Maria de Lourdes, poetisa da vida, transforma trajetória de dores em rima

9 abril 2022 | Destaque, Destaque inspira, Gente que inspira

           

Esta história foi produzida para a 3ª Semana do Livro, Leitura e Biblioteca Dr. João Baptista Berardo, com apoio da Secretaria de Cultura de Jardinópolis.

Texto e fotos: Daniela Penha

– Tenho duas datas de nascimento. A de fevereiro é a que eu gosto mais: 25/02/1949. Meu filho também nasceu nesse dia. Quase todos os meus filhos nasceram em fevereiro.

Maria de Lourdes Celestino Nascimento escolhe começar sua narrativa pelo dia em que chegou ao mundo. Logo nesse princípio somou um conto para depois transformar em verso.

Nasceu em fevereiro, mas, como era costumeiro naqueles tempos, o pai fez o registro no dia 8 de setembro. Ela, porém, escolheu ficar com a data que não consta em papel algum, mas esteve sempre na história que a mãe lhe repetia.

– Minha mãe dizia que eu nasci dia 25 de fevereiro. Mesmo dia que ela.

Assim como essa, vieram outras tantas escolhas. Para prosseguir, dona Maria de Lourdes precisou escolher olhar para o copo cheio, acordar com fé, acreditar que a gente vem para esse mundo com data certa para partir.

– Nós temos o propósito de fazer tudo de bom nessa Terra. Eu acredito que cada um tem sua hora. Seu dia já está marcado. Não adianta chorar. Tem que aceitar e ir.

Escolheu seguir quando perdeu um filho de sete anos atropelado. Escolheu persistir quando outro filho faleceu, aos 18 anos, afogado em um lago. Escolheu se livrar do medo, após quase 40 anos casada com um homem violento.

Então, costurou todas as escolhas em uma. Aos 50 anos, após participar de uma oficina de cordel, se encantou pela possibilidade de transformar tanta história em poesia. Escrevendo, encontrou uma forma de dissipar as dores, deixar ir. Passou, então, a escolher as palavras. E é um tanto criteriosa.

– É a história que a gente conta. E tem que ter rima. As palavras têm que ser rimadas e combinadas. É uma sequência.

Maria de Lourdes só pôde estudar até a quarta série. Deixou a escola aos nove anos para trabalhar de doméstica e ajudar em casa. Mas escolheu continuar lendo. Pegava livros emprestados para não se esquecer das palavras.

Hoje, é poetisa. Tem mais de 100 poesias escritas. Publicou um livro, com muito apoio de uma grande amiga. Neste ano, é a autora homenageada da 3ª Semana do Livro, Leitura e Biblioteca de Jardinópolis. Tributo que veio em ótima hora. Os tempos de pandemia abriram brecha para o desânimo, que ela não gosta de ter como companheiro.

– Essa homenagem veio para provar que estou viva, que tenho que ir à luta.

Semana do livro e leitura jardinópolis

O apelido também tem história. Tufa, como a irmã mais velha nomeou.

– Eu era a caçula, um tufinho de gente. Ficou Tufa.

Maria de Lourdes nasceu em São Joaquim da Barra. A infância foi “linda” e a adolescência “maravilhosa”, como escreve no poema ‘Versando minha história’. Eram em 10 irmãos, mas como “rapinha do tacho” teve o privilégio de ser mimada por todos os outros.

O pai trabalhava como ferreiro e pedreiro. A mãe era dona de casa.

– Foi custoso. Todos ajudavam.

A família se mudou para Jardinópolis quando ela tinha nove anos, em 1958. A mudança também rendeu o poema “Sextilhas descarriladas”.

Mudei de São Joaquim

Num trem de passageiro,

Mas o papai despachou

Os móveis num cargueiro

Mas o vagão descarrilou

E não ficou nada inteiro

Pouco depois, precisou deixar os estudos.

– Fui trabalhar para a minha professora da escola. Foi difícil porque eu gostava muito de ler, escrever. Continuei lendo e escrevendo para não esquecer.

Frequentava um Centro Espírita e, então, pegava livros emprestados para não se distanciar das palavras. Devorava as narrativas. Assim continua até hoje.

Conheceu seu marido em um velório. Presságio? Ela escreve no poema ‘Versando minha história’.

Estou escrevendo em versos

A história da minha vida

é apenas a metade

a outra deixo esquecida

Quero que fiquem sabendo

Como depois do casamento

Eu fui muito sofrida

Se casaram em dezembro de 1970, quando ela tinha 21 anos.

