Professor João atuou por 10 anos no sistema prisional, levando arte pelas grades

Vale a pena ler de novo! História publicada pela primeira vez em 24 de agosto de 2017!

 

Com o professor Jofra, o papo é reto.

– Muitos alunos têm esse discurso: nasceu dentro daquela realidade e não consegue sair. Eu quebro essa fala com a minha experiência.

João Francisco Aguiar foi criado pela mãe diarista, ia para a escola com o material escolar que a patroa ajudava a comprar, começou a trabalhar na adolescência de tudo quanto foi bico.

A faculdade só foi possível aos 22 anos, com bolsa e muito cansaço trabalhando como servente de pedreiro, pintor e telemarketing para pagar o que o desconto não atingia.

Ali, teve ainda mais certeza de que o mundo exige firmeza.

– As pessoas têm uma visão estética das coisas. Elas veem uma pessoa suja de tinta e não conseguem enxergar potencial algum naquela pessoa.

Mas, há muito, ele descobrira que o mundo de verdade tinha forma além-superfície.

A leitura fez o João menino romper o discurso.

Não foi o pouco dinheiro que fez o livro faltar. A mãe comprou uma coleção de grandes autores e avisou que João, 8 anos, só poderia ler aquelas obras – guardadas no alto da estante – quando fosse maiorzinho.

Os avós, porém, eram cúmplices em infrações literárias. Quando a mãe saía para o trabalho, João podia folhear o quanto quisesse aquelas páginas que quase não entendia.

– Eu aprendi a ler sozinho. Me envolvi com esse mundo e não deixei que o outro mundo me envolvesse.

A leitura criou rotas para a realidade de João.

Então, ele se tornou professor e durante 10 anos escolheu salas de aula limitadas por grades, dentro das penitenciárias da região de Ribeirão Preto.

Para um universo fechado em visões de uma só cor, João quis levar o colorido. Arte, música, poesia, fanzine, literatura:

– Tem muita frustração dentro desses espaços. A arte serve para canalizar toda essa energia de modo positivo.

Ele mostra rotas para quem anda no caminho que, da superfície, parece o único possível. Com papo reto.

– Você nasceu dentro dessa realidade e é possível sair. Mas é preciso que algo aconteça. Há que ter muito cuidado com o simplismo. Para que as coisas mudem, é necessário muito trabalho. Olhar a educação como prática, não como teoria. Eu acredito, mas depende de cada um de nós.

Professor João Aguiar penitenciária de Serra Azul

A faculdade de Letras veio como união de gostos.

– Três coisas me encantavam: o Fanzine, a possibilidade de escrever o que eu gosto e o jornalismo.

A primeira possibilidade de estágio, já como universitário, foi na Penitenciária de Serra Azul, em 2002.

É professor em escolas e cursinhos também, mas encontrou no estágio a sala de aula preferida.

Já formado, prestou concurso para professor da Fundação Casa, onde ficou por cinco anos. Começou ali a ensinar além da grade curricular, levando a arte em suas diversas formas.

– Eu dava a eles a possibilidade de terem voz, expressão.

Em 2013, voltou a atuar na Penitenciária de Serra Azul, onde ficou até semanas atrás.

Ali, João conta que viu presos voltarem a estudar, conquistarem diploma, escreverem livros e poesia, descobrirem os atalhos.

– Quando chega à sala de aula, o preso é cabisbaixo. Eles andam com a cabeça baixa e as mãos para trás. Só respondem ‘sim’ e ‘não’.

Ao professor, cabe transformar a sala de aula em um lugar além-cela.

– Você pode despejar o conteúdo e eles não vão reclamar. Mas depende da sua sensibilidade de compreender o que está acontecendo.

Conheci João na Feira Internacional do Livro de Ribeirão Preto, na roda de conversas com Ignácio de Loyola Brandão, junho deste ano.

Ele entregou ao renomado escritor um trabalho feito pelos seus alunos presos.

Mais tarde eu entenderia: João tem a sensibilidade de compreender o que está acontecendo.

 – Eu não consigo olhar para um aluno e ver um criminoso. Eu vejo a pessoa além do crime. O humano.

Diz que, então, nunca teve medo e nem sofreu qualquer ameaça.

Professor João Aguiar penitenciária de Serra Azul

João se emociona quando conta do ex-aluno que encontrou na rua. Estava a pé e o outro de moto, trabalhando de entregador numa pizzaria. Foi logo contando orgulhoso ao professor que está cursando Direito.

Mais uma motivação para continuar.

– O que me motiva a levantar todos os dias é a possibilidade de ter relações interpessoais. Na penitenciária, encontro relações que dificilmente encontraria aqui fora. A honestidade dentro de uma penitenciária é maior do que aqui fora, no sentido de olhar no olho, valorizar as expressões.

Há algumas semanas, João não é mais professor da penitenciária.

Não foi escolha sua e pretende, um dia, voltar para a sala de aula que tanto lhe ensina.

Sabe, entretanto, que, assim como o mundo, educar é além-paredes.

– O papel do educador é abrangente. Vou continuar sendo um professor seja na sala de aula ou na troca de ideias que surge em uma mesa de bar.

É professor em escolas, coordenador da zineteca Glauco Villas Boas, na Cerâmica São Luiz, especialista em criar rotas.

– Aqui fora, estamos preocupados com outras coisas. Lá (na penitenciária) eles têm uma única preocupação: a liberdade.

Aprendeu de menino a enxergar além.

Dados

A SAP (Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo) informou que, desde 2013, oferece ensino por meio de escolas vinculadas, onde os presos recebem aula de professores da rede pública de ensino dentro dos próprios presídios. A Lei de Execução Penal, artigo 126 parágrafo 1, prevê que a cada 12 horas de frequência escolar (ensino fundamental, médio, profissionalizante, superior ou de requalificação profissional) o detento subtraia um dia de sua pena.

A população carcerária do estado de São Paulo, de acordo com a SAP, é de 222.564 presos. Desse total, 33,9 mil presos estudam, o que representa 15,2%. As atividades oferecidas são: ensino formal, atividades estudantis complementares, cursos profissionalizantes e  Programa de Educação para o Trabalho (PET).

As duas unidades prisionais de Serra Azul abrigam hoje 3.558 presos, o dobro da capacidade das instituições, que é de até 1.712 presos de acordo com dados da SAP. Do total de presos, 341 estudam, o que representa 19,9%.

 

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