Mário Palumbo: padre de alma, casado de coração

No escritório, fotos da família se espalham por todo lado. Três filhos, cinco netos e a esposa – que tem um porta-retrato exclusivo.

– Eu não me arrependo de nada porque não estou contra Cristo. Acho, aliás, que Ele me salvou – e me salva – através do casamento.

Não foi uma decisão fácil. Mário Palumbo, 83 anos, conta que mudou de paróquia, adoeceu, viajou para a Itália, tentou enfiar o coração nos estudos, pediu conselhos.

Não teve jeito. O amor por Margarida falou mais alto.

Largou a batina com esperanças de que a Igreja iria mudar.

– Havia uma conversa de que o Vaticano iria liberar o celibato. Diziam que não demoraria mais de 10 anos.

Já se passaram 46 desde o casamento. O suficiente para construírem família e uma linda história. Insuficiente para que a mudança tão ensejada viesse.

Mário se diz “padre casado”, ciente de que a classificação não é oficial. Por essa causa já organizou encontro nacional com a presença de outros 120 homens como ele.

Garante que em nenhum momento se distanciou do Deus em que acredita ou perdeu o foco de ajudar o outro como meta principal de vida. Em nenhum momento também deixou de amar a mulher que escolheu para seguir de mãos dadas.

– Eu nunca deixei de ser padre. Minha alma e minha formação é essa. Mas a vida sacerdotal não é contraditória com a matrimonial.

Mário à direita, quando ainda era padre

 

Mário nasceu na Itália em 1933 e viu a Segunda Guerra Mundial de perto. A família de oito filhos passou cinco dias em um porão, buscando proteção para a linha de fogo.

Com 11 anos, decidiu que queria ser padre. A mãe apoiou, e convenceu o pai.

Passou cinco anos no seminário e as primeiras missas foram rezadas na Itália, onde foi padre por seis anos antes de vir ao Brasil, suprir a falta de párocos.

– Era para ficar por pouco tempo. Mas a Margarida não me deixou ir embora.

Aos 31 anos, foi enviado para Pirituba, distrito de São Paulo que hoje tem 163,6 mil habitantes e na época sequer tinha asfalto.

Margarida tinha não mais que 18 anos e coordenava as atividades na igreja.

– Ela sempre foi muito dinâmica. Onde vai, consegue levantar tudo.

A admiração é a mesma dos primeiros dias.

Quando se deu conta da paixão, Mário começou uma luta contra si mesmo. Pediu transferência de paróquia e, na casa nova, adoeceu de passar dias internado.

Decidiu partir para a Itália. Por lá, a ideia do clérigo era isolar Mário num mosteiro. Mas ele não quis. Tentaram, então, que ele fizesse um curso. Mas nada adiantava.

– Só ela me passava na cabeça.

Na universidade, pediu conselho para um professor, que foi quem pagou a passagem de volta ao Brasil depois de concluírem que só havia uma solução:

– Voltei para ficar com ela.

 

 

Mário e Margarida se casaram em 5 de dezembro de 1970, mesmo dia em que a carta de dispensa do celibato chegou do Vaticano. Não teve pompa. Só os dois e o padre, na Igreja da Consolação, em São Paulo.

Sem fonte de renda, ele foi morar na casa de Margarida. Vendia livros de porta em porta como emprego, até encontrar um caminho para a Parapsicologia, profissão que abriu portas por toda a vida.

Vieram para Ribeirão Preto em 1980, de onde não mais saíram.

Margarida fez carreira na Associação do Funcionário Público de São Paulo, Mário continuou com a Parapsicologia, dando aulas, palestras. Montaram também uma empresa de representação comercial.

Alicerces para os projetos sociais que nunca deixaram de tocar. Na Vila Virgínia, o projeto Maria Morieri Palumbo – homenagem à mãe do Mário – oferece há dez anos aulas de yoga, futebol, ginástica entre outras atividades para pessoas de todas as idades.

Juntos, os dois participaram de outras muitas ações e projetos por toda a cidade.

– Existem pouquíssimos casamentos que são sacramentos. Você pode até não ter casado na igreja, mas quando você ama verdadeiramente e sem interesses, está realizando o sacramento.

Mário integrou por anos o Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados e chegou a organizar um evento com 120 padres em Brodowski em 2010. Hoje, não integra mais. Mas continua, da sua forma, em luta.