O primeiro filho veio dois anos depois e os outros quatro em escadinha, com diferenças de dois ou três anos entre eles. Rogério, Reginaldo, Ricardo, Rodrigo e Ronaldo. Cada nome com uma história diferente de escolha. Família de homens, como ela tanto implorava em preces.

– Eu pedia a Deus que não me desse filha mulher. O meu marido falava: ‘Agora Deus vai me dar uma filha mulher para fazer o serviço de casa direito’. Vai ver era isso… eu tinha medo de ter filha mulher e ela passar pelo que eu passei.

Começou a sofrer violência física e psicológica logo no início do casamento. Eram traições e agressões constantes. Ele bebia e os abusos só aumentavam.

– Eu tinha cabelo comprido. Uma vez ele me arrastou pelo cabelo. Cortei e nunca mais deixei crescer.

Caminhoneiro, o alívio vinha nos dias em que ele estava viajando. Mas quando escutava a buzina ao longe, nada acalmava o acelerar do coração.

– Mesmo depois que ele morreu eu sentia medo. Parecia que iria brigar. Por isso não me separei… ele falava que se eu largasse, me matava.  Hoje eu não tenho mais medo.

Mudaram de casa dezenas de vezes. O marido estava sempre a arrumar rolos. A família, então, tinha que arrumar as coisas e partir. Moraram em cômodos e precariedade, até conseguirem a casinha própria, por esforço dela, que foi até mesmo falar com o prefeito por um pedacinho seu.

Aguentou o casamento por quase 40 anos. Foi sua cuidadora até o último dia de luta contra o câncer, em 2009. Dava comida na boca e fingia esquecer toda dor.

– Um dia ele me chamou e disse que iria descansar desse mundo. E assim foi.

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Para recomeçar, escolheu limpar as páginas.

– Eu troquei tudo o que era dele em casa. Comprei tudo novo para mim, reformei. Quis jogar fora. Se ele chegasse hoje nem iria reconhecer.

Nessa época já tinha a escrita como aliada, alívio para as dores.

Começou a escrever já perto dos 50 anos.

Soube que havia um grupo para a terceira idade perto de casa e, mesmo faltando um tanto para completar os 60, decidiu que era sua hora. Para quem conheceu a dureza da vida ainda criança, o tempo de pausa se fez necessário antecipado.

– Quando eu estava lá, me sentia feliz.

Trabalhou de doméstica desde os nove anos. Depois de casada, apanhou até café na roça. Aos 45 anos, então, já depois de tanto trabalho, decidiu se aposentar.

Escolheu deixar as faxinas e abdicar do fardo de manter a casa praticamente sozinha, pela primeira vez.

– Eu trabalhava tanto para ele gastar em bebedeira… não quis mais.

Em grupo, fazia exercícios físicos, dançava, participava de festas e oficinas. A de cordel ensinava a transformar vividos em versos. “Versando sobre memórias” era o nome. Descobriu que, entre rimas e métricas, toda a história que guardava bem dentro de si encontrava caminhos para sair.

– Fizemos um livreto. E nunca mais parei.

Com a escrita, navega pelo tempo. Se torna expectadora do próprio protagonismo.

– Quando estou escrevendo, eu viajo na história. Me envolvo tanto que não vejo o tempo passar…

Em uma das primeiras poesias que escreveu, ‘O sofrimento de uma mãe ou A história de Tufa’ contou suas maiores dores. A perda dos filhos se transformou em rima, mas ainda assim, “rimada e combinada”, continuou amarga de se ouvir.

– Não gosto nem de lembrar… quando me falaram…

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Aos sete anos, Ricardo era pura travessura. Viviam em um sítio e, no caminho de volta da escola, os meninos desciam do ônibus e tinham que atravessar a pista para chegar em casa. Dias antes do acidente, o mais velho pediu que a mãe tomasse providências. Ricardo ficava correndo na frente dos carros. Era arriscado.

A mãe ralhou, deu bronca e até umas palmadas. Ele não deu bola. Indo para a escola, dava de ombros e repetia: “Não vou mais. Eu vou só hoje”. Outro presságio?

Naquela tarde, 12 de junho de 1985, os filhos chegaram chorando.

– Assim foi. Ele não voltou mais.

A travessura do Ricardo terminou em tragédia.

É preciso uma pausa para continuar. Entre palavras, pausar é possível. Vírgulas, pontos, reticências. Na vida, a cadência é outra. Ninguém pergunta se já é hora. 

