Maria Silvia arregaçou as mangas e resolveu cuidar da zona Oeste de Ribeirão Preto

Texto e fotos: Alice de Carvalho Leal

 

São 115 grupos no WhatsApp, todos como administradora. Não, você não leu errado! Eles correspondem aos quase 30 bairros da zona Oeste de Ribeirão Preto monitorados pelo Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) da região. Na presidência, a santista de cabelos cor de fogo, personalidade forte e disposição de sobra. A aposentada de 67 anos é uma das principais responsáveis por estabelecer pontes e criar uma rede entre os vizinhos. 

Se engana quem pensa que para zelar pelo local onde mora é preciso ter nascido ali. Maria Silvia Roque viveu a maior parte da vida ao lado da família na maior cidade do litoral paulista, Santos. Ainda muito cedo, assumiu o papel de implantar o senso crítico naqueles que passam pelo seu caminho. 

– Eu brinco que nasci feminista, ativista, militante. Desde pequena sempre fui contestadora, nunca fui acomodada. Não gostava de roupa engomada, preferia jogar bola.

 Na juventude, participou de manifestações, lutando contra a ditadura militar até mesmo grávida: fase que ela considera um dos marcos na vida. 

Casou aos 15 anos, com uma pessoa que parecia compartilhar dos mesmos ideais. Descobriu que não quando a voz do machismo começou a ecoar mais alto dentro de casa. 

– Me proibiu de estudar. Não pude fazer faculdade porque ele dizia que eu ia me encontrar com outros homens. 

O saldo foram 18 anos de matrimônio, três filhos e uma separação litigiosa. 

– Ele não queria se separar. Eu tive que abrir mão até do meu carro, das cortinas e lâmpadas da casa, mas fiquei com o patrimônio mais precioso: meus filhos. 

Foi então que a vida engrenou em outros rumos. Maria Silvia fez faculdade de Educação Física, apesar de hoje confessar que gostava muito mais de jornalismo. Assumiu, então, o desafio de engajar mulheres em movimentos sociais. 

Foi quando Ribeirão Preto surgiu.

A proposta inicial era passar somente uma semana trabalhando na cidade. Meteu as caras, como a própria expressão diz, e começou a criar raízes. A rápida estadia se tornou uma história de mais de duas décadas, cheia de novos frutos.

Maria Sílvia Ribeirão Preto

Engajamento. Essa talvez seja uma das palavras que acompanham Maria Silvia desde que se conhece por gente. Sempre comprometida com tudo aquilo que se dispõe a fazer. Trabalhou na Prefeitura e também na Câmara de Ribeirão Preto, mas nunca pensou em se candidatar a cargos políticos. 

– Fico muito triste quando ouço alguém falar que odeia política. Política é nosso dia a dia, não politicagem. Se o brasileiro participasse mais e não simplesmente votasse, muita coisa mudaria. 

No meio político, encontrou um novo amor e até topou se casar novamente. 

– Ele é um companheiro ótimo, me entende, me apoia e dá todo o respaldo. 

Os dois viviam juntos em um condomínio fechado na zona Leste da cidade. O companheiro adoeceu e foi preciso se afastar do trabalho. Decidiram, então, abrir uma empresa de gás. Para isso, foi realizada uma pesquisa de mercado, que apontou que o melhor lugar para a instalação desse tipo de negócio seria justamente na zona Oeste. 

– Eu vim sem vontade nenhuma, só pensava: o que eu vou fazer naquele bairro que não conheço nada?

As primeiras experiências não foram nada boas. Após um episódio traumático, Maria Silvia notou que precisava dar início a um novo trabalho. 

– Eu fui às compras, quando cheguei em casa tinha um monte de ladrão. Eles não fizeram nada comigo, mas levaram tudo: notebook, cafeteira, panelas e até as gavetas do guarda-roupas.

Ela, então, passou a bater de porta em porta e descobriu que era só mais uma das vítimas da criminalidade no bairro. Não teve outra escolha: arregaçou as mangas e, há quase dez anos, pegou mais um filho para criar: a região Oeste de Ribeirão.  

Por lá, não havia representatividade alguma. Mobilizou os vizinhos e formaram a associação dos moradores. 