– Nós somos rejeitados pela igreja. Mas Jesus Cristo, sem apoio nenhum, fez a sua revolução. A luta principal do padre casado é o exemplo de vida que ele dá. É a vida que tem que testemunhar.

Aos 83 anos, faz meditação pelo menos duas vezes ao dia e o plano para o futuro é levar a prática a quem precisa: escolas, presídios. Não faltam ideias.

Padre de alma, repete a frase que era lema da mãe e estampa a parede da quadra do projeto onde tanta gente encontra lazer.

– ‘Se quiserem ser felizes, ajudem os pobres, visitem os velhinhos e levem para eles nem que seja uma flor. Se possível, levem-nos para casa.

 

*As fotos antigas e de Mário com a família são de arquivo pessoal

Mostrando 17 comentários
  • Grace Cano
    Responder

    É o amor mais uma vez mostrando que quando é verdadeiro, vale a pena, vale tudo! Lindo texto, linda história!

  • Pastor Ocimar
    Responder

    Nada e ninguém vence o amor

  • Eduardo Brasolin neto
    Responder

    Maravilhosa história!
    Tenho a honra de ser seu amigo

  • MAGALI
    Responder

    PARABÉNS!!! QUE EXEMPLO MARAVILHOSO!!! EMOCIONANTE!!! ABRAÇOS, MAGALÍ E CONCEIÇÃO

  • William Cesar
    Responder

    História linda de vida, a batalha, o amor recíproco e verdadeiro, um conto de fadas real. Deve ser daí que saem as histórias mais bonitas e fortes capazes de incentivar e dar crença aos descrentes!!! Parabéns

  • Joice Loureiro Paes
    Responder

    História maravilhosa ! Deus continue abençoando o padre e toda sua família e seu ministério.

  • Jessica Lima
    Responder

    Me sinto lisongeada por tê-los conhecido, e ter vivido essa história de perto.. vocês são a prova do amor de Cristo e dos homens.. Parabéns e felicidades sempre!! Oro por vocês e sua família

  • Zacarias Pagnanelli
    Responder

    Senhor Mario,não conheço mas sinto que seja uma pessoa especial por sua luta é spiritual e sentimental,gostaria de um dia abraço-lo com o mesmo carinho que seu filho Mario Palumbo demonstra pela amizade que tempos,grade abraço. Zacarias

  • Zacarias Pagnanelli
    Responder

    Sr.Mario,não conheço mas sinto que seja uma pessoa especial por sua luta é espiritual e sentimental,gostaria de um dia abraço-lo com o mesmo carinho que seu filho Mario Palumbo demonstra pela grande amizade que tempos,grande abraço. Zacarias

  • Ana Cristina dos Santos
    Responder

    Fui as lágrimas o amor existe que Deus abençoe está família linda e o ministério

  • Flavia
    Responder

    Que história de vida. Sr. Mário, quando fala de Pirituba, esteve no Mosteiro São João Gualberto?
    Por acaso, conheceu o Frei Antônio?
    Um grande abraço, admiração pelo seu filho Dr. Mário Jr. E todo a história da sua família.
    Att. Flávia Mendonça.

  • Sandra
    Responder

    Que história linda!
    O amor realmente existe!

  • Juliana
    Responder

    Linda história de vida

  • Roberta Cristina Inocente
    Responder

    Professor! Bom saber notícias suas! Nas aulas de filosofia que o senhor ministrou na escola estadual Alberto Santos Dumont, aqui em Ribeirão Preto eu adorava quando o senhor contava os casos que acompanhou de perto sobre paranormalidade! O senhor tem registrado em alguma rede social sobre isso? Felicidades ao senhor e sua família!

  • Carla Bastos
    Responder

    Chorei. ..lindo demais emocionante amor verdadeiro sabedoria plena de um escolhido por Deus

  • Fidel Mosquera
    Responder

    feliz em ler a matéria…

    tive a oportunidade de participar de um curso de parapsicologia nos anos 80 na igreja são joão batista do Brás em são paulo na qual guardo até hoje seus ensinamentos.

    Fidel Mosquera

  • Andrea
    Responder

    Linda história eles fizeram um filho lindo por dentro e por fora eu adoro as palavras dele amooo Deus abençoe esta familia que admiro de montão.

    FAMILIA PALUMBO IO TE VOGLIO TANTO BENE

Deixe um Comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar

Amaro tocha olímpica Ribeirão Preto