– Sete anos depois eu perdi o Reginaldo.

As coisas acontecem

Sem a gente esperar.

Um dia o Reginaldo

Foi na represa nadar

E morreu afogado

Deixando todos a chorar.

Os meninos gostavam de nadar na lagoa. Era uma das delícias de se morar no sítio. Mas a família advertia: “Tufa, é perigoso! Não deixa os meninos na lagoa!”.

Mesmo depois que se mudaram para a cidade, eles continuavam a pescar nas águas da infância.

Reginaldo tinha 18 anos. Era trabalhador e gente boa, do tipo que agrada todo mundo. Naquele dia, avisou a mãe que estava indo para o sítio. Comeu manga e goiaba do pé e foi nadar.

– Ele trabalhava na roça. Mas quando a safra acabou, enterrou as botas e as coisas do trabalho na terra e disse que não ia mais. E assim foi. Ele não voltou mais. Por isso eu acho que cada um tem sua hora.

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Maria de Lourdes conta os capítulos mais tristes de sua história entre pausas, mas sem lágrimas. Há muito escolheu a resiliência como companheira. Acolhe o que a vida lhe entrega. Tem a ‘força que alerta das Marias que cantou Milton Nascimento. Essa gente que ri quando deve chorar, e aguenta.  

– Minha força? Veio da minha família, dos amigos e da minha fé. A gente não precisa ficar desesperado, porque tudo tem que acontecer…

Quando lê sua história em versos arranca lágrimas de quem escuta, ela conta. Não é preciso perguntar por quê.

Quis até quebrar o espelho

Mas tive dó do coitado

A culpa da minha feiura

É desse tempo malvado

Agora não quero mais tristeza

Porque beleza não se põe na mesa

É o que diz o velho ditado

Depois que Tufa descobriu como rimá-las e tirá-las de dentro, as palavras se tornaram abraço.

– Eu escrevia porque precisava desabafar.

Tudo se transforma em verso. O carinho pelas irmãs e amigas, o nascimento dos netos, os causos da infância e até os desejos para quando não estiver mais nesse mundo.

Sua inspiração está no cotidiano, na simplicidade grandiosa do dia a dia. Sua escrita é genuína, quase nata. Essa poetisa só pôde estudar até a quarta série, nove anos. Todo o mais aprendeu brigando.

– Gosto de tudo rimadinho. Tem que ter rima.

O livro de poesias foi iniciativa da amiga Marisa. Tiraram dinheiro do bolso para ver registrada a obra tão forte de Tufa.

Nos últimos meses, após o convite para se tornar a autora homenageada de Jardinópolis, ela e a amiga Marisa têm levado para as escolas da cidade os escritos de Tufa.

Compartilham com os pequenos a potência de ser: toda história vale o registro, vira narrativa, é bonita como poesia.

Ela mostra, toda orgulhosa, os poemas que as crianças lhe escreveram.

– Eles fizeram homenagem. Precisava ver!

Os anos de pandemia afastaram Maria de Lourdes do grupo da terceira idade. Os dias em casa, com a rotina limitada a poucos encontros, deixou o desânimo – quase – tomar conta.

– Às vezes eu fico triste. Aí eu penso que qualquer dia chega minha hora. Mas ainda não é meu tempo. Eu tinha que estar aqui para receber essa homenagem que estava preparada para mim.

Quando soube que seria homenageada, ganhou nova energia. E escolheu seguir com ela. Não gosta do desânimo como companheiro.

– Essa homenagem veio para provar que estou viva, que tenho que ir à luta.

Autora da cidade, Maria de Lourdes, a Tufa, transforma a vida vivida, aquela sem maquiagem ou rodeios, em poesia.

– É doído, mas é a história que a vida conta. É a pura verdade.

Lá atrás, antes mesmo de fazer poesia, ela escolheu os verbos aliados. Persistir, prosseguir, insistir. Segue com eles. Esses, sim, companheiros.

Criteriosa, escolhe com fé as rimas de sua história, as palavras de sua vida. E vai.

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2 Comentários

  1. Rodrigo do nascimento

    Mamãe sem palavras
    EU TE AMO MUITO

  2. Marisa Munhoz t

    Maravilhoso!!!!
    Conheço bem a Tufa e sua história, porém fiquei emocionada com a sua narrativa.
    Parabéns!!! Você tornou a vida da minha amiga/irmã num romance real e emocionante.
    Obrigada!!! Que Deus ilumine seus dias!!

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