Sorriso de Luzia superou a violência

Todo mundo tem uma história para contar. Luzia Marcolino da Costa, 33 anos, avisa antes de começar:

– A minha vida é triste.

Conheceu a violência tão pequena que sequer sabia nomeá-la. Quando soube, continuou a sofrê-la. E foi preciso estar forte para gritar basta e recomeçar.

Luzia foi violentada por três pessoas diferentes aos quatro, sete e onze anos. Era uma criança. E demorou a entender que sofreu estupro.

Ainda fica temerosa quando conta. Nunca denunciou o abuso nem mesmo à mãe. Fez da violência seu segredo.

Aos 15 anos, decidiu casar.

– Minha mãe me segurava muito, não me deixava ter liberdade. Casei pensando que teria. Mas me dei mal.

Continuou a sofrer violência. O marido bebia, quebrava a casa toda e, por duas vezes, lhe agrediu. Na segunda agressão, já aos 26 anos e com um filho, Luzia decidiu que não aceitaria mais ser violentada.

Saiu de casa com uma criança para criar, ensino fundamental incompleto, nenhuma porta aberta, mas exausta de tanto sofrimento e com uma certeza:

– Eu não gosto de homem.

Desde então, só se relaciona com mulheres. Diz que não sofreu qualquer preconceito e que seu filho, que hoje tem 9 anos, sabe da sua namorada. Se apaixonou e a relação já dura sete anos.

Entre tudo que enfrentou, se assumir lésbica para o mundo não pareceu a maior dificuldade.

– E sou o que sou e acabou.

Dos 14 aos 18 anos Luzia trabalhou como empregada doméstica. Jurou que não trabalharia mais nessa área pelos desaforos que sofreu. E, então, trabalhou como babá, vendedora, “de tudo um pouco”, nas suas palavras.

Hoje vende chip de celular em frente ao Mercadão de Ribeirão Preto. Enfrenta mau tempo, sol de estralar, mas diz que já se acostumou.

Sonhava mesmo em ser dentista. Mas perdeu as esperanças.

– Eu já tenho 33 anos…

Escolheu, então, fazer um curso técnico em farmácia. Estudou alguns meses, parou pela canseira de trabalhar das 9h às 18h em pé e cuidar do filho, mas jura que retoma nesse ano.

– Quero conseguir um emprego melhor… um futuro para mim.

Ao filho, ensina o que considera importante.

– Eu digo para ele não bater em ninguém. Respeitar as pessoas.

E, quando chega ao fim da conversa, muda um pouco de ideia sobre o que anunciou lá no começo.

      – É… minha vida já foi muito triste, mas agora consigo relevar. Não é triste, não. É de boa.

Luzia já não sofre violência.

Deixe um Comentário

Comece a digitar e pressione Enter para pesquisar