Música que começou no Projeto Guri levou Cintia à faculdade na USP de Ribeirão

Cintia voltava da escola quando avistou o panfleto no chão. Já ouvira falar do Projeto Guri – só se comentava nisso na pequena Cravinhos, afinal. Mas não sabia direito o que era o projeto, que acabara de chegar para ensinar música à criançada.

Com o papel explicativo em mãos, conseguiu todas as informações que precisava para convencer a mãe a matriculá-la, com boas doses de insistência.

– Eu sempre gostei muito de música! E não sei muito bem por quê. Na minha família ninguém é músico.

O instrumento que mais chamou a atenção foi o violoncelo, mas já não havia mais vagas disponíveis. Entrou na lista de espera do violão e, duas semanas depois, com um tantão de ansiedade já consumida, foi chamada para começar as aulas.

Foi em 2006, ela tinha 9 anos e nem cogitava a música como paixão, que dirá profissão. Entrou na primeira turma de alunos do Guri de Cravinhos e só saiu seis anos depois, com a ideia de se profissionalizar como violonista já em mente.

 

Projeto Guri Ribeirão Preto

 

Nesse final de ano – se tudo continuar dando certo – Cintia Galan se forma na Faculdade de Música da USP de Ribeirão Preto.

– Eu não tenho ideia do que estaria fazendo da minha vida sem música, porque me vejo 100% nela.

Ela já “vive de música”, como diz, há alguns anos. Passou 10 meses em intercâmbio na Noruega pela música. E, como disse, não se imagina fazendo outra coisa da vida. Até se imagina, mas está certa de que não seria tão feliz quanto é quando dedilha as notas no seu violão.

A semente de toda essa trajetória foi o Guri, projeto mantido pela Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, que oferece cursos de iniciação musical, luteria, canto coral, tecnologia em música, instrumentos de cordas dedilhadas, cordas friccionadas, sopros, teclados e percussão para crianças e adolescentes entre seis e 18 anos.

O Guri é “considerado o maior programa sociocultural brasileiro”, de acordo com informações do seu próprio site, atendendo mais de 50 mil pessoas ao ano, em quase 400 polos distribuídos pelo Estado.

Na região de Ribeirão Preto, são 36 polos do projeto, que atendem 3,7 mil alunos ao ano, de acordo com informações da assessoria de imprensa do projeto.

No final de março, mesmo com tanta importância e impacto, o programa sofreu ameaças de corte pelo Governo do Estado. A notícia veiculada era de que seriam retirados R$ 20 milhões do orçamento previsto para o Guri neste ano. Funcionários de diversos polos, inclusive o de Ribeirão Preto, receberam aviso-prévio de seus serviços. Na região, 130 funcionários atuam nos 36 polos.

– Aqui na USP, o clima era de luto. Entre os alunos, ou passou pelo Guri ou é professor lá. Quase todo mundo tem uma ligação com o projeto.

O governador João Dória (PSDB) voltou atrás na decisão, após a intensa mobilização que se espalhou por todo todo Estado.

– Mesmo para quem não pensa em seguir com a música, o aprendizado é muito importante. Convivência, respeito, cultura, as amizades que você faz. Tudo é muito válido. Além disso, a formação musical ajuda a criança a desenvolver responsabilidade, maturidade, coordenação. Muitas vezes, ela não teria acesso a tudo isso fora do projeto.

Agora, então, a torcida é para que a promessa de manutenção do projeto, realmente, seja cumprida. Cintia, e as milhares de crianças que descobrem no Guri um caminho, um alento, um polo de boa convivência, agradecem.

Projeto Guri Ribeirão Preto

O primeiro violão de Cintia chegou por uma cartinha que ela enviou ao Papai Noel dos Correios, logo que começou a fazer aulas no Guri.

– Tenho ele até hoje!

Ela conta que, nesse começo, eram tantos alunos que o instrumento precisava ser compartilhado.

– Hoje, já não é assim. As crianças podem até levar o instrumento para estudar em casa.

Cintia foi construindo sua trajetória entre as notas e a convivência no projeto, que frequentava duas vezes por semana.