Na votação da mesa diretora, sugeriram aos munícipes que cada um escrevesse na cédula o principal problema do bairro. Falta de segurança ganhou disparado. 

Marcaram uma reunião e convidaram as polícias Civil e Militar. Solicitaram uma sala em uma das escolas próximas. A diretora separou uma pequena, justificando que não haveria mobilização dos vizinhos. 

– Deu 186 moradores. A reunião parecia até uma espécie de desabafo. 

Maria Silvia percebeu que a discussão poderia ser um pouco mais ampla. 

– Se você não melhorar primeiro o ambiente onde mora, não consegue mudar nada.

Durante as reuniões mensais da associação, os policiais sempre reforçavam a importância de reativar o Conseg da região. Ela foi vencida pelo cansaço e há cinco anos ganhou novas amigas: as polícias Militar e Civil.

– Foi a melhor coisa que eu fiz. Hoje, a gente atua em uma área enorme e a população é muito participativa. Virou uma rede de mais de seis mil pessoas envolvidas em quase 30 bairros. 

Se engana quem pensa que o trabalho é pouco. Simples, com certeza, também não é. Tudo o que é aplicado na região passa por estudos e debates, buscando sempre a melhor forma de adaptação. 

O primeiro projeto instalado já é bem conhecido: Vizinhança Solidária. Foram vários e vários testes até chegar ao modelo que funcionou direitinho: um tutor para cada quadra, devidamente treinado. Ele é o intermediário entre os moradores e a diretoria do conselho. 

– Ninguém entra no grupo sem antes ser treinado, assim a gente garante o controle e a segurança do local. Se eu saio para comer uma pizza com meu marido, aviso no grupo. 

 Você se lembra dos 115 grupos de WhatsApp? Pois é. 

A questão da segurança conseguiu ser rapidamente controlada. Só que esse não era o único problema da região.

– Eu comecei a questionar: o que gera a criminalidade? Por que um jovem se torna bandido? Foi então que começamos a atuar na causa do problema e não só na consequência. 

Ao lado da Universidade de São Paulo, montou o “USP Música Criança”. Um centro comunitário abandonado em um dos bairros foi suficiente para que crianças tivessem aulas de canto e vários instrumentos. Tudo a custo zero. Em um piscar de olhos, as vagas esgotaram. O projeto cresceu e, em pouco tempo, deve se espalhar pela cidade. 

O cuidado com as crianças não parou por aí. Também em parceria com a USP e com a polícia, criaram o “Tatame Amigo”, que oferece aulas de artes marciais na própria base do bairro. 

Chegou a hora de pensar nos pais. Mas quem disse que ela também já não tinha arquitetado isso? Para eles, cursos de qualificação profissional em diversas áreas: faxina, confeitaria e o próximo será de elétrica. Sem contar, é claro, as outras dezenas de ações colocadas em prática pela região: plantio de árvores, poda de mato, instalação de lâmpadas… 

– Não foi algo provocado. Foi pelas necessidades locais. A periferia é muito esquecida pelo poder público e as pessoas têm vontade, mas não sabem como se organizar para reivindicar.

No início, muita gente até pensou que era trabalho de candidata a vereadora. Muita gente se enganou. 

– Eu trabalho com isso, não tenho um ganho, mas tenho gastos de sobra. 

Maria Silvia preza pela união não só dos vizinhos, mas também da família. 

– Tenho muito orgulho da minha família. Me sinto até frustrada por atuar tanto na comunidade, sendo que poderia estar mais próxima dos meus filhos e netos.

Apesar de hoje viverem em cidades diferentes e até distantes, ela sempre dá um jeito de fazer com que estejam próximos. Mas quando questionada se teria planos de sair de Ribeirão Preto ou até mesmo da rua onde mora, a resposta não poderia ser outra: 

– Viajar sim, mas sair daqui não!

Ela também reforça que não moraria mais em outro bairro. 

– Eu me achei aqui, me identifiquei. O que faz você criar raízes são as pessoas, não o lugar. O que fica de concreto são as relações e eu tenho muitos amigos aqui. É isso que faz você permanecer.

Que a zona Oeste permaneça em boas mãos!

 

*Quer traduzir essa história em libras? Acesse o site VLibras, que faz esse serviço gratuitamente: https://vlibras.gov.br/

 

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