marido, bem dizer. Fazendo sobrancelha e salgado.

Depois de 15 anos, ele abandonou a casa para viver com outra mulher. Nair seguiu firme. Oito anos depois, chegou a ter outro companheiro. Durou quatro meses. Quando ele começou a querer controlar o que ela gastava ou deixava de gastar, arrumou as malas e foi embora.

Desde então, vive nas casas dos filhos. Se divide entre um e outro, dormindo uma noite aqui outra ali, sempre bem-vinda.

– Eu tenho a casa dos meus quatro filhos! Fui viajar com as noras e me dou muito bem com elas!

Nair Madona sobrancelha Ribeirão Preto

Nair não tem medo de homem brigão. Nem mesmo quando é caso de assalto. Conta que brigou duas vezes com os ladrões. Em uma delas, o bandido a abençoou antes de ir embora: “Que Deus lhe abençoe, tia”.

Onde vai, procura sempre deixar uma marca de bem-estar quando sai. Na casa de um dos filhos lava as louças, na de outro passa as roupas. Não consegue ficar parada: todos tiveram que se acostumar.

Quando teve o câncer, brigou com o médico. Depois da cirurgia, a indicação foi para a quimioterapia. Ela precisaria deixar de trabalhar, poderia ficar de cama durante o tratamento.

– Não faço mesmo! Depois de um mês na cama, vou morrer de infarto pensando nas clientes que eu não posso atender!

Tanto insistiu que o médico decidiu aumentar o número de radioterapias e tentar. Teve alta quando ainda faltavam cinco sessões. Continua em observação e, a muito contragosto, tira folga em duas segundas-feiras no mês para ir aos médicos.

– Eu não liguei e não ligo. Eu penso: tenho quatro filhos, sete netos e seis bisnetos. Amanhã, quando eu falecer, eu já curti. Então, não penso na morte.

Diz que leva a vida assim: sem lhe dar demasiada importância, mas com bastante empenho.

– Eu tenho amor à vida e sempre entreguei para Deus! A vida é muito boa. Eu não esquento a cabeça com as coisas. Só fico triste quando preciso ir embora sem conseguir trabalhar, por causa da dor no joelho.

Por isso, garante que não tem medo de morrer. Só tem medo de não ser lembrada como deve: “A que fazia sobrancelha na Vila Tibério e região”.

– São 60 anos!

Criou até uma palavra para o seu fazer: “sobrancelheira”, sem saber que é criação sua.

– É assim que se fala. Até hoje eu não parei e não pretendo.

Segue, então.

– Quando eu conto alguma coisa boa ou mal, mas que já passou, eu me sinto realizada.

 

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Comentários
  • Maura Tuzzi
    Responder

    Lindaaa história de vida. Sou cliente dela a muito tempo. Sempre a recebo com um capuccino. Ela é um exemplo de pessoa, de humildade. Amo muito essa pessoa. Bjus no coração de Nair Merecedora dessa homenagem.

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Saulo Gomes jornalista