– Eu não era de sair para brincar, não tinha amigos na rua. Foi no Guri, então, que desenvolvi o contato social, fiz amizades, planos. Foi além da escola.

A mãe de Cintia é doméstica e seu pai, trabalhador rural. Além dela, são outros dois filhos. A jovem entende que, não fosse a abertura do projeto, que é totalmente gratuito, não seria possível ter aprendido música.

– Nem sempre o estudo de música é acessível. Há outras prioridades dentro de uma casa, como pagar contas, e isso acaba ficando de lado.

No Guri, chegou a gravar um CD, com um quinteto montado entre amigos alunos. O nome, Tacti, levava a inicial de cada integrante. Entre as faixas, música instrumental brasileira, japonesa e muito aprendizado!

Ela só deixou o Guri em 2013, por volta dos 16, 17 anos, para trabalhar em um programa de jovem aprendiz, no intuito de “fazer algo em casa”, como conta. E um motivo a mais. Pensava que, se tivesse seu próprio dinheiro, poderia investir em uma profissionalização musical e instrumentos.

– Poderia fazer as coisas que eu tinha vontade.

Entrou no Fórum de Cravinhos e, com a rotina de trabalhos e estudos, acabou se afastando um pouco da música. A falta, porém, era diária. Tanto que falou mais alto em uma decisão importante.

Como trabalhava dentro do Fórum, foi avisada de que haveria um concurso que exigia conhecimentos práticos, que ela já tinha, e não era necessário mais que o Ensino Médio, que ela estava terminando.

A família e os colegas de trabalho incentivaram. E Cintia até pensou em seguir por esse caminho.

– Mas eu sentia muita falta da música!

Decidiu, então, procurar um professor e se preparar para o vestibular da USP. Foi aprovada em 2015.

Além do aprendizado na faculdade, pôde intercambiar conhecimentos em outro país. Em 2017, foi aprovada no MOVE (Musicians and Organizers Volunteer Exchange) e passou 10 meses estudando na Noruega.

Sua ida – e de outros cinco jovens que fizeram música no Guri – foi notícia comemorada no site do projeto (http://www.projetoguri.org.br/acontece/projeto-guri-envia-jovens-para-o-move-intercambio-musical-em-tres-paises/).

Conta que quase desistiu da inscrição, porém. A mãe, preocupada com a viagem para tão longe, não aprovou a ideia. Foi a coordenadora do Guri de Cravinhos quem incentivou, em conversa informal que teve com Cintia durante um evento.

– Ela me disse: “Você tem que ver aquilo que você quer”. E eu me inscrevi!

Na volta, a bagagem era tanta que não cabia mais na mesma Cintia.

– Eu voltei muito diferente de lá. Aprendi, a me virar sozinha, conheci outras culturas, me abri para coisas novas e pude me conhecer melhor.

Agora, com a formatura se aproximando, a sensação é de que parte do dever cumprido, ciente de quem vem muito mais por aí.

– É um ano muito especial para mim. A conclusão de um percurso.

Além de tocar em eventos, a educação musical passou a ocupar um grande espaço no coração feito de notas. Um dos sonhos, assim, é lecionar no Guri.

– Você constrói a si mesmo ao mesmo tempo em que constrói alguns outros.

Se divide entre o popular o clássico, com um grande apreço pelo samba, enquanto inspiração.

– É uma referência!

A música representa tanto que ela não encontra palavras que deem conta do sentimento.

– É meu trabalho, é meu hobby, é o momento de relaxar. Não dá para dissociar do dia a dia, porque ela está sempre ali. Em todos os momentos. Eu não sei como explicar isso… é algo assim.

Antes de terminar a entrevista, pega o violão para uma palhinha.

– Para mim, toda hora e hora.

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Mostrando 2 comentários
  • Cíntia Galan
    Responder

    Daniela, a jeito que você escreve é tão delicado e sensível! Quando nós conversamos sobre essas histórias, nem me pareceu tão especial, acho que é por ja ter contado elas muitas vezes hahahaha, mas lendo elas através das suas palavras eu até me emocionei! Seu trabalho é magnífico!!! Parabénss!!!

    • Daniela Penha
      Responder

      Sua história é linda, Cíntia! E sua música também! Muito obrigada pelo carinho!!

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