Inspirada em Cora Coralina, Tania transforma em palavras as vivências de seus 72 anos

Esta história foi narrada pela jornalista Daniela Penha. Para ouvi-la, é só clicar no play:

 

 

A árvore enorme faz parte do cenário da sala. Na janela, não há cortinas, nada que encubra a beleza das folhas verdinhas e dos passarinhos que pousam nos galhos.

Quando Tania se mudou para aquele apartamento, décadas atrás, a árvore era só uma mudinha. Os filhos dela eram pequenos, seu marido estava ali a dividir os dias, ela ainda não havia perdido – e retomado – a visão.

Já escrevera um tanto de histórias, porém. Perdera a mãe e o irmãozinho recém-nascido quando pequenina, o pai se afastara e meses depois o avô, que assumira a posição de pai, também morrera.

Já na juventude, se apaixonara por um homem mais velho, contrariando todas as opiniões e os rótulos do que fazia, na época, uma mulher ser chamada de “recatada”, “para casar”. Ela não se importou com as palavras duras. Viveu sua paixão, com intensidade, enquanto durou.

Ali, vendo a árvore ganhar força, outras tantas coisas também se fortaleceram na história de Tania  Garcia Leal Neca, chamada pelos queridos de “Tanoka”.

Se casou com um companheiro com quem dividiu a vida e os trabalhos sociais. Fez tantas coisas que fica difícil de enumerar. Criou ONGs, acolheu, cuidou, ofereceu caminhos. Teve uma infecção grave e passou 13 dias em coma. Depois, perdeu a visão e os médicos diziam que nunca iria recuperá-la. Mas recuperou.

Começou alguns cursos na faculdade, mas o único que terminou foi o que falava sobre o ser, uma formação holística, pela Unipaz (Universidade Internacional da Paz). Tania se interessa pelo sutil, pelo que não está nos livros.

– Lá a gente aprende a viver a vida, os momentos de felicidade. Eu virei naturalista. Para mim, Deus é a natureza. A gente vem aqui para descobrir a nossa parte divina. E nada mais divino do que a natureza que nos criou.

Ela poderia passar dias e dias contando sua história, como quem narra, com detalhes e trilha sonora, um conto, dois, três. É que já há algum tempo tem sido assim. Encontrou na própria trajetória temas tantos que decidiu escrever um livro.

– É um livro de vivências!

Aos 72 anos, encontra na escrita a alegria para os dias não tão fáceis. Com um problema que lhe faz ter dificuldades para andar, passa a maior parte do tempo em frente ao computador, transformando vivências em palavras.

– Eu estou em uma idade que as pessoas chamam de velhice, mas eu não acho que seja isso, não. Fisicamente, realmente, eu sou velha. Mas de coração e sentimentos eu não sou. Porque eu fui vivendo cada parte da minha vida tendo que superar várias coisas…

Sua inspiração está em Cora Coralina, mulher de histórias e palavras fortes cujas memórias Tania conheceu quando morava em Goiás.

– Conheci Cora Coralina e me apaixonei pela história dela. Ela foi reconhecida e publicou seu primeiro livro a partir dos 75 anos.

O vestido que mais gosta tem uma citação de Cora estampada na barra: “Venho do século passado e trago comigo todas as idades”. Elegeu essa como a frase que norteia sua trajetória.

– Quando a gente chega nessa idade em que eu estou, vemos a perfeita coincidência e vivência: venho do século passado, nasci em 1946, e trago comigo muitas experiências e sentimentos. Muitas mesmo. E como eu fui superando e trabalhando a minha resiliência.

A mesinha onde se senta para deixar as palavras saírem fica de frente para a janela, com a árvore de moldura. Ali, transforma a história e as vivências em frases, álbuns, folhas e mais folhas que sonha, um dia, ver publicadas.

Inspirada em Cora Coralina, Tânia transforma em palavras as vivências de seus 72 anos

Foi a avó quem lhe ensinou a ler, por volta dos cinco anos, com jornais. Quando foi para a escola, aos seis, já sabia escrever naquelas máquinas antigas e, então, conta que entrou direto para o primeiro ano. Aos oito, já era leitora apaixonada dos clássicos.

Diz que sempre teve facilidade em fazer amigos. Não é difícil de entender o porquê. Sua história chegou até mim por intermédio de uma leitora. As duas se conheceram no salão de beleza. E em pouco tempo Tania já havia cativado a ouvinte com sua história.

Nutre a alegria, mesmo contando tantos capítulos tristes.

– É a coisa melhor do mundo você começar a encontrar pessoas que desconhece que existem e que, de uma hora para outra, entram na sua lista de conhecidos e até se transformam em amigos. É a coisa melhor que pode existir com tantas tecnologias novas!

Conta a história de amor dos pais em detalhes. A mãe deixou um noivo, com quem o casamento já estava arranjado, após conhecer o pai em um passeio e se apaixonar instantaneamente por ele. Em oito meses, estavam casados e logo Tania chegou.

– Eu nasci no mundo filha de um casal que se amava pra caramba! Mas era o pós-guerra…

Durou só quatro anos, porém. Sua mãe engravidou novamente e, quando Tania tinha dois anos e meio, morreu no parto. O bebê nasceu sem vida.

De início, coube aos avós e ao pai cuidarem da pequena. O pai, porém, foi embora para Goiás. Os avós a levaram para Santos, onde viviam, mas três meses depois o avô morreu em um acidente de avião.

– Ficou eu e minha avó para o mundo. Ela foi muito forte. Me ensinou a enfrentar a vida sem sentir uma tristeza muito grande.

Por muito tempo, Tania nutriu pelo pai a raiva e a revolta. Conseguiu se resolver com esses sentimentos já adulta, depois de tanto estudar sobre a vida e vivê-la.

Na juventude, chegou a morar com ele, em Goiás. Sonhava em fazer Jornalismo, mas o contexto político não lhe ajudou. Ano de 64, ditadura militar, o curso ficava em São Paulo. A avó proibiu. Disse que, se ela quisesse continuar com essa ideia, que fosse morar com o pai: “Você vai ser presa! Vai virar comunista”, era o receio da avó.

Em Goiás, entretanto, a faculdade ficou em segundo plano. Conheceu o homem por quem se apaixonou no Carnaval. Ela com 19 anos e ele com 30. O pai não concordou com o relacionamento. Dizia que aquele homem “não era para ela”. Foi expulsa de casa e enviada para Ribeirão Preto, para morar com as tias, sob acusações de ter “desonrado a família”.

– Se fosse nessa época, era uma fake news.

Foi, então, morar em Ribeirão e decidiu viver sozinha. Já tinha 20 anos. O apaixonado foi atrás dela e, então, Tania diz que decidiu fazer jus à fama e tornar verdadeira a mentira que o pai havia espalhado. No tempo em que namorar era pegar na mão, ela viveu intensamente sua paixão, sem se preocupar com o julgamento alheio.

– Você não pode deixar que a ideologia das pessoas tome conta do seu inconsciente. Não quero ser a dona da verdade. Quero acreditar naquilo que eu penso.

Terminou um tempo depois, quando compreendeu que, de fato, aquele homem não era para ela, não queria constituir uma família, o que já havia se tornado seu desejo

– Eu como nunca havia tido uma família completa, tinha muita vontade de ter.

Inspirada em Cora Coralina, Tânia transforma em palavras as vivências de seus 72 anos

Entrou no curso de Direito, mas só ficou por dois anos. Fez também Ciências Sociais, mas parou dois meses antes de se formar porque decidiu se casar. Trabalhando no banco conheceu o homem que se tornou seu marido, sem se preocupar com a opinião alheia.

– Foi um amor incondicional. Ninguém cobrava nada de ninguém. Ele nunca me questionou nada.

Aos 25 anos, se casaram. E logo depois do casamento engravidaram da primeira filha. Tiveram um casal. Moraram em São Paulo, São Carlos, Curitiba, sempre acompanhando as transferências dele, que era gerente de banco.

Ela deixou de trabalhar e passou a se dedicar ao voluntariado. Junto com o marido, participava ativamente das atividades da igreja, oferecia encontros de casais, trabalhou no sistema prisional, relata que montaram uma ONG no Jardim Presidente Dutra, Ribeirão Preto, levando atendimento multidisciplinar para as famílias do bairro.

– Eu dei para muita gente coisas boas e eu recebo do Universo. Nunca me faltou absolutamente nada. O trabalho social me deixa viver, me faz viver. Tudo volta.

Em 1996, já morando em Ribeirão Preto, estava perto de completar 50 anos quando entrou em coma. Teve uma infecção grave na perna e passou 13 dias inconsciente. As divagações sobre essa experiência de quase morte dão mais um capítulo do livro de sua vida.

Só depois de seis meses pôde colocar o pé no chão e trocar a cama por uma cadeira de rodas. Quando achou que a tempestade estava se acalmando, por volta de 1999, perdeu a visão dos dois olhos, por um problema na retina.

– Eu fui dormir e acordei cega.

As chances de voltar a enxergar eram poucas.

– Eu deixei de ser ansiosa, de querer as coisas para anteontem.

Seu marido morreu nesse período de três anos em que ela ficou sem ver. Um infarto fulminante, sem sobreavisos, em 2000.

– O Neca morreu e eu não o vi.

Em 2002, a visão começou a dar sinais, também sem sobreavisos.

– Eu não escrevia mais, ler muito menos. Mas em 15 dias, pude voltar. O médico não entendeu. Ele me disse: ‘Você tem uma missão para cumprir nessa terra’.

Inspirada em Cora Coralina, Tânia transforma em palavras as vivências de seus 72 anos

Foi nessa época, então, que decidiu voltar a viver em Goiás. O pai estava viúvo e pediu sua presença. Dessa vez, não teve expulsões ou brigas. Os dois já haviam refeito os laços.

Nos 11 anos em que esteve lá, Tania conheceu a faculdade holística, se formou e abriu uma outra ONG para oferecer terapias alternativas: mais um tanto de crescimento. Chegou a morar no espaço, do qual sente uma grande falta.

– O ser humano tem que ser interativo. Nós vivemos em um coletivo: todos ensinam e todos aprendem.

Voltou para Ribeirão Preto em 2014 para tratar a neuropatia periférica que lhe atrapalha os movimentos, lhe causa dores e lhe faz tomar uma dose alta de medicações diárias. Não perde minutos da história reclamando, porém.

– Agora eu tô aqui, doidinha para voltar para a ONG!

Enquanto os dias vão passando, então, escreve, escreve e ajuda. Não deixa de participar de trabalhos voluntários, ainda que a frequência seja menor do que gostaria.

– Acho que a gente vem aqui para descobrir todos os pontos de interrogação que trazemos.

A ideia de transformar as vivências em livro surgiu uns sete anos atrás, meditando em um mosteiro.

– Eu me senti realizada quando conheci a Cora Coralina. E comecei a escrever.

Batizou seu projeto de “Fotografando os meus sentimentos”, e busca mesclar imagens e textos.

– É fotografando o momento em que me tornei corajosa, em que me tornei mãe. Momentos em que eu mudei meu modo de pensar.

Nos dias em que as dores são mais fortes, não consegue escrever. Mas torce para que os dias melhores voltem logo.

– Quando eu estou bem, a escrita sai sem eu perceber. Parece que tem alguém me soprando.

Continua pensando e planejando o amanhã. Diz que se sente realizada, mas quer ainda realizar um tanto de coisas.

Quem sabe, busca aquele sonho antigo e faz a faculdade de Jornalismo. Aprendeu com Cora Coralina que cabem todas as idades em um coração aberto.

“Eu sou aquela mulher

a quem o tempo

muito ensinou.

Ensinou a amar a vida.

Não desistir da luta.

Recomeçar na derrota.

Renunciar a palavras e pensamentos negativos.

Acreditar nos valores humanos.

Ser otimista”

Disse Cora, inspirando Tania.

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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Sheyla Dutra - ONG FADA - Ribeirão Preto - História do dIAGeraldo Duarte médico Